Calvaire (2004)

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CalvaireDesci novamente a escada que leva até o inferno chamado Nova Geração de Filmes de Terror Franceses mas dessa vez o tinhoso não estava em casa. Em seu lugar, encontrei uma releitura ruim de um dos maiores clichês do gênero e personagens que até agora não consegui decidir se classifico como doentios ou bobos.

O clichê: Marc Stevens (Laurent Lucas) é um cantor de música brega que excursiona através de seu país aquecendo o coração de velhinhos em asilos. Enquanto viaja para mais um de seus shows, ele é forçado a pedir ajuda de um estranho após seu carro quebrar na estrada. É noite e a chuva cai incessantemente, então Marc é levado pelo estranho até uma antiga pensão. Bartel (Jackie Berroyer), o dono do local, hospeda-o e lhe promete conseguir um mecânico no dia seguinte. Obviamente, quando amanhece, Bartel mostra-se um pouco menos solícito (e um tanto quanto mais sombrio) do que havia demonstrado inicialmente. Pobre Marc Stevens.

Os personagens doentios (ou bobos): Quando soma um mais um, o espectador percebe que Marc não foi exatamente esperto quando optou procurar por ajuda. Digo isso porque o personagem decide abandonar a relativa segurança que o interior do próprio carro lhe oferecia para embrenhar-se na chuva, através de uma floresta escura e assustadora, atrás de um homem que, apesar de prometer guiá-lo até a pensão, apresenta sinais claros de insanidade: repetitivo, autoritário e grosseiro, o personagem manda Marc calar a boca o tempo inteiro. O motivo? Ele precisa de silêncio para tentar ouvir o latido de um cão perdido. Veredito: Bobo.

Calvaire - Cena

Chegando na tal pensão, Marc é recebido por Bartel, que lhe oferece uma cama limpa e a promessa de que o dia seguinte será melhor. Amanhece, Bartel liga para o mecânico, serve o almoço e interessa-se pelo trabalho de seu hóspede. Ele também – conta empolgado – já fora um artista, um comediante que fazia todos rirem com suas piadas e esperteza. Infelizmente, a esposa o abandonara e levara junto com ela toda sua alegria, fonte de seu talento, e agora ele vivia lá naquele lugar isolado, triste e sem perspectivas. Marc ouve a história e, mesmo que não demonstre muito interesse, solidariza-se com o sofrimento daquele homem e canta-lhe uma canção que fala de amor. Resultado? Bartel acredita (ou força-se a acreditar) que Marc é a própria ex-mulher que regressara (!) e passa a fazer de tudo para prendê-lo no local. Veredito: Doentio.

Calvaire - Cena 2

A releitura ruim: Temos, portanto, o lugar-comum do filme de terror onde o personagem é atacado por pessoas doentias (e bobas) após seu carro quebrar no meio da estrada. Nota-se, porém, que o diretor e roteirista Fabrice Du Welz não recorreu a esse cenário apenas para fazer “mais um” título dentro do estilo. Com Calvaire,  Welz ambicionou executar uma releitura da fórmula através de citações de clássicos do gênero e do uso de metáforas. O diálogo descrito acima (Bartel contando sobre seu passado para Marc), a pensão e o travestismo que seu dono impõe ao hóspede remetem diretamente ao Psicose, do Hitchcock, por exemplo.

Calvaire - Cena 3

Sobre as metáforas, acredito que Calvaire, até mesmo devido a seu título, seja uma alegoria do diretor para a história de Cristo. Tradução literal, “calvário” é o nome da colina onde Jesus foi crucificado. Durante o filme, Marc encontra continuamente pessoas que esperam dele mais do que ele verdadeiramente podia ou estava disposto a oferecer: a senhora que deseja ser possuída após um show (argh!), a mulher que queria que ele abandonasse a vida na estrada para permanecer com ela, o homem que queria encontrar um cachorro aparentemente inexistente, o dono da pensão que viu nele a possibilidade de reviver o romance com a ex-mulher e, finalmente, os estranhos habitantes da vila que queriam tomá-lo do dono da pensão. Assim como o redentor, o personagem é perseguido e crucificado (literalmente) por pessoas a quem ele ofereceu apenas bons sentimentos. Humilhado, torturado e perseguido, Marc dá o troco demonstrando indiferença total a desgraça de seus algozes no clímax da história.

Calvaire - Cena 4

Com um impiedoso “Eu te amava”, Welz concluí sadicamente sua releitura do clichê e de sua versão sombria da história de Cristo, mas nem mesmo as boas referências e o roteiro bacana salvam Calvaire da cruz (me desculpem pela frase de efeito, não consegui resistir): lento, com personagens e passagens (a cena da dança no bar) que caminham no limite entre o doentio e o bobo e sensivelmente menos violento do que outros trabalhos que compõe a geração de filmes na qual está inserido (Martyrs, A Invasora), Calvaire não assusta, não ofende e raramente choca. Ao tentar dar novos contornos a roda, Welz acabou deixando-a deveras quadrada (HA!).

Calvaire - Cena 5

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  1. Acabei de assistir o filme, e acabei parando aqui pelo fato de querer preencher algumas lacunas que o filme me deixou. Aproveitando o ensejo, quero agradecer pela sua opinião.

    Deixo aqui minha teoria, seguindo sua sugestão: A Felicidade só é verdadeira quando compartilhada.

    Não li nada parecido, mas, pelo filme ser tão insano, cheguei a construir esse raciocínio.

    Acreditei que, de fato, Marc poderia ter sido a esposa do coroa da pousada. Acredito que assim como os moradores da região (que são todos loucos, me referindo a cena do bar), ele era a esposa do coroa e teve alguma espécie de amnésia temporal, juntamente com uma falsa sanidade.
    Ou seja, ele foi viver de música. O coroa disse que a esposa dele era cantora, então, me levei a pensar.

    Claro, é uma suposição boba de minha parte, mas… O que de fato me fez acreditar nisso, foi o questionamento que o coroa do bar fez para Marc no final do filme: VC AINDA ME AMA? E ele responde que SIM! Sem necessidade, claro! Ele poderia ter ignorado e ido embora, continuar fugindo.
    Enfim…
    Irei favoritar o blog e irei acompanhar, abraços.

    • Acredite, é exatamente ESSE tipo de comentário que tu fez que me motiva a escrever e publicar meus textos. Não há absolutamente NENHUMA “viagem” no que tu diz: o que eu li foi uma teoria bacana que me fez olhar o filme de outra forma. Obrigado e bem vindo 🙂

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