O Mensageiro (1997)

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The Postman - O MensageiroResenha feita para atender o pedido do leitor Felipe, morador da saudosa e nostálgica São José dos Campos-SP.

Eu sempre me pergunto qual critério os escritores de ficção científica usam na hora de escolherem o ano em que suas histórias sobre o futuro acontecerão. Eles usam um número aleatório, fazem algum tipo de previsão ou elegem um ano baseados em alguma data do passado que, de alguma forma, relaciona-se com os eventos que eles querem contar? 2074 pra cá, 3115 pra lá, geralmente os autores optam por datas distantes para poderem exercitar livremente suas ideias sobre novas tecnologias e eventos catastróficos, mas não são raros os exemplos de histórias que utilizam futuros imediatos como cenários e permitem ao público viver até aquela data para dizer “Hey, isso não aconteceu!”. 2013 ainda não acabou, mas a não ser que até o fim do ano o mundo seja varrido por uma guerra nuclear, os eventos de O Mensageiro entram para a lista de ficções não concretizadas e o filme perde um de seus poucos (para não dizer que é o único) atrativos.

Na trama idealizada pelo escritor David Brin, que foi adaptada para as telas pelo roteirista Eric Roth e dirigida pelo vencedor do Oscar (!) Kevin Costner, a sociedade que conhecemos foi devastada pela ativação de armas nucleares. Em 2013, um homem sem nome (Clint Eastwood Kevin Costner) percorre o território americano vivendo um dia de cada vez, vagando através de desertos e cidades destruídas à procura de alimento e abrigo. Como companheiro, o personagem têm apenas o burro Bill, o amigo que escuta sem reclamar todas as sandices esperadas de alguém que está há muito tempo isolado do convívio com seus semelhantes. A peregrinação termina quando o personagem, agora chamado de Shakespeare devido as suas habilidades como ator, é coagido a ingressar no grupo conhecido como Holnistas, uma gangue que utiliza o terror e táticas de guerra para explorar os poucos sobreviventes daquele mundo.

O Mensageiro 1997 - Cena

Uma das vantagens de criar um filme de 3 horas é poder desenvolver bem os personagens fazendo-os passar por numerosas e variadas situações de forma que o público possa entender melhor suas motivações e identificar-se com o que é mostrado. Uma das desvantagens é entediar esse mesmo público com cenas longas e desnecessárias de acréscimo duvidoso para a trama.

Felipe, você comentou que encontrou O Mensageiro em uma lista de filmes que não deveriam ser assistidos. Não sei quais os argumentos que o autor da tal lista usou para incluí-lo lá, mas apresentarei-lhe os que eu usaria para listá-lo em um grupo semelhante.

O Mensageiro 1997 - Cena 3

O Mensageiro trabalha com a ideia de que qualquer um, inclusive eu e você, pode transformar-se em um herói. Para tanto, não é necessário matar bandidos, pular de montanhas ou saber voar, basta ter coragem e determinação para enfrentar aquilo que está errado no mundo de modo que suas ações inspirem outras pessoas. O personagem do Kevin Costner sabia citar Shakespeare como ninguém, mas nem de longe ele poderia ser usado como um exemplo de coragem, já que ele foge quando encontra os Holnistas pela primeira vez e não ousa desafiar o chefe do grupo, que o humilha na frente de todos constantemente. Após os eventos que levam-no a escapar da gangue, o personagem encontra um cadáver que usava uma roupa de carteiro e resolve assumir a sua identidade, visando com isso conseguir comida e as vantagens que o respeito pela profissão evocaria. A habilidade de interpretação transforma a mentira em verdade e esperança, já que a população acredita que a presença do carteiro em suas cidades significa que o governo dos Estados Unidos estava sendo restaurado e que os Holnistas seriam finalmente derrotados. Shakespeare transforma-se no Mensageiro e começa a percorrer o país levando cartas e mensagens de fé no futuro, embuste que desperta o espírito americano adormecido após a guerra e garante-lhe alguns seguidores, muitos inimigos e uma quantidade sem fim de clichês, cenas bizarras e previsíveis.

O Mensageiro 1997 - Cena 2

Não é difícil notar que um dos pontos fracos do cinema americano é desenvolver inimigos à altura de seus heróis perspicazes e bem intencionados. Nazistas, comunistas e terroristas foram e são usados exaustivamente para moldar vilões e suas pretensões, o que é chato pela propaganda política alienante mas que incomoda esse que vos fala principalmente pela falta de criatividade. Os Holnistas não passam de nazistas pós-apocalípticos com suas teorias furadas sobre melhoramento racial com a eliminação dos fracos e doentes. Ocupando o posto de chefe dos desajustados, está o General Bethlehem (Will Patton), um homem cujos discursos, táticas e aspectos pessoais remetem diretamente ao Fuhrer alemão. Em uma cena sintomática, criticam-no pela seu desejo de erudição e por sua pobreza enquanto pintor.

O que inicialmente é apresentado como um filme de ação/ficção científica, transforma-se então em um drama após Shakespeare conseguir fugir das garras de Bethlehem, um drama arrastado, chato e cheio de patriotismo barato. Personagens desconfiam do Mensageiro, outros tratam-no como um messias e um sujeito pede para que ele transe e engravide sua mulher. Repetindo: um sujeito pede para que ele transe e engravide sua mulher. Isso dá início a parte do romance da trama e desemboca em duas cenas terríveis, uma por ser desnecessária e longa (o inverno na cabana) e outra por não fazer o mínimo sentido dentro da história (a dança estilo video-clipe). Faz-se necessário ainda a crítica a trilha sonora pomposa e exagerada que soa deslocada na maioria das cenas e que alcança um nível de cretinice inimaginável em um momento onde uma bandeira dos EUA é queimada.

O Mensageiro 1997 - Cena 4

Lá pelo começo do longa, um pouco antes da cena onde o roteiro critica abertamente filmes violentos como O Soldado Universal, os recrutas são apresentados as 8 regras dos Holnistas, sendo que uma delas dizia que qualquer membro do grupo poderia desafiar o chefe (Bethlehem) pelo comando da gangue. Não sei vocês, mas pra mim ficou óbvio desde então que esse seria o desfecho da trama e não é feito nada para superar essa entrega prematura do clímax. Assiste-se 3 horas de um vai e vem repleto de crianças com cara de feliz aniversário, personagens esteriotipados, cornos conformados e patriotismo para ver algo que é anunciado logo nos primeiros minutos.

Esses, Felipe, são os meus argumentos. Também gosto do Kevin Costner como ator, mas como diretor ele errou feio na edição deste filme, já que uma ideia relativamente simples que poderia ser apresentada com dignidade em no máximo 2 horas transformou-se em uma epopéia longa, óbvia e cansativa. Todo caso, obrigado pela indicação, espero que a resenha negativa não lhe impeça de sugerir outros títulos. Abraço.

O Mensageiro 1997 - Cena 5

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  1. Bom dia Luciano, obrigado pela resenha. É pelo jeito o filme é ruim mesmo, eu ainda nao tive a oportunidade de assisti-lo, mas se um dia eu tiver essa oportunidade e nao tiver nada pra fazer eu assisto à título de curiosidade. Mais uma vez agradeço por sua atenção.

  2. Pingback: El Cuerpo (2012) | Já viu esse?

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