Viva Zapata! (1952)

Padrão

Viva Zapata!Zapata era o apelido de um colega dos tempos de faculdade, um sujeito que estava sempre de cavanhaque, tocava violão e usava uma boina. Sempre achei ele mais parecido com o Guevara, nunca entendi o apelido. Emiliano Zapata, o personagem histórico, foi um dos líderes da Revolução Mexicana, um homem que fez frente à ditadura do presidente Porfírio Díaz e que lutou pelo fim dos latifúndios e pelos direitos dos indígenas. Viva Zapata!, produção de 1952 dirigido pelo Elia Kazan, é o filme que conta essa história (a do personagem histórico, AINDA não há material sobre as aventuras do colega citado).

Abrindo mão de narrar uma história tradicional enaltecendo os feitos memoráveis do herói mexicano, Elia Kazan, auxiliado pelo roteiro soberbo do John Steinbeck, opta por resgatar o homem comum sobre o qual o mito foi constrúido. Zapata (Marlon Brando) não furtava-se de levantar sua voz para denunciar as injustiças cometidas pelos fazendeiros contra os índios mesmo quando isso claramente significava colocar sua vida em risco. Classificado pelo governo como um agitador social e procurado como inimigo do Estado, Zapata esconde-se e organiza um grupo armado para depor a ditadura que oprimia os trabalhadores. O tempo traz a simpatia popular, alianças e inimigos para o guerrilheiro, o qual conta com a ajuda do irmão, Eufemio (Anthony Quinn), para vencer algumas batalhas e acaba perdendo outras tantas devido a impulsividade e a falta de alfabetização que o fazem confiar nas pessoas erradas.

Quinn e Brando

Quinn e Brando

Me corrijam se eu estiver errado, mas acho que é no Cavaleiro das Trevas que há um diálogo sobre heróis que vivem tempo suficiente para transformarem-se em vilões. Kazan, que viveu dilema parecido ao passar do status de um dos diretores mais respeitados de seu tempo para o de traidor, trabalha cuidadosamente essa transição antes de entregar para o público o herói que a história consagrou. Brando, que surge no filme irreconhecível com um bigodinho tosco e com roupas que não permitem que o público, em um primeiro momento, o diferencie dos outros atores, vai aos poucos demonstrando que o personagem não era apenas mais um dentre todos os nativos ignorados por Díaz. Apesar de não saber ler nem escrever, Zapata possui um discurso afiado e desafia a política a longo prazo que o presidente sugere para resolver a questão agrária. “Quem tem fome, tem pressa”, dispara o personagem, que pela afronta tem seu nome incluído em uma lista. Tempos depois, quando a Revolução já alcançou a maioria dos resultados desejados e Zapata encontra-se no poder, o personagem é confrontado por um grupo de cidadãos e, ao ser questionado sobre a distribuição das terras, dá uma resposta evasiva, vaga. Diante da reação agressiva do camponês, Zapata pergunta-lhe o nome para incluí-lo em uma lista de inimigos e o círculo fecha: a trama volta ao início mas há uma inversão de poderes e valores, o personagem olha no espelho e percebe que tornou-se justamente aquilo que um dia ele combatera.

Viva Zapata! - Cena 4

Kazan, que ficou conhecido sobretudo pelo excelente trabalho na condução de atores, utiliza o texto de Steinbeck e o talento de seus dois principais astros para mostrar sistematicamente que ninguém, nem mesmo os heróis imortalizados pela história, estão livres da chance de cometerem erros. Brando, como Zapata, apresenta o revés citado no parágrafo anterior antes de voltar as origens que motivaram a luta do personagem. Os atos de coragem de Zapata constrastam significativamente com seus momentos de instrospecção e vergonha diante da mulher amada e do analfabetismo, palmas para o talento do ator, que vai da cólera à timidez em uma mesma cena com uma naturalidade poucas vezes vista. O Eufemio de Quinn, fiel e honrado escudeiro do irmão, também sucumbe as mazelas do tempo e acaba atacando aqueles que jurara proteger. Mesmo com menos tempo na tela, o ator conseguiu imprimir paixão e contradições suficientes em seu personagem para ser coroado com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 1953.

Viva Zapata! - Cena 2

Fora o desenvolvimento de personagens, trunfo absoluto e inquestionável de Viva Zapata!, Kazan ainda oferece ao espectador cenas maravilhosas e variadas quanto ao gênero. O drama das discussões políticas, que impera na maior parte do tempo e que pode ser visto nos momentos já citados e também no final emblemático, divide a tela com cenas de ação muitíssimo bem coreogradas (o ataque com os dinamites e a prisão de Zapata são ótimos exemplos) e até mesmo com cenas de humor. Brando, provando mais uma vez sua versatilidade, participa de uma sequência engraçadíssima envolvendo ditados populares e juras de amor na ocasião em que vai pedir a amada em casamento.

Com Viva Zapata!, Kazan desdenha da idéia de perfeição e nos lembra que todo mundo está sujeito a cometer erros, até mesmo os nossos heróis. Indo mais além, o diretor diz claramente que cada um é responsável por si e que ninguém deve assumir o dever de carregar o mundo nas costas. Mais do que um homem, Zapata era uma idéia que qualquer um podia adotar em condições semelhantes, o não-conformismo que vai além do discurso e que encara as consequências do enfrentamento e das contradições internas.

Obs.: A música que toca durante a escolta do Zapata é MUITO parecida com a que é executada durante a cena do caixão do Kill Bill 2. Tarantino safadinho 😛

Viva Zapata! - Cena 3

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s