Somos Tão Jovens (2013)

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Somos Tão JovensSomos Tão Jovens garantiu seu sucesso comercial desde o dia que foi anunciado. As melodias do Legião Urbana, impulsionadas pelas letras do Renato Russo, transcenderam as barreiras do gênero musical e foram incluídas na trilha sonora de um número inimaginável de brasileiros. Fazer um longa metragem sobre a banda, principalmente em um momento onde o público tem se mostrado bastante receptivo aos filmes nacionais, foi uma jogada esperta, um investimento cujo retorno financeiro dificilmente dependeria da qualidade do produto oferecido.

O filme é conduzido pelo diretor Antonio Carlos da Fontoura, que, entre um e outro projeto obscuro, foi o responsável por duas novelas da Record, Vidas Opostas e Amor e Intrigas. Julguem isso como vocês bem entenderem. O roteiro, que é assinado por Victor Atherino (que também colaborou com o vindouro Faroeste Caboclo) e por Marcos Bernstein (famoso por seu trabalho em Central do Brasil), opta por um recorte temporal que mostra a trajetória de Renato Russo desde a adolescência até o primeiro grande show do Legião Urbana no Circo Voador. Eu opto por falar primeiro das poucas qualidades e depois dos muitos e decepcionates problemas do filme.

Nada, para esse que vos fala, é mais associável aos cursos de humanas do que a música Será. Além de conter um sentimento de revolta, dúvida e desespero típicos dos discursos universitários, a canção foi tocada por 8 em cada 10 pessoas que pegaram um violão durante as muitas e nostálgicas rodinhas e festas que participei durante a faculdade. Essa acabou sendo a minha música favorita da banda, um hino que cantei várias vezes e que me lembra de um dos períodos mais bacanas da minha vida. Também tenho boas recordações com a Tempo Perdido e a Faroeste Caboclo, música, aliás, que eu sempre uso para fazer piada sobre grandes espaços de tempo e que todo mundo parece ter um orgulho enorme de saber cantar inteira. Mesmo não ouvindo regularmente o som dos caras nem associando instantaneamente o substantivo “poeta” para adjetivar o Renato Russo toda vez que alguém cita a banda, tenho, portanto, a minha história com as canções deles e fiquei deveras emocionado quando os créditos iniciais, inspiradíssimos, diga-se de passagem, começaram a rolar com a melodia orquestrada da Tempo Perdido. Sabe aquele orgulho de alguém que vê algo que lhe é caro alcançado um novo patamar? Foi mais ou menos por aí.

Somos Tão Jovens - Cena 4

Quando o filme começa, duas coisas impressionam: a reconstrução de época e a caracterização do ator Thiago Mendonça. Thiago, que já vivera com grande semelhança o sertanejo Luciano no filme Dois Filhos de Francisco, está MUITO parecido com o Renato Russo, emulando não apenas o jeito de falar quanto a linguagem corporal espalhafatosa do cantor. A Brasília captada pelas lentes do Fontoura aparece na tela tal qual pode ser visto em fotos da cidade das décadas de 70/80, com roupas típicas da época, a presença dos militares, um sol escaldante, botecos copo-sujo e até mesmo um carro-relíquia da Kibon circulando pelas ruas.

O que há de melhor aqui, no entanto, é a forma como o personagem principal é construído e apresentado para o público. Renato, que logo no início sofre um acidente de bicicleta e passa por uma cirurgia, é obrigado a ficar vários dias deitado em casa repousando. Lendo e ouvindo músicas para passar o tempo, ele adquire muito do conhecimento e dos sentimentos que futuramente poderiam ser vistos em suas composições. À recuperação segue-se o interesse pelo punk, a formação da banda Aborto Elétrico, o desenvolvimento da personalidade forte, brigas com a família e com os amigos, o assumimento da homossexualidade e, finalmente, os primeiros passos do Legião. Como é comum nas cinebiografias, Renato tem algumas de suas fraquezas expostas, como a insegurança nos relacionamentos e a arrogância intelectual, que não raras vezes podiam ser notadas em seus discursos afiados. Gostei sobremaneira de mostrarem que a amada linguagem poética dele nascia principalmente de situações cotidianas e do desespero fruto do tédio que ele sentia por considerar-se socialmente e intelectualmente isolado. Com uma caneta na mão, o chato, pedante, arrogante e idiota que tu tanto odeia pode dar forma a letras e canções que embalarão sua vida.  Pense nisso.

Somos Tão Jovens - Cena

Os elogios cessam e tornam-se impossíveis quando olhamos para outros aspectos do roteiro, como os diálogos e a consistência da trama como um todo. Somos Tão Jovens mostra não somente como foi formado o Legião Urbana, mas também como surgiram as idéias para algumas de suas canções mais conhecidas. Quando Renato, revoltado com a política, levanta de uma mesa de bar e grita “Que país é esse?”, o espectador sorri internamente por reconhecer a referência que o filme faz, sentindo-se feliz por entender o que está acontecendo. Aí repetem o recurso várias vezes, transformando algo que inicialmente fora legal em momentos artificiais que denunciam a mão do roteirista preocupado em agradar. A inventividade do cineasta ao usar imagens em sépia para envelhecer e ambientar certas cenas não estende-se ao posicionamento das câmeras e enquadramentos. Que eu me lembre, Somos Tão Jovens é o filme mais “tremido” que eu assisti. A câmera que passeia frenéticamente pelo cenário, técnica comum nos filmes de ação, é um dos grandes equívocos de Fontoura, que tenta imprimir um ritmo de videoclipe desnecessário e tosco durante as cenas onde Renato apresenta-se com suas bandas.

Somos Tão Jovens - Cena 3

Esses detalhes, que poderiam ser facilmente ignorados diante de um produto consistente, crescem em tamanho e importância devido a frustrante sequência final. Após Renato separar-se do Aborto Elétrico para seguir carreira solo, o filme abandona o desenvolvimento dos personagens para apresentar uma sequência de performances musicais que, apesar de apresentarem as primeiras execuções de grandes clássicos da banda, pouco ou nada acrescentam a trama. É então que, em um dos maiores anti-clímax da história do cinema nacional, o filme termina não com uma reflexão ou uma cena construída pelo talento dos roteiristas, mas sim com a exibição de imagens reais da banda tocando no Circo Voador. A reação geral, pelo menos do pessoal da sessão que eu assisti, foi algo do tipo “Ué, acabou?”.

O valor de Somos Tão Jovens está em algo que foi construído a priori por Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, que são as músicas e a trajetória de uma das maiores bandas da história do rock nacional. Fontoura, Atherino e Bernstein, ao meu ver, perderam a chance de fazer um dos filmes mais emocionantes e amados que esse país já viu e isso é algo que eu lamento profundamente.

Somos Tão Jovens - Cena 2

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  1. Não gostei do posicionamento das câmeras, o filme retratou uma parte muito pequena da vida ( faltou a infância e principalmente tudo que ele viveu após montar o Legião) do Renato, e falou nada sobre a banda Legião Urbana. Fiquei decepcionada.

  2. Pingback: Faroeste Caboclo (2013) | Já viu esse?

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