Os Infratores (2012)

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Os InfratoresA espécie humana, de formas um tanto quanto subjetivas e inconscientes, move-se através da história impulsionada por atos que visam sua autopreservação e perpetuação. No livro Leviatã, o autor Thomas Hobbes defende a idéia de que a vida em sociedade nasceu principalmente da necessidade de garantir-se condições para essa perpetuação. Para evitarmos um cenário onde todos guerreariam contra todos, abrimos mão da liberdade total e transferimos o poder de legislação para o ser artificial chamado Estado. O contrato social imaginário que, teoricamente, todos endossamos quando estamos dentro dos limites geográficos desse estado, é materializado na forma de leis, leis que sacrificam liberdades individuais em nome do bem comum. Os conflitos entre Estado e cidadão surgem principalmente quando esse “bem comum” não existe (ou não está suficientemente claro) ou quando o cidadão não está disposto a deixar o Estado interferir em suas decisões pessoais.

Entre os anos de 1920 e 1933, os Estados Unidos adotaram a Lei Seca Total, o que significa que ficou proibido a fabricação, transporte e venda de bebidas alcoólicas no país. Dentre os motivos conhecidos, atribui-se à lei a um movimento moralizante que considerava que o alcool, além de prejudicar a saúde física e psicológica, era socialmente degradante. Como essa opinião não era compartilhada por todos, em pouco tempo estabeleceu-se um gigantesco sistema de comércio ilegal de bebidas e o crime organizado instalou-se no país. O Estado, na ocasião diretamente representado pela polícia, primeiro combateu e depois passou a participar do esquema, cobrando propina para fazer “vista grossa”. É claro que nem todos os traficantes estavam dispostos a pagar pela proteção, afinal de contas eles eram o que eram justamente pela coragem de burlar a lei. Algumas pessoas, meus amigos, não se curvam para ninguém.

Os Bondurant

Os Bondurant

Jack (Shia LaBeouf), Forrest (Tom Hardy) e Howard (Jason Clarke), os irmãos Bondurant, fazem parte de uma família sobre a qual conta-se uma lenda de imortalidade. Tendo sobrevivido a afogamentos e até mesmo a terrível gripe espanhola, os Bondurant estabaleceram-se em uma pequena cidade do estado da Virgínia apoiados por sua resputação e pelo lucrativo comércio ilegal de bebidas caseiras. Diposto a controlar o contrabando, o violento capitão Rakes (Guy Pearce) chega na cidade e inicia uma “limpeza” que inclui a taxação das atividades e a eliminação dos descontentes. Os Bondurant, #chateados, optam por enfrentar as consequências.

Recordo-me de um monólogo no filme O Curioso Caso de Benjamin Button onde o personagem do Brad Pitt dizia que havia estado em vários lugares do mundo e que, independente das diferenças geográficas e culturais, todos os povos celebravam suas alegrias e tristezas bebendo. Degradante ou não, prejudicando ou não a saúde, embriagar-se para relaxar ou para fugir momentaneamente da realidade é uma opção cuja decisão, acredito, cabe tão e somente ao cidadão. Em um dos cartazes de Os Infratores, lê-se que “quando a lei torna-se corrupta, os fora-da-lei tornam-se heróis”. No caso, inverte-se a questão do mocinho x bandido não somente pelo policial interpretado brilhantemente pelo Guy Pearce ser o diabo em pessoa, mas também porque o estado americano, contrariando a máxima “it’s a free country” pelo qual o país é conhecido, tentou retirar um direito legítimo de seus cidadãos. O crime, então, assume contornos de uma genuína revolta contra o estado.

Forrest e Jack

Forrest e Jack

Os Infratores, filme comandado pelo diretor John Hillcoat e baseado em um livro escrito por um descendente da família Bondurant (Matt Bondurant), é um desses trabalhos que romantizam e tornam convidativa a vida vivida às margens da sociedade. Bebendo, acredito, na fonte chamada O Poderoso Chefão, Hillcoat caracteriza seus personagens e conduz a história aproveitando os caminhos trilhados pelo lendário Francis Coppola. Jack, com sua vontade de ingressar nos negócio da família eclipsada apenas por sua falta de coragem e decisão, é uma mistura de Michael e Fredo. Howard, assim como Sonny, é a brutalidade aliada a falta de bom senso. Forrest, por sua vez, tal qual o Don Corleone, é o cérebro da família, o sujeito forte e inteligente que, mesmo debilitado, consegue comandar os negócios e inspirar medo nos adversários. As semelhanças não param por aí: Jack compartilha o mesmo destino do personagem do Al Pacino quando recebe uma surra de um chefe de polícia e ainda é o membro da família responsável pelo romance da história. Forrest também recria a cena das laranjas do Marlon Brando quando é surpreendido em um bar por dois bêbados. Acreditem se quiserem, o que acontece com ele é ainda mais brutal do que a saraivada de tiros recebida pelo Don.

Argh!

Argh!

Particularmente, esses paralelos com o Chefão não me incomodaram. Ao contrário do que acontece em outros filmes que baseiam-se em clássicos de seu gênero, como o recente Oblivion, Os Infratores possui uma excelente história e não depende unicamente dessas referências para sustentar-se. Tom Hardy, que vem firmando-se como um dos grandes nomes dos atores de sua geração, está nada menos do que sensacional no papel de Forrest Bondurant, um sujeito frio e calculista que não admite precisar da ajuda de ninguém mas que durante a trama acaba dependendo da frágil personagem da Jessica Chastain para sustentar uma das muitas lendas que contam sobre si. Chama atenção ainda a participação do veterano Gary Oldman como o gangster Floyd Banner, praticamente um semi-deus dentro do mundo do crime que surge diante dos olhos espantados de Jack Bondurant metralhando um carro e, principalmente, a covardia desse último, algo que, de tão real, chega a dar raiva.

Os Infratores, além de trazer referências ao maior de todos os filmes de crime já feitos, tem uma narrativa fluída, que mistura bem cenas de violência (o ataque sofrido por Forrest) e humor (Jack e o amigo usando bebidas como combustível para o carro) e, definitivamente, coloca o nome Bondurant no hall de personagens cool dos filmes de gângster. Se, assim como eu, tu não conseguiu assistir esse no cinema, recomendo que tu procure por ele o quanto antes.

You're a Bondurant, and tou lay down for everybody

You’re a Bondurant, and you lay down for everybody

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  1. Pingback: Caça aos Gângsters (2013) | Já viu esse?

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