O Terceiro Tiro (1955)

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O Terceiro TiroO Terceiro Tiro, originalmente, recebeu o nome de O Problema Com Harry (The Trouble With Harry), título enigmático que, segundo uma teoria bizarra e divertida que acabei de ler, esconde mais do que a história acaba por revelar.

Aparentemente, o problema de Harry é simples e definitivo: ele está morto. Enquanto anda pela floresta com sua arma de mentirinha, o garoto Arnie (Jerry Mathers) escuta três tiros e, logo em seguida, encontra um cadáver. No meio tempo em que ele corre até a mãe (Jennifer, interpretada pela atriz Shirley MacLaine) para comunicar o achado, o corpo também é encontrado, alternadamente, por um bêbado, um doutor e pelo Capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn), o qual julga-se imediatamente o culpado pela morte. Acontece que o Capitão encontrava-se ali caçando e associou um dos tiros que disparara contra um coelho com o corpo daquele pobre coitado. E agora, o que fazer? Esconder o corpo? Sim, esconder o corpo! Wiles prepara-se para arrastar o defunto quando… surge mais uma testemunha, a Sra. Ivy Gravely (Mildred Natwick).

É convenientemente engraçado que metade da população daquela pequena cidade tenha resolvido caminhar na floresta naquele dia e passando justamente por aquele mesmo local. Conveninente, engraçado e proposital. Com O Terceiro Tiro, o diretor Alfred Hitchcock quis introduzir um tom humorístico dentro do gênero que o consagrou, o suspense. Há uma morte, tentativas de ocultar um cadáver e o medo dos personagens de serem descobertos pela polícia, elementos comuns dentro da narrativa hitchcockiana, mas tudo é feito com o objetivo de provocar o riso através das várias situações absurdas que sucedem-se na tela.

Independente do gênero, o talento do diretor transborda em cenas como essa

Independente do gênero, o talento do diretor transborda em cenas como essa

John Forsyth, que interpreta o pintor falastrão Sam, também descobre o corpo enquanto anda pela floresta procurando inspiração para uma de suas telas. Simpático a versão do Capitão de que tudo não passara de um acidente, ele decide ajudar o amigo a enterrar o corpo. Até aí tudo normal, mas duas coisas chamam a atenção nessa cena:

  • Sam só percebe que há um corpo caído no chão após desenhar todo o cenário e notar que, em seu próprio desenho, há … um homem no chão!
  • Após enterrarem Harry, os dois percebem que há uma chance da morte não ter sido provocada por um dos tiros do Capitão. Harry é desenterrado para conferência e enterrado novamente. Surge uma nova questão, Harry é desenterrrado…

Ao todo, o corpo é sepultado incríveis quatro vezes durante a 1h39min do filme rs. Hitchcock reforça o humor principalmente com as músicas e os cenários escolhidos para O Terceiro Tiro, que traz composições majoritariamente alegres e paisagens coloridas. O resultado final lembra uma fábula, com os personagens enfrentando problemas em um ambiente mágico e aprendendo uma lição de moral, que parece ser algo relacionado a importância de falar a verdade.

O Terceiro Tiro - Cena 3

Apesar de ter sido um fracasso de bilheteria, Hitchcock considera O Terceiro Tiro um de seus melhores filmes. Não discuto o gosto do diretor mas, apesar de reconhecer que ele até saiu-se bem por ser algo fora de seu campo habitual de trabalho, não acho que há comparações justas entre este filme e clássicos como Psicose, Os Pássaros e Janela Indiscreta. É um bom filme, com um mistério instigante que é resolvido durante a trama e boas atuações (o menino Jerry Mathers está ótimo), mas eu não o colocaria em uma lista dos melhores trabalhos do diretor.

**SPOILERS**

A teoria sobre o real problema de Harry (que pode ser lida, em inglês, aqui), diz respeito a uma provável homossexualidade do personagem. Em um certo ponto da trama, Jennifer conta que fora casada com Harry, mas que eles não consumaram o casamento nem na primeira, nem na segunda noite de núpcias. Complementando, ela diz que acreditava que o marido a obrigaria a “lavar a louça” sozinha, e que ela não gostava de fazer nada assim, sozinha, solitária … Segundo o autor da teoria, Htchcock nos diz aqui que Harry era gay e que a esposa o abandou por medo de não ter o casamento consumado, de precisar recorrer a masturbação (lavar as louças sozinha rs) para satisfazer seus desejos sexuais. Essa análise ganha força quando descobrimos que Sam, que pede Jennifer em casamento durante o longa, solicita a compra de uma cama de casal para os dois, notícia que arranca um sorriso aliviado e malicioso da viúva. Verdade ou não, essa versão do “problema” do Harry acaba sendo tão ou mais interessante do que o próprio filme rs

Tira, põe, enterra, afunda...

Tira, põe, enterra, afunda…

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