Os Abutres Têm Fome (1970)

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Os Abutres Têm FomeChega desse Clint Eastwood velhinho e cego. Em 1970, o ator já era um astro consagrado pela Trilogia dos Dólares do Sergio Leone e, no auge de sua forma e fama, estava prestres a encarnar aquele que seria um de seus personagens mais famosos, Harry Callahan, o qual apareceria pela primeira vez no ano seguinte no clássico Perseguidor Implacável do Don Siegel. Os Abutres Têm Fome, que também é assinado por Siegel, encontra-se cronologicamente entre o Homem Sem Nome e Callaham e, de certa forma, pode ser considerado uma transição entre os dois.

As terras desertas do México ganham vida através da música do Ennio Morricone (sempre ele) e de closes que revelam animais e insetos peçonhentos escondidos pela rala vegetação. Um homem, que cavalga solitário e despreocupado através de todos esses perigos, ouve gritos de uma dama desesperada. Poucos metros à frente, uma mulher está prestes a ser violentada por três bandidos (sempre eles). Hogan (Eastwood) ignora o convite da gentalha para juntar-se àquela “festinha” e rapidamente elimina todos eles. Inesperadamente, a mulher começa a rezar por suas almas e pede para que Hogan dê-lhes um enterro cristão. Sara (Shirley MacLaine) é uma freira. Perseguida pelo exército francês por ajudar a revolução juarista,  Sara arrasta Hogan em uma fuga através das terras mexicanas esperando que, no final, ele ajude-a contra os franceses. Hogan, por outro lado, só pensa em aproveitar a oportunidade para ganhar uns dólares a mais e, quem sabe, faturar a freira. Faturar, aliás, é uma palavra muito feia, mas Sara também não é lá uma freira muito certinha: ela fuma, bebe e fala palavrões.

Os Abutres Têm Fome - Cena 3

O Homem Sem Nome e Callaham são personagens solitários, mas o segundo praguejava falava mais do que o primeiro e o Dirty Harry já demonstrava um lado “romântico” que não pode ser encontrado no pistoleiro dos filmes do Leone. Hogan é o meio termo, o homem taciturno e bruto que estava muito bem sozinho até que uma mulher de olhos azuis cruzou seu caminho e, diferentemente das prostitutas com as quais ele estava acostumado, não deitou-se com ele na primeira noite. Nota-se ao longo do filme que o desejo do personagem por ouro vai ficando em segundo plano a medida que ele e Sara vão ficando mais íntimos. Hogan dá voz para o Homem Sem Nome e abre espaço para que Dirty Harry venha na sequência com seu discurso intolerante contra a criminalidade. As mulheres, mais do que apenas um meio para redimir-se (como acontece, por exemplo, no Por um Punhado de Dólares), passam a serem um objetivo tão ou mais sedutor do que o ouro.

Os Abutres Têm Fome é um filme bacana que capenga em alguns momentos. A cena inicial, por exemplo, é muito divertida e lembra o que há de melhor na Trilogia dos Dólares, com frases de efeito, closes, tiroteios rápidos e senso de humor. Hogan adora utilizar dinamite e nessa cena ele simplesmente joga uma contra o bandido que segura e ameça Clara. Sem entender como aquele homem poderia arriscar a vida da mulher, o bandido solta-a e, estupefato, é baleado e morto. Não dá para deixar de rir da cara dele. Esse tipo de diversão repete-se em outros pontos da trama, como na cena da explosão da ponte e até mesmo na agoniante sequência da retirada da flecha (que, segundo Eastwood conta em sua biografia escrita pelo Marc Eliot, era sua atuação favorita até então), mas é intercalada por momentos inúteis como quando Sara precisa subir na árvore para livrar-se de uma fera, e toscos, que é o caso da preparação que Hogan faz para enfrentar os franceses em uma ruína: o tal animal não aparece (a não ser que mulheres mexicanas possam ser consideradas como tal) e a batalha não acontece, o que passa uma sensação desagradável de que toda a preparação para ela serviu apenas para aumentar o tempo do longa.

O homem solitário que, finalmente, admite que precisa de ajuda

O homem solitário que, finalmente, admite que precisa de ajuda

Em um filme onde o ator buscou uma “humanização do Homem Sem Nome”, é normal que não haja um vilão clássico como o Feio ou Ramón Rojo para ele enfrentar em uma batalha final, visto que na vida real dificilmente nossos problemas e dificuldades aparecem personificados. No entanto, é notável que a falta de uma ameça constante como aquela provocada por um inimigo contribui para um certo marasmo durante o filme. Sabemos que o objetivo da dupla é vencer os franceses, mas esses aparecem poucas vezes durante a trama e, tirando a última cena, praticamente não oferecem perigo para os personagens. O resultado disso são cenas que parecem que foram costuradas dentro da história (a já citada cena da fera e os índios que surgem do nada e vão embora do mesmo jeito) para acrescentarem tensão, o que nunca é bom.

Os Abutres Têm Fome não é o melhor faroeste do Clint Eastwood que eu já assisti, mas isso deve-se principalmente ao nível quase inalcançável dos trabalhos do Leone. Todo caso, é um filme importante dentro da filmografia do ator e, se possui relativamente poucas cenas de ação, compensa com uma boa reviravolta no final, um bom desenvolvimento de personagens e um humor afiado. Eu não sei vocês, mas uma freira montada em um burrico e um mercenário que troca o revólver por dinamites são coisas que me fazem rir.

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