Curvas da Vida (2012)

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Curvas da VidaClint Eastwood, com seus 82 anos, continua incrivelmente ativo no mercado cinematográfico, mas observando sua filmografia qualquer um percebe que ele tem abandonado progressivamente o trabalho como ator para dedicar-se a direção. Curvas da Vida encerra um hiato de 4 anos desde Gran Torino, sua última atuação, sendo que no mesmo período ele dirigiu 5 filmes (o próprio Gran Torino, A Troca, Invictus, Além da Vida e J. Edgar). Eastwood nunca escondeu sua vontade de ganhar o Oscar de Melhor Ator (ele concorreu com Os Imperdoáveis e Menina de Ouro), mas a impressão que eu tenho é que, depois da Academia ter ignorado completamente seu Walt Kowalski (personagem que, de certa forma, resumia tudo que ele fez durante sua longa carreira), ele meio que abandonou o projeto, pelo menos por hora. Curvas da Vida é um filme pequeno e despretensioso que agrada mais pelo conjunto do que por méritos individuais de qualquer um dos envolvidos.

O roteiro, seguindo a linha recente de trabalho do ator, traz um personagem tendo que lidar com os problemas da velhice. Gus (Eastwood) é um olheiro de um time de baseball, o responsável por encontrar jogadores novos com potencial para brilharem nos grandes times do país. Gus é uma lenda dentro da área que atua, mas a idade e os problemas de visão que os anos lhe trouxeram bem como as novas tecnologias usadas para descobrir talentos ameaçam seu cargo. Preocupada com o futuro do pai, Mickey (Amy Adams) junta-se a ele para ajudá-lo a decidir sobre uma importante contratação e então alguns problemas familiares vem à tona.

O filme abre com uma cena que me lembrou bastante o início de RED: o diretor Robert Lorenz nos mostra uma parede repleta de retratos do personagem em seus momentos de glória durante sua juventude. A câmera movimenta-se e revela o mesmo personagem no banheiro, obviamente de costas, fazendo um esforço sobre-humano para conseguir urinar. A mensagem é clara: o tempo passa para todos, inclusive para aqueles que estiveram no topo. A questão é que Gus não aceita isso. Solitário, o personagem insiste em viver sozinho e continuar fazenda as coisas exatamente como ele fazia em seus melhores dias. Vítima de uma doença que está gradativamente comprometendo sua visão, o olheiro tem dificuldades para continuar desempenhando sua função (ele tropeça constantemente nos móveis da casa e, em uma cena chave, faz uso de uma lupa para ler um jornal) e desperta a preocupação de um de seus melhore amigos (interpretado pelo excelente John Goodman), o qual entra em contato com sua filha e pede para que ela intervenha na situação. Mickey, que está prestes para ser promovida onde trabalha, vê nessa situação uma chance para reaproximar-se do pai e vai correndo até ele.

Cadê?

Cadê?

Clint não dirigiu nem escreveu o roteiro de Curvas da Vida, mas o filme, que foi produzido por sua empresa, a Malpaso, não poderia ser mais pessoal. Pai de 5 filhas e dois filhos de cinco mulheres diferentes, o ator, segundo a biografia Clint Eastwood – Nada Censurado do Marc Eliot, não dedicou-se a todos eles, sendo que alguns tiveram que permancer no anonimato durante muitos anos. Gus, que também não conviveu com Mickey durante a maior parte da vida dela, redime-se diante dos olhos da filha após revelar um detalhe sombrio de sua infância que ela não conhecia. Nas entrelinhas, temos um pai que justifica sua ausência devido a uma causa maior, um homem que pede compreensão por suas falhas e que revela que também sofreu com elas. No outro arco da história, temos o novo contro o velho, a inovação contra a experiência. O personagem que quer tomar o lugar de Gus como olheiro do time é unidimensional, o tal “almofadinha” idiota que nunca sai do escritório e que busca apenas retorno financeiro na profissão. Com seu computador e estatísticas, ele não é capaz de entender o verdadeiro significado do jogo, o fator humano que homens como Gus compreenderam após anos de profissão. Clint, que apenas vez ou outra utiliza sequências geradas por computador em seus filmes e, após quase 6 décadas, permanece como um astro rentável, também manda seu recado para aqueles que acham que o modelo tradicional de fazer cinema está acabado.

Curvas da Vida - Cena 2

Curvas da Vida é um filme deveras simples, com atuações medianas e um daqueles finais que fecham todas as pontas da trama com uma lição de moral. Clint tem seu melhor momento na cena do cemitério, Amy Adams está encantadoramente bonita mas já mostrou que pode render mais e o Justin Timberlake fica no limite entre o ruim e o aceitável. O teste final do jogador observado durante o filme é exagerado mas cumpre seu papel enquanto clímax e os argumentos desenvolvidos pelo roteiro, principalmente aqueles que dizem respeito a disputa entre o novo e o velho, poderiam ser menos maniqueístas. O Sr. Eastwood, que não tem mais nada para provar pra ninguém, pode dar-se ao luxo de participar sem muito esforço de um filme desses para dizer o que quiser da forma como quiser. Acredito, no entanto, que ele ainda guarda algo para seu último ato, uma atuação e um personagem bons o suficiente para colocá-lo novamente entre a lista dos indicados ao Oscar, a chave de ouro que fecharia uma das carreiras mais impressionantes da história do cinema.

Curvas da Vida - Cena 3

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