Sinfonia de Paris (1951)

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Sinfonia de ParisEu, definitivamente, não tenho dom para música. Já gastei várias horas lendo partituras e fazendo calos nas pontas dos dedos tentando aprender a tocar violão e, no ápice do meu “desenvolvimento”, consegui apenas tocar a melodia do Hino Nacional totalmente fora do ritmo. Cantando, então, eu consigo ser pior ainda, já que as minhas tentativas de simular a voz do Chris Cornell nunca me rendem palmas quando vou no karaokê. Mas nada, nada mesmo, se compara com a minha falta de habilidade para dançar, fato aliás que me deixa muito triste.

Em um dos muitos embalos de sábado a noite da minha obscura solteirice, fui com um amigo em um lugar chamado Fazendão. Para quem é da cidade de Uberlândia-MG, esse relato está, necessariamente, vinculado a boas risadas, visto que ninguém, em sã consciência, vai no Fazendão. Para quem não conhece, trata-se de uma casa de shows voltada principalmente para o público da terceira idade, onde tu desvia dos morcegos do teto e das tias de bota e chapéu enquanto tenta dançar as músicas sertanejas conduzidas com muito carisma por um cidadão de camisa listrada e seu teclado Cássio. Entre uma cerveja e outra e cansado de observar o espetáculo da destruição, decidi juntar-me a ele e convidei uma daquelas criaturas noturnas para a dança. Fomos para a pista, peguei na cintura dela, ela colocou a mão no meu ombro, soou a primeira nota do teclado, dei um passo para o lado e ela falou “Ih, não”. IH, NÃO! Essa é a minha história com a dança (que, vez ou outra, ainda rende alguns pisões no pé da minha paciente e incansável noiva), esse é o meu trauma.

Sinfonia de Paris - Cena

Enquanto ainda não encontrei tempo e disposição para aprender a dançar, sigo como um humilde admirador da técnica. Gosto muito do estilo clássico mostrado em filmes como o Cisne Negro e Os Sapatinhos Vermelhos e admiro a rapidez e as improvisações dos passos modernos que são mostrados na série Ela Dança, Eu Danço, mas nenhum deles satisfaz tanto o meu “gosto estético”, por assim dizer, quanto o do sapateado frenético do Gene Kelly. Assisti Cantando na Chuva para conhecer o clássico e o ator, mas cheguei até Sinfonia de Paris, vencedor do Oscar de Melhor Filme de 1952, unicamente para vê-lo dançar e não fiquei decepcionado. O roteiro simples (três amigos vivendo na capital francesa, sendo que dois deles apaixonam-se pela mesma mulher) é o pano de fundo necessário para as sequências de dança fantásticas conduzidas pelo diretor Vincente Minnelli e coreografadas pelo próprio ator.

Sinfonia de Paris - Cena 3

Adaptação de um espetáculo da Broadway, Sinfonia de Paris aproveita a “aura artística” da cidade para criar as nuances de seu roteiro e os belos cenários onde o espetáculo musical desenvolve-se. Jerry Mulligan, personagem do Kelly, é um pintor orgulhoso que compensa a falta de dinheiro com uma paixão contagiante de viver. Tendo seu trabalho descoberto por uma solteirona rica, Jerry recusa-se a vender seu amor em troca do apoio financeiro e artístico que ela lhe promete e acaba apaixonando-se por Lise (Leslie Caron), namorada de um de seus melhores amigos.

Os quadros pintados por Jerry, suas esperanças relacionadas a Lise e a vida boêmia de Paris inspiram as músicas cantadas e dançadas por Kelly e o restante do elenco. A história começa simples e termina da mesma forma, mas os números musicais crescem consideravelmente em duração e qualidade dentro da trama, começando com o despertar de Jerry, que movimenta-se dentro de seu quarto com leveza e graciosidade típicas de quem dança, e termina com uma sequência maravilhosa de 17 minutos onde o casal principal exibe sua técnica em cenários baseados nas pinturas do personagem.

Sinfonia de Paris - Cena 2

Imitando um trem, saltando através dos cenários, subindo em cima de um piano, conduzindo um coro de crianças e interagindo com a atriz Leslie Caron (que é dona de um exótico rosto de boneca), Gene Kelly é a estrela absoluta de Sinfonia de Paris. Sinceramente, eu, com os meus pés de chumbo, sinto inveja da forma como ele dança. Ciente de que nunca alcançarei tal nível (nem você, amigo leitor), contento-me por hora em sentir-me feliz pelos vários filmes do ator que ainda restam para serem assistidos e pela inspiração que eles provocam. Abaixo, uma parte da grandiosa sequência final. É uma cena mais lenta e nela o ator nem “humilha” muito, mas é sem dúvida um dos momentos mais lindos do filme. Clique, emocione-se e junte-se a mim no cantinho da mediocridade artística.

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