Filadélfia (1993)

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FiladélfiaJá tem um bom tempo que eu não ouço falar que alguém morreu em consequência das mazelas provocadas pela AIDS. Quando eu era criança, o dono da fazenda onde o meu avô trabalhava aparentemente adquiriu a doença e não resistiu e nomes conhecidos como Cazuza e Freddy Mercury tiveram a causa de suas mortes associadas ao HIV. Lembro ainda de ver várias propagandas do Ministério da Saúde e semelhantes alertando sobre os riscos da doença. De qualquer forma, já faz um bom tempo que eu abandonei a televisão, portanto o “sumiço” da doença do qual estou falando não tenciona diagnosticar o fim da mesma, seu controle ou sua inexistência (como apontam algumas teorias da conspiração facilmente encontradas na internet). Esta reflexão, no entanto, me leva a pensar que alguma coisa mudou no tocante a forma como a AIDS era vista há uns 10-15 anos. O tempo e o conhecimento por ele trazido, penso, serviram para derrubar parte dos preconceitos, medos e falta de informações que marcaram os primeiros anos após a descoberta da doença.

Desempenhando uma papel importantíssimo nesse processo de conscientização, o hollywoodiano Filadélfia, filme do diretor de O Silêncio dos Inocentes, Jonathan Demme, estrelado pelo queridinho Tom Hanks e pelo Denzel Washington, conta a história de um aidético que foi demitido da empresa onde trabalhava, segundo ele acredita, devido ao preconceito de seus empregadores. Andrew Beckett (Hanks), advogado, escondeu o quanto pode a doença (e sua homossexualidade) de seus patrões, mas as manchas em sua pele acabam por denunciar sua condição e, após o desaparecimento suspeito de documentos importantes de um caso no qual o personagem trabalhava , ele é demitido sob a acusação de incompetência. Indignado com a provável sabotagem, Andrew procura o também advogado Joe Miller (Denzel) para representá-lo em um processo contra a firma de advocacia na qual trabalhava.

Filadélfia - Cena

Filadélfia, que abre com imagens da cidade e seus moradores ao som de Streets of Philadelphia, hit do Bruce Springsteen vencedor do Oscar, saiu justamente na época que eu citei no primeiro parágrafo. Em 1993, eu estava com 8 anos e tinha pouco mais de uma década que a doença havia sido diagnosticada em um grupo de homossexuais na cidade de Los Angeles. Inicialmente relacionada aos gays, hemofílicos, usuários de heroína e haitianos (!), naquele ano a AIDS ainda permanecia estigmatizada como uma consequência do comportamento homossexual. Se as estatísticas comprovavam o padrão eu sinceramente não sei, a questão é que o fato de Andrew Beckett ser aidético E gay e o seu advogado ser um negro lutando contra brancos heterossexuais transformou o filme de Demme em um verdadeiro símbolo da luta pelo fim do preconceito.

O roteiro da história, felizmente, não apela para simplificações infantis em sua intenção de sensibilizar o público para a causa que defende. A trama, que inevitavelmente converge para uma sequência de tribunal, esforça-se com sucesso para mostrar algo que está além de uma disputa do tipo bem contra o mal. Beckett mostra-se uma pessoa imprudente com a própria saúde e segurança, mas nem por isso ele merecia ser demitido da forma como foi. Seus chefes, por outro lado, são pessoas homofóbicas que tem medo da doença, mas no geral eles não são muito diferentes do grosso da população de sua época, desinformados e paranóicos frente a doença sem cura que tem ceifado vidas diariamente. Há ainda o advogado Joe Miller, um negro que venceu o preconceito em sua profissão devido a seus próprios esforços e que vê-se frente a uma situação onde ele passou de vítima a “culpado”, visto que ele declara abertamente não gostar de homossexuais e temer o contato com aidéticos por ter acabado de ter uma filha e, portanto, temer a infecção. A sensibilização e mudança de comportamento de Miller, que acontece progressiva e naturalmente, é, por assim dizer, a concretização daquilo que o diretor procura estimular no público.

A ótima cena da ópera

A ótima cena da ópera

Optando por não mostrar cenas explícitas de homossexualismo (Hanks faz par no filme com o ator Antonio Banderas), Demme é mais efetivo em seu propósito de chocar e impressionar o público com as perguntas que faz e com o desempenho que extrai de seus atores. Beckett praticou sexo sem preoteção dentro de uma sala de cinema com um desconhecido e, talvez por conta disso, foi infectado. Sem pensar muito, podemos dizer que ele foi vítima de sua própria imprudência, que ele é responsável pelo preconceito que sofre, certo? O que podemos dizer então da mulher que depõe durante o julgamento, a qual também foi demitida por ter AIDS e contraiu o vírus em uma trasfusão de sangue? O preconceito deixa de existir devido a ausência de culpa ou através do conhecimento? Em outro momento, Hanks, que ganhou o Oscar por seus desempenho, emociona o público em uma cena onde chora diante dos olhos de um aturdido Denzel Washington enquanto ouve uma ópera. O ator, que perdeu cerca de 13kg para o papel, protagoniza um belíssimo momento de instrospecção nesta cena, recitando a letra da música que, em momentos alternados, fala de esperança e desespero, sentimentos díspares que ele enfrentava diante do processo e da expectativa próxima da morte.

Segundo o Wikipédia (eu sempre me sinto mal quando escrevo isso), em 2007 estimava-se que mais de 2 milhões de pessoas já haviam morrido vítimas da AIDS, sendo que mais de 33 milhões ainda viviam com o vírus, 630 mil delas no Brasil. Apesar de a doença permanecer sem cura, os coquetéis ajudam os infectados a viverem melhor e hoje sabe-se que atos como abraçar, apertar a mão e beijar não transmitem a doença. Essa conscientização que, creio eu, ajudou a diminuir a paranóia que cercava a doença e matava socialmente os infectados, encontra excelentes argumentos em Filadélfia, que cumpriu e ainda cumpre um papel importantíssimo na luta pelo fim do preconceito, sem o qual, por exemplo, é possível rir de coisas como isso aqui:

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  1. Lucian, boa tarde!

    Quero te parabenizar pelo site, pois entro todos os dias ansioso por novas dicas de filmes e querendo saber mais sobre filmes que já vi e gostei. Quero agradecer também, pois algumas coisas que não consigo entender ou deixo passar em certos filmes, são expostas por você de maneira que completam meu entendimento, porque o cinema é algo que, assim como os outros tipos de arte, deve ser sentido mas também entendido.

    Um grande abraço!
    Marcus Paiva.

    • Sorrisão aqui ao ler seu comentário. São quase 500 textos em pouco mais de dois anos e, quando vejo as primeiras resenhas, percebo que melhorei bastante. O motivo da persistência, além do projeto pessoal, são as críticas que não resumem-se a xingamentos e as palavras de apoio como estas que tu gentilmente deixou aqui. Obrigado pela força! Abraço 🙂

  2. Qto á escolha, cada qual paga suas contas , agora a doença ninguém tem ela porque quer, os cientistas que se virem pra achar a cura.

  3. Vc não precisa ter preconceito de ninguém seja por opção sexual ou doença, mas também não precisa ser igual nem fazer sexo com tais pessoas só para provar que não tem preconceito…

  4. Pingback: Clube de Compras Dallas (2013) | Já viu esse?

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