The Magic of Méliès (1898-1909)

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The Magic of MélièsFinda a temporada do Oscar, retorno com prazer ao ritmo normal do blog, alternando entre filmes atuais e antigos. Como passei praticamente 2 meses assistindo apenas lançamentos, fui logo ao extremo oposto da linha temporal para apreciar alguns dos primeiros filmes rodados e aproveitei para cumprir uma promessa. Ano passado, no dia 22 de fevereiro, eu postei aqui a resenha do A Invenção de Hugo Cabret e me comprometi a assistir e divulgar o trabalho do francês George Méliès, o “pai dos efeitos especiais” que o Scorsese homenageou em seu longa. Procurei e encontrei um arquivo chamado “The Magic of Méliès” e, apesar de não saber se ele é oficial (nem se o poster correto é esse aí do lado, já que algumas informações não batem), assisti e o julguei adequado para os meus propósitos.

No total, são 21 curtas (e não 15, como pode ser lido no poster) que variam bastante no tema e na duração, o menor tendo apenas 53 segundos e o maior 20 minutos cravados. No geral, não é um material fácil de assistir. Mesmo fazendo todas as considerações relacionadas a diferença temporal e dedicando aos curtas o olhar carinhoso que o filme do Scorsese estimula, a sessão não foi exatamente prazerosa. Desnecessário dizer que o diretor é um gênio e que o trabalho dele, acima de qualquer  coisa, merece respeito pelo pioneirismo, mas não posso me esconder atrás disso para relatar algo que não senti. Quero fazer mais algumas considerações sobre a questão do pioneirismo, mas antes segue a lista dos curtas,com os nomes originais em inglês, o ano, duração e breves comentários sobre eles:

The Four Troublesome Heads

The Four Troublesome Heads

  1. The Four Troublesome Heads – 1898 (53 seg): Um homem “retira” sua cabeça e a deposita sobre a mesa para, em seguida, outra cabeça surgir sobre seu pescoço. Divertido, é um ótimo exemplo da inteligente técnica de edição desenvolvida pelo diretor.
  2. An Up-to-Date Conjuror – 1899 (59 seg): Um homem e uma mulher trocam continuamente de lugar enquanto realizam algumas acrobacias.
  3. One Man Band – 1900 (1min16seg): 7 cadeiras e 7 músicos que surgem, desaparecem e movimentam-se conforme a vontade do diretor.
  4. Bluebeard – 1901 (09min07seg): história um tanto quanto confusa de um aristocrata que acaba sendo morto. Gostei muito do efeito que faz com que um pequeno demônio saia de dentro de um livro.
  5. The Man With The Rubber Head – 1901 (02min23seg): Méliès está em uma cozinha e, com uma bomba de ar, infla a própria cabeça até que ela exploda. As caretas da tal cabeça são sensacionais.
  6. A Trip To The Moon – 1902 (11min48seg): Trabalho mais conhecido do diretor, cientistas realizam uma viagem para a lua em uma nave que é disparada até lá por um canhão. O terreno lunar, que tem o formato de um rosto, esconde uma raça chamada Selenita, seres monstruosos que explodem quando tocados pelos cientistas (rs). Não é a toa que é o curta pelo qual o Méliès é lembrado: os cenários e o colorido manual dos filmes são muito bonitos e a historinha é divertida.
  7. The Infernal Boiling Pot – 1903 (01min02seg): Praticamente um curta de terror. Um demônio é visto jogando pessoas dentro de um caldeirão, onde os corpos são instantâneamente consumidos pelas chamas.
  8. The Melomaniac – 1903 (01min52seg): As linhas de uma partitura suspensa no ar são preenchidas por notas formadas por várias cabeças do Méliès (o cara gostava mesmo desse efeito rs) enquanto algumas moças, no melhor estilo Fantasia (o programa trash, não a animação da Disney) seguram placas com o nome dessas notas.
  9. The Monster – 1903 (02min06seg): Minha risada mais sincera saiu daqui. Ambientado no Egito, o curta mostra dois homens que utilizam poderes sobrenaturais para ressuscitar uma caveira. A movimentação da mesma, principalmente quando coberta pelos panos, é hilária.
  10. Untameable Whiskers – 1904 (02min18seg): Um dos mais criativos. Méliès usa um quadro negro para desenhar a si mesmo e os elementos que ele introduz na figura (barba, cabelo grande e roupas) aparecem em seguida nele graças a caprichada edição.
  11. The Impossible Voyage – 1904 (20min): A “grande” produção do pacote. Meio que repetindo o tema de A Trip To The Moon, o diretor mostra cientistas que saem para uma viagem pela terra em um trem. Eles sofrem acidentes, são hospitalizados e, em um momento mágico, sobem com o trem até as estrelas ondem são engolidos pelo sol. Os apuros dos viajantes terminam com uma grande festa no regresso.
  12. The Living Playing Cards – 1904 (02min20seg): No papel de mago, o diretor da vida para cartas de baralho, das quais ele retira uma rainha e um rei.
  13. The Cook in Trouble – 1904 (04min34seg): Um cozinheiro é sabotado de todas as formas possíveis por seus ajudantes e por alguns demônios. O humor e a ação lembram muito o que é visto em desenhos como Tom & Jerry e Pica-Pau.
  14. The Black Imp – 1905 (03min52seg): Um demônio atormenta um homem até que ele decide abandonar o quarto onde planejara dormir.
  15. The Scheming Gambler’s Paradise – 1905 (01min50seg): Jogadores reúnem-se ao redor de uma banca e transformam-na em uma espécie de loja sempre que a polícia aparece por perto. Quando eles finalmente são descobertos, os policiais começam a jogar após prender os envolvidos no truque. Gostei da ironia.
  16. Hilarious Posters – 1905 (02min44seg): Um poster ganha vida e prega peças nos transeuntes.
  17. The Mysterious Retort – 1905 (03min21seg): Um mago está em sua sala admirando os resultados de suas feitiçarias até que uma delas o derrota. Destaque para uma cobra engraçadíssima que sai de um caldeirão.
  18. Good Glue Sticks – 1907 (05min01seg): Após ser zombado pelo produto que vendia, um homem utiliza uma cola poderosa para grudar dois dos zombadores. O público revolta-se e busca vingança, prendendo o vendedor na parede com seu próprio produto. Basicamente, o sujeito só se ferra.
  19. The Eclipse – 1907 (09min08seg): Um professor enfrenta uma sala de alunos desobedientes em uma aula sobre o eclipse solar. Astros com rostos são vistos através de um telescópio, assim como os deuses gregos que estão sentados em seus planetas. Gostei muito da idéia.
  20. The Devilish Tenant – 1909 (06min13seg): Um homem leva uma mala mágica para dentro de um quarto e retira dela todos os móveis para decorar o local. Os móveis ganham vida, ele os guarda e vai embora. É o curta que melhor utiliza as cores, que eram feitas manualmente sobre o filme.
  21. Mobilier Fidele – 1909 (03min37seg): Móveis movimentam-se sozinhos dentro de uma casa. A imagem está muito ruim, bem abaixo da “qualidade” dos outros, mas é impressionante a sincronização e os efeitos usados na cena.
The Eclipse

The Eclipse

Enquanto escrevia esses breves comentários, fui lembrando de uma conversa que tive com um amigo sobre filmes antigos, durante a qual ele disse que, independente da imagem ou do som serem ruins e de qualquer problema técnico, ele gostava principalmente de observar como aqueles diretores venceram as barreiras técnicas de seu tempo para dar vida as suas idéias. Como dito, não cheguei exatamente a gostar dos curtas, mas é deveras divertido assistí-los (principalmente após as cenas de bastidores criadas pelo Scorsese) imaginando o que o diretor teve que fazer para produzí-las. O Mobilier Fidele é realmente sensacional nesse sentido, a única forma que eu consegui pensar para explicar a sua execução, algo próximo ao que é utilizado atualmente nas animações stop-motion, já seria o suficiente para que o nome do diretor tivesse seu nome eternamente reconhecido.

A Trip To The Moon

A Trip To The Moon

Com câmeras estáticas e roteiros que baseiam-se principalmente em truques ilusionistas, Méliès desbravou com muito carinho e alegria (ele está sorrindo em todos os curtas e realizou cerca de 555 deles, acho que posso afirmar que ele gostava do que fazia) um terreno desconhecido e certamente divertiu muitas pessoas durante os anos em que esteve ativo. O tempo passou, a narrativa cinematográfica transformou-se e formou toda uma nova geração de espectadores e gostos, é verdade, mas nunca chegará o dia em que o olhar para o passado negligenciará o nome do diretor. Tens o meu respeito e admiração, Méliès.

The Impossible Voyage

The Impossible Voyage

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  1. Artigo muito interessante! Pra uma próxima, bem que vc poderia reunir uns videozinhos, né? rsrsrs parabens! Excelente trabalho de pesquisa

  2. Salve Lucian

    Eu acabei não assistindo o Hugo Cabret, e devo fazê-lo em breve, apesar de conhecer o livro que o originou. Mas já havia assistido o celébre Voyage dans la Lune, ainda no século passado…rs num antigo programa chamado Lanterna Mágica, na tv Cultura, na virada dos 80/90. Mas no ano passado eu baixei um disco do Air, um duo francês que curto muito, cuja capa tinha a icônica imagem da lua atingida no olho e chamava-se Le voayge dans la lune. Enquanto baixava, eu fui no Youtube para ouvir alguma faixa do trabalho e descubro que estava sendo relançado uma cópia do filme e a dupla foi convidada a fazer a música.
    O interessante é que o filme tinha sido “colorizado”, e me perdoem os puristas, mas eu gostei da versão colorida, e nem tanto da música.
    Agora ao comentar o seu post, que ficou legal pelos comentários para cada curta, voltei ao Youtube e descobri uma outra cópia com uma imagem restaurada, que ficou mais legal ainda de assistir.
    Se tiver disposição para tanto, vai lá no Youtube, essa memória extra para os jovens de outrora, tanto quanto é para os jovens de agora.

    Abraço

    P.S. – você viu que sacanagem, O Mestre não ganhou nada no Oscar??

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