As Sessões (2012)

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As SessõesCom As Sessões, eu termino a minha “cobertura” do Oscar 2013. Ainda devo ver a animação Piratas Pirados, mas dificilmente conseguirei publicar o texto dela antes da cerimônia de entrega dos prêmios marcada para o próximo dia 24. Não assisti nenhum dos documentários pois eles ainda não foram exibidos no cinema nem encontram-se disponíveis na nossa fonte inesgotável de alegrias e arquivos chamada internet e optei por ignorar o Anna Karenina pois quero conhecer a história primeiramente através das palavras do Tolstói.

Na época do lançamento do O Discurso do Rei, alguém definiu o ganhador do Oscar de Melhor Filme como “uma história de um homem tentando superar a gagueira”. O comentário, claramente reducionista para tornar-se jocoso, chamou minha atenção na época e veio a minha cabeça agora porque o mesmo tom pode ser utilizado para resumir As Sessões para quem não o assistiu. “É a história de um homem que tem o corpo paralisado e que, aos 38 anos, decide perder a virgindade.” Se você riu ao ler isso, seja pela particularidade da idéia ou por imaginar o ato, regojize-se pela existência improvável do inferno e por saber que tanto o diretor Ben Lewin quanto Mark O’Brien, o homem em cuja história de vida o filme foi baseada, encaram a situação da mesma forma que você: com humor.

O’Brien, aqui interpretado pelo John Hawkes, teve poliomielite aos 6 anos e em decorrência disso perdeu quase todo o movimento do corpo. Conseguindo mexer apenas com a cabeça, o personagem passou a vida preso a uma cama motorizada, necessitando de cuidados constantes e de um aparelho especial para ajudá-lo a respirar. Segurando um bastão com a boca, O’Brien conseguia pressionar as teclas de uma máquina de escrever e assim tornou-se um escritor. Os anos passam, as pessoas que cuidam dele mudam constantemente e, de repente, parece faltar algo na vida daquele homem bem-humorado, tranquilo e católico. O’Brien queria transar. Com o consentimento do simpático padre Brendam (William H. Macy), o escritor procura os serviços de uma mulher especializada em sexo com portadores de deficiência física. Cheryl (Helen Hunt) insiste em dizer que há uma diferença fundamental entre o trabalho dela e o das prostitutas: ela não transa com um mesmo cliente mais de 6 vezes e não exige receber o pagamento antes do ato, a intenção dela é unicamente a de encaminhar essas pessoas para uma vida sexual ativa e prazerosa com seus futuros parceiros.

O'Brien: Padre.. eu ejaculei na perna dela. Padre: Conte-me mais.

O’Brien: Padre.. eu ejaculei na perna dela. Padre: Conte-me mais.

Não riam, nobres amigos. Essa história, conforme comentado, é baseada no artigo “On Seeing a Sex Surrogate” escrito pelo próprio O’Brien antes de sua morte, em 1999. Nas mãos erradas, poderia transformar-se em um drama açucarado sobre superação e respeito as diferenças, mas felizmente não foi assim que o diretor viu as coisas. Nos primeiros minutos, é desconfortável ver o personagem movimentando-se através de sua cadeira motorizada e utilizando o tal bastão para escrever, mas antes da primeira metade do filme eu praticamente já tinha “esquecido” da triste condição do sujeito. O’Brien é muito divertido e pé no chão, há poucos ou nenhum traço de auto-piedade  em seu discurso e as conversas dele com o padre Brendam são extremamente divertidas. Conversando explicitamente sobre sexo no interior da igreja, o personagem choca as velhinhas que lá estão com os detalhes de seu desejo (e, depois, de suas experiências) e garante momentos hilários junto com a narração que tem claramente a intenção de quebrar o clima de seriedade que o tema costuma evocar.

Eu, que sinceramente não recordava do trabalho do ator John Hawkes (e olha que o cara estava monstruoso no Inverno da Alma), fiquei impressionado com a caracterização que ele deu ao personagem, conseguindo utilizar sua debilitação física e ansiedade frente ao sexo para fazer humor sem apelar para ofensas ou coisas do tipo. O H. Macy também está excelente com suas caras de incredulidade e paciência infinita para com os relatos e dúvidas existenciais de O’Brien. No entanto, não foram as atuações masculinas que garantiram o lugar desse filme entre os indicados ao Oscar. Helen Hunt, a ganhadora do Oscar por Melhor é Impossível, a mulher que corria atrás de furacões no divertido Twister, aparece nua, peladinha mesmo, em boa parte de As Sessões. A atriz, que esse ano completa 50 anos, faz o papel de mãe, amiga e amante de O’Brien e, com muita, MUITA paciência, ajuda-o a perder a virgindade. Hunt está bem no filme, mas acredito que sua indicação deva-se mais a coragem de realizar as cenas de nudez do que por sua performance em si.

É possivel perguntar "Foi bom pra você?" depois de 5 segundos?

É possivel perguntar “Foi bom pra você?” depois de 5 segundos?

As Sessões é leve e divertido. Os personagens falam de sexo de forma simples e descompromissada e, querendo analisar as entrelinhas do roteiro, é possível notar um discurso onde o ato sexual, apesar de mostrado, é visto antes como uma forma de aproximar e unir as pessoas do que como a busca direta pelo prazer físico. O tema inusitado (detesto essa palavra), as atuações competentes de seus atores e o bom humor são os atrativos para quem procura por uma boa comédia romântica.

Obs. 1: Quem procura por comédias românticas?

Obs. 2: Sério que o tal do O’Brien não tinha um gerador de energia?

Obs. 3: A Helen Hunt é uma loira natural 🙂

Ta felizão, né garotinho?

Ta felizão, né garotinho?

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