O Voo (2012)

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O VooDizem que uma das principais funções da História enquanto fonte de conhecimento é documentar fatos e experiências de modo que as gerações posteriores possam valer-se deles para não cometerem os mesmos “erros”. Os conselhos, aqueles cheios de boas intenções dados por vós, tias e mães amorosas, seguem a mesma linha, são orientações embasadas em histórias de vida particulares ou em sabedorias populares que visam facilitar nosso caminho e nos livrar de todo mal, amém. Utilizar a História e os conselhos de parentes e amigos para livrar-se de dificuldades e embaraços é, portanto, um sinal de sabedoria e inteligência, mas prender-se a isso também é uma forma de acovardar-se diante da própria vida, de negar o papel fundamental que a experiência empírica tem para a construção do conhecimento.

Tomemos as bebidas alcoólicas como exemplo. Não faltam campanhas de conscientização, conselhos e casos conhecidos de acidentes de trânsito, mortes e problemas familiares ligados ao consumo excessivo de álcool. Por que, então, as pessoas continuam esvaziando garrafas frenéticamente nos finais de semana, dirigindo embrigadas e rompendo relacionamentos devido a esses excessos? Como não falta informação, sou levado a conclusão óbvia de que não vivemos apenas para evitar o sofrimento ou para fazer aquilo que é moralmente certo. Diariamente, trilhamos vários caminhos cujo final anunciado é conhecidamente desagradável mas o fazemos porque, conscientemente ou não, necessitamos da experiência real para formarmos nossas próprias opiniões e , se necessário, mudarmos nossos comportamentos. O que é “certo”, por assim dizer, só o será depois que nós evidentemente o comprovarmos.

O Comandante Whip Whitkaer (Denzel Washington), apesar de todos os conselhos, problemas familiares e recomendações da empresa onde trabalhava, faz uso diário de drogas ilícitas e álcool. Consciente de sua competência profissional, Whip não apenas pilota embriagado como realiza manobras arriscadas sem o auxílio do piloto automático. No começo de O Voo, novo trabalho do Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro, Forrest Gump, Náufrago) que concorre a 2 Oscars esse ano, o piloto assume o comando de uma aeronave comercial com 102 pessoas a bordo para um voo curto em um dia chuvoso. Diante dos olhos de um co-piloto compreensivelmente assustado, Whip muda a saída programada, vence “no braço” uma formação de nuvens perigosas e, após atingir o nível de cruzeiro em um local onde o tempo estava relativamente bom, aciona o piloto automático, bebe duas garrafinhas de vodka e dorme. O que deveria ser um voo tranquilo até o destino transforma-se então em um pesadelo quando o profundor, empenagem localizada na parte traseira  da aeronave responsável pelos movimentos de cabrar (subir) e picar (descer), trava e faz com que o avião inicie uma queda livre. Whip utiliza todo o seu talento para conduzir a aeronave até o solo (uma espécie de reconstituição com final feliz da queda do Air Alaska 261) mas, mesmo salvando a maioria dos passageiros, precisa enfrentar a investigação do acidente e, principalmente, sua própria consciência.

Whitaker consegue salvar todo mundo menos a si mesmo

Whitaker consegue salvar todo mundo menos a si mesmo

Bem, mesmo tendo apenas um conhecimento primitivo de teoria de voo, devo dizer que é nada menos do que milagroso o que Whip faz para conseguir pousar o avião naquela que é certamente a melhor cena do filme. Mesmo bêbado e sobre o efeito do uso de cocaína, o piloto consegue reverter o que era um desastre certo e salva a vida de 96 das 102 pessoas a bordo. Ovacionado pela mídia e pelos passageiros, o personagem tenta a todo custo acreditar que seu ato heróico de certa forma anula sua imprudência. Apoiado pelo sindicato e orientado por um excelente advogado (Don Cheadle), Whip precisa apenas dar as respostas certas no dia do julgamento para oficializar sua inocência. O problema é que, quando está sozinho em sua casa esperando pelo desenrolar da investigação e do processo judicial, abandonado aos próprios pensamentos, o piloto julga e condena a si mesmo, senão pelo acidente, por todos os problemas que ele teve durante a vida devido ao alcoolismo. Tal qual acontece no Crime e Castigo do Dostoiévski, o erro e a punição estão intimamente interligados e o castigo é experimentado concretamente em um nível individual, o que acaba sendo mais significativo e do que qualquer punição aplicada socialmente.

Não é atoa que O Voo está concorrendo ao Oscar de Melhor Roteiro. O trabalho, que é assinado pelo escritor John Gatins (Gigantes de Aço) expõe o dilema de um homem que, de fato, aprendeu com os próprios erros e que optou, ao contrário do que todos esperavam (inclua aqui você como espectador), pela redenção individual quando lhe ofereceram a salvação pública. Denzel encarna esse homem de alma atormentada sem exageros e, pela naturalidade e humanismo que imprime ao personagem, concorre ao Oscar de Melhor Ator. Apesar de não ter sido indicado na categoria principal, O Voo é um filme excelente que merece sua atenção, além de valorizar a experiência individual em detrimento do moralismo, o longa ainda diverte com a sensacional sequência no avião e reserva um final emocionante. Ah, apesar do Denzel não saber quem ele é, ele é um cara foda 🙂

O julgamento individual é muito mais importante do que o público em O Voo

O julgamento individual é muito mais importante do que o público em O Voo

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  1. Assisti e gostei e não gostei.
    O roteiro é bom, os atores tambem.
    A cena do avião caindo é muito boa e dá calafrio na hora.
    O final é maravilhoso, ele tinha tudo pra definir a sua vida ali e continuar não aprendendo com tudo aquilo que viveu, mas decidiu tomar um novo rumo o que foi muito bom.
    Só acho o maior defeito, é que faltou uma direção mais ousada a se arriscar mais.
    tem horas, que da vontade de acelerar algumas cenas que chegam a ficar chatas.

    Tem muitos diretores que sabem fazer isto muito bem, que é trabalhar os dialogos para que não ficam monótonos.
    Se não fosse pela direção pesada e sem ousadia daria um 10.

    • Grande Carlos! Então, nunca compartilhei o entusiasmo geral por esses filmes, vi apenas o primeiro e não achei lá grande coisa. Vou ver se consigo assistir o segundo e depois faço a resenha. Abraço.

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