Lincoln (2012)

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LincolnSei pouco sobre a vida e obra do Lincoln e retirei o raso conhecimento que tenho da história dos EUA do curto período que ministrei aulas sobre a Guerra de Secessão em uma escola da rede estadual. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a graduação em História não nos transforma em enciclopédias ambulantes. Em disciplinas como Historiografia, Análise do Discurso e Filosofia da História, aprendemos principalmente a trabalhar com fontes e retirar delas informações que nos façam compreender o todo no qual elas estão/estavam inseridas, decorar datas ou amontoados de fatos acaba sendo uma consequência ligada principalmente ao interesse do aluno por determinada matéria/período. Logo, você também não precisa ser americano ou conhecer todos os nomes, datas ou fatos trabalhados pelo Spielberg em Lincoln para entender o filme. Conhecimento prévio certamente ajudará mas, sabendo localizar-se temporalmente e, principalmente, procurando compreender minimamente como o discurso do longa encaixa-se no atual cenário político, tu já estará no caminho “certo” para aproveitar todo o conteúdo que ele tem a oferecer.

Façamos uma rápida recapitulação: durante o século XIX, os estados americanos do norte entraram em guerra contra os estados do sul. Essa conflito ficou conhecido como Guerra Civil Americana ou Guerra de Secessão. Quais são esses estados e em que ano isso aconteceu não é relevante agora. A questão primordial aqui é que o sul defendia a escravidão, na qual sua economia era baseada, e o norte, industrializado, procurava libertar os escravos para promover o crescimento do mercado interno. Quando Abraham Lincoln, um abolicionista do norte, foi eleito presidente, as tensões entre os estados aumentaram e a guerra começou.

Aqui, Lincoln não usa um machado para decapitar vampiros. Em seu segundo mandato, o presidente tenta colocar um fim definitivo na Guerra Civil Americana enquanta busca apoio para aprovar a 13º emenda na Constituição dos EUA.

Lincoln - Cena

O contexto é deveras simples, lembro de explicar isso utilizando essas e algumas outras poucas palavras para uma turma de 2º colegial. Se eles entenderam ou só decoraram o que eu falei para a prova (ou nem isso) não vem ao caso. A questão aqui é que Lincoln começa com tudo e pode confundir um pouco o espectador que não souber localizar-se historicamente. Nomes e mais nomes de personalidades e políticos da época chovem na tela nos primeiros minutos e o tom burocrático do texto é pouco convidativo. Esqueça nomes, termos e concentre-se no básico: a essência do conflito político.

Lincoln, o personagem brilhantemente interpretado pelo Daniel Day-Lewis (PAUSE: esse “brilhantemente” aí me poupa de uns dois parágrafos de elogios, ok? O cara é claramente um dos maiores atores vivos e o favorito absoluto ao Oscar. RESUME) está intrinsicamente ligado ao tema da liberdade na história dos EUA. Ele libertou os escravos. Ele venceu a guerra contra o povo “atrasado” do sul e foi um dos pioneiros da luta pelos direitos civis dos negros. Isso, ou pelo menos isso, é o resumo que encontra-se com mais ou menos profundidade nas páginas dos livros de história, não os acadêmicos, mas os didáticos que acabam sendo a única fonte de informação de muita gente. É esse o Lincoln que vemos na tela? Sim e não.

Sally Field e Day-Lewis

Sally Field e Day-Lewis

Spielberg, um diretor que chegou onde chegou justamente por entender o que o público queria ver na tela, não seria bobo de desconstruir a imagem de um dos maiores heróis americanos. O Lincoln dele é sim um baluarte da liberdade, um homem inteligente, sereno e de fala mansa que não mede esforços para abolir a escravatura. O que não dá para deixar de notar, no entanto, é como o roteiro sutilmente constrói a idéia do homem que, mais do que um discurso afiado (e nisso ele realmente era MUITO bom), está disposto a, quando necessário, burlar o próprio sistema que ele representa para conseguir seus objetivos. A nobreza do fim, nesses casos, justificaria os meios utilizados. É assim que ele age quando tenta persuadir o filho (Joseph Gordon-Levitt) a não alistar-se. É dessa forma que ele utiliza um aliado político (Tommy Lee Jones, indicado ao Oscar) para negociar escusamente um voto. Finalmente, é esta a postura dele quando, em um momento crucial da votação da 13º emenda, escreve uma carta negando o conhecimento da chegada de uma delegação de paz.

Lincoln - Cena 3

Lincoln trata o problema da escravidão mas, até mesmo pelo histórico do diretor, sabemos que o grande tema aqui são as minorias. Spielberg, judeu, traz para o centro do debate a figura do presidente que arriscou-se ao posicionar-se ao lado dos menos favorecidos e, em um momento onde os EUA enfrentam uma crise econômica e assistem a perda de sua hegemonia no cenário internacional, parece querer lembrar ao seu atual líder político que as vezes é necessário sujar um pouco as mãos para defender aqueles que vão ficando pelo caminho. Com Lincoln, Spielberg cobra pulso e ousadia de nossos representantes e sugere que deve-se deixar o tempo e principalmente o povo julgar se esses pequenos atos de corrupção e artimanhas políticas foram ou não feitos em nome de um bem maior. Lula aplaude de pé na cena do “não é do meu conhecimento”

Bem, essa é a minha contextualização e o meu esforço para compreender minimamente o discurso desse filme que concorre a 12 Oscars, um número deveras respeitoso. Além de deixar claro não tenho a pretensão de apresentar a última palavra no assunto (outra coisa que aprendemos no curso de História), gostaria de destacar a direção enxuta e eficaz do diretor e a maravilhosa e incrivelmente tensa cena da votação. Por mais “intelectual” que Lincoln pareça olhando superficialmente, o roteiro compreende diversas situações cômicas e não é difícil emocionar-se em algumas partes. Gostei, recomendo e torço pelo Spielberg na categoria Melhor Diretor.

Day-Lewis e Spielberg

Day-Lewis e Spielberg

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