Ferrugem e Osso (2012)

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Ferrugem e OssoSeguindo na correria para tentar ver a maior quantidade de indicados ao Globo de Ouro antes da premiação que está marcada para o próximo dia 13, assisti e comento agora a produção belga/francesa Ferrugem e Osso do pra mim até então desconhecido diretor Jacques Audiard.

Subproduto carente de autoconsciência de uma sociedade individualista, Alain van Versch (Matthias Schoenaerts) é um desempregado que acabou de receber a tutela do filho. Alain não tem problemas em roubar e cometer pequenos crimes para conseguir comida e diversão para si e para o filho e só começa a conseguir alguma estabilidade quando vai morar junto com a irmã. Com sua experiência no boxe, o personagem conseguem emprego de segurança em uma boate e, ao separar uma briga de clientes, conhece Stéphanie (Marion Cotillard), uma mulher que, segundo ele, “veste-se como uma puta”. Autocentrados e perdidos dentro de suas confusas realidades, os personagens ganham uma chance de aproximarem-se quando Stépanhie perde as duas pernas em um acidente de trabalho.

O principal mérito de Ferrugem e Osso, ao meu ver, é deslocar constantemente o espectador de sua zona de conforto ao expô-lo a personagens marginais e mostrar que, por mais “mal, errado ou fútil” que alguém possa parecer ser, o movimento constante e dialético da vida guarda a todo instante uma possibilidade para a redenção, seja ela pessoal ou social.

Alain e o filho

Alain e o filho

A primeira impressão que temos de Alain é a pior possível. Obcecado com o próprio corpo e violento, o personagem parece não importar-se com o filho e encara com naturalidade a situação de morar de favor na casa da irmã. Vivendo apenas para obedecer seus instintos, o personagem expressa-se quando participa de brigas onde pode arrancar dentes e partir ossos dos oponentes e no pragmatismo com o qual ele encara o sexo. Em uma passagem, por exemplo, Stéphanie comenta sobre as mudanças de sua vida sexual após o acidente e ele, com uma tranquilidade e uma objetividade que deixariam o John Nash do Uma Mente Brilhante orgulhoso, pergunta se ela quer transar. “Simples assim?” Pergunta ela. “Simples assim”, responde ele.

Do outro lado, temas a domadora de baleias que “veste-se como uma puta”. Apesar do aspecto psicológico de Stéphanie não ser tão explorado quanto o de Alain, percebemos nos detalhes da trama que ela era uma mulher sem amor próprio que, desiludida, procurava entregar-se nas mãso de qualquer um que pudesse salvá-la de si mesma. O acidente que culmina na amputação de suas pernas, como era de se esperar, coloca-a em uma situação desesperadora onde, além de ter que lidar com essa nova e terrível realidade, ela tem que suportar a piedade de todos aqueles que a cercam. Nesse momento, Stéphanie recorrer então a última pessoa que fora sincera com ela, o segurança da boate que fez uma observação indelicada sobre seus trajes.

Marion Cotillard

Stéphanie

Ferrugem e Osso mostra então o relacionamento de duas pessoas incompletas, tanto fisica e emocionalmente. Sem clichês relativos a lições de moral que as pessoas necessariamente precisam aprender após acidentes e fazendo uso de violência e cenas de nudez explícita, o filme de Audiard caminha em direções que poucas vezes vemos em filmes com o mesmo tema produzidos em Hollywood. O hedonismo de Alain, por exemplo, ao bater a cabeça do filho em uma mesa para que ele pare de chorar (e também ao abandonar Stéphanie em uma boate para ir transar com outra mulher), é aquele tipo de excesso que choca propositalmente para que, no final, o sacrifício que ele faz em nome do filho tenha o devido peso. Se incomoda é porque, lá no fundo, nós sabemos que o noso dia-a-dia está mais próximo disso do que daquilo que é visto em filmes como essa pérola aqui. A história de amor que desenvolve-se entre os personagens não é daquelas sobre as quais são escritas músicas mas, de certa forma, é tocante ver o quanto pode nascer algo sincero entre duas pessoas destruídas pelas circunstâncias impostas pela vida e pelas escolhas que elas abraçaram. Para quem tiver o estômago forte, Ferrugem e Osso reserva uma boa história, lutas sangrentas no meio da rua e cenas de sexo sem frescura. Ah, os peitos da Marion Cotillard são SENSACIONAIS.

Ferrugem e Osso - Cena 3

Stéphanie e Alain encontram um no outro a compreensão que o mundo não lhes ofereceu

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