Cinema Verite (2011)

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Cinema VeriteReality show, esse formato televisivo que muita gente adora odiar mas que, supreendentemente, mais gente ainda adora assistir. Eu? Eu ficava acordado até tarde para acompanhar a primeira edição do No Limite e vi grande parte da primeira edição do Big Brother Brasil. Sim, amigos, eu torci para o Kleber Bambam e sua Maria Eugênia e achei genial aquela mulher gorda sedentária vencer todos os outros candidatos nas provas físicas e, principalmente, naquelas que envolviam degustar guloseimas exóticas. De uns anos pra cá, eu deixei de ver esses programas mas, de forma geral, eu também deixei de assistir televisão. Não que eu tenha me tornado um crítico da “telinha”, mas hoje em dia eu tenho várias outras coisas para fazer com o pouco tempo livre que tenho, de modo que sentar na sofá e ser refém da programação da TV está fora de cogitação. O reality show, enquanto experimento social, é um formato deveras interessante mas, até mesmo pela perda progressiva da confiança no que era exibido, hoje eu prefiro assistir um filme com um bom roteiro que aborde o mesmo tema do que ligar a TV religiosamente dia após dia para ver cenas cuja veracidade são totalmente questionáveis. Fora isso, o Zeca Camargo e o Pedro Bial são insuportáveis.

Cinema Verite, filme dirigido diretamente para a TV pela dupla Shari Springer Berman e Robert Pulcini, conta a história do primeiro reality show de que se tem notícia, o An American Family. Em 1973, a rede americana de televisão PBS levou ao ar um programa onde o foco era mostrar o dia-a-dia dos Louds, uma típica família americana formada pelo casal Bill (Tim Robbins) e Pat Loud (Diane Lane) e seus cinco filhos. Mostrados em sua intimidade através da lente do diretor James Gandolfini (Craig Gilbert), os Louds são apresentados para o público americano como aquela família aparentemente feliz e normal que mora na casa ao lado mas que, entre quatro paredes, são repletos de defeitos e conflitos. A desconstrução em rede nacional de um dos pilares do sonho americano incomodou muita gente e o programa foi muito, MUITO criticado.

Os Louds de Cinema Verite e, a direita, a família no An American Family

Os Louds de Cinema Verite e, a direita, a família no An American Family

As pessoas interessam-se umas pelas vidas das outras, umas mais, outras menos. Hoje em dia, com a popularização das redes sociais, é possível saber (e acaba-se sabendo, mesmo contra nossa vontade) detalhes da intimidade de todo mundo, de modo que podemos perfeitamente formar opiniões sobre os fulanos e siclanos com os quais convivemos. Como as reclamações, indiretas e mensagens de auto-ajuda são o carro chefe desses sites, uma análise rápida poderia diagnosticar que todo mundo é ou está infeliz a maior parte do tempo. Quando James Gandolfini idealizou o An American Family e mostrou-o para os executivos da PBS, ele deu, entre outras coisas (sem maldade, por favor), o ponta pé para escancarar esse tipo de problema cotidiano para um país e para uma época onde o sorriso no rosto e o carro do ano na garagem disfarçavam muitíssimo bem as rachaduras presentes na estrutura familiar invisíveis para que olhava do lado de fora desses lares.

Por mais que Bill e Pat fossem vistos pelos outros como um casal feliz, o casamento deles estava definhando. Bill estava sempre viajando a “negócios” e Pat, uma mulher bonita e inteligente demais para ficar em casa cuidando de 5 filhos enquanto o marido vive suas aventuras, procura forças para pedir o divórcio. As câmeras acompanham momentos tensos desse conflito e ainda reservam espaço para outra revelação que chocaria a comunidade americana majoritariamente conservadora da década de 70: um dos filhos do casal revela sua homossexualidade diante da nação e provoca debates acalorados sobre o tema. “E se ele fosse seu filho?”, foi uma das muitas perguntas que os sub-produtos de An American Family, esses programas que comentam outros programas, fizeram em suas matérias. É amigos, o sôniaabrãonismo não é um fenômeno recente.

Cinema Verite - Cena

Pat é seguida pelas câmeras

Mais do que fazer uma versão cinematográfica de um reality show qualquer, Cinema Verite resgata a história dos Louds em um ótimo filme que coloca a hipocrisia no centro das atenções. Os “problemas” daquela família, apesar de não serem diferentes nem em quantidade nem em teor daqueles de qualquer outra família “normal”, são tratados como verdadeiros pecados capitais por um público que, acostumado com e, de certa forma, endossador das aparências, ficou assustado ao reconhecer nos Louds todos os seus medos e frustrações. O resultado disso foi uma série de ataques moralistas e hipócritas contra os integrantes do programa que, ao meu ver, permanecem extremamente atuais. Critica-se, em nome de uma moral rasa e datada, os comportamentos das pessoas nas redes sociais e nos reality shows porque elas fazem exatamente aquilo que gostaríamos de fazer ou que fazemos mas não deixamos que ninguém fique sabendo. Esse tapa dói na cara hipócrita de todos nós. Com as ótimas atuações do veterano Tim Robbins e da Diane Lane e uma edição que mistura cenas fictícias e cenas retiradas do próprio An American Family, Cinema Verite discute moralismo, hipocrisia e o limite de “realidade” visto nesses programas em agradáveis e adequados 90 minutos. Gostei muito.

Bizarrice ou espelho?

Bizarrice ou espelho?

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