Extermínio (2002)

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ExtermínioDos milhares de títulos que existem a respeito (vai lá, nem são tantos assim), lembro agora de dois trabalhos do Frank Darabont como bons exemplos de análises do comportamento humano em situações extremas, a saber o excelente O Nevoeiro e a popular série The Walking Dead. Dirigindo o primeiro e produzindo o segundo, Darabont utiliza sua experiência com histórias sobre superação vista em filmes como Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre para mostrar um lado um tanto quanto mais sombrio de um cenário onde a reclusão ou a extinção da lei e da ordem obrigou seres humanos a posicionarem-se instintivamente uns contra os outros. Além das tradicionais (e bacanudas) cenas de mortes envolvendo decapitações, tiros e ferroadas de insetos gigantes, discute-se nessas histórias questões para as quais nossa filosofia ainda não conseguiu respostas definitivas. Existe mesmo algo que possamos chamar de “natureza humana”? Causa e efeito? O extinto de sobrevivência, em momentos críticos, falará mais alto do que nossos valores morais?

Imagine o seguinte: você sai para trabalhar, sofre um acidente e é levado em coma para o hospital. Acorda alguns dias depois em um lugar completamente abandonado e, antes mesmo que você tenha tempo para pensar a respeito, tu é obrigado a lutar para salvar sua vida contra “pessoas” que, sabe-se lá porque, parecem ter como único objetivo matarem umas as outras. Essa premissa instigante e assustadora foi utilizada na abertura do The Walking Dead e tambémno início do ótimo Extermínio para nos jogar para dentro de um mundo onde tudo aquilo que conhecemos não tem mais validade.

Extermínio - Cena

Jim (Cillian Murphy), o azarado da vez, acorda em um hospital de Londres 28 dias após uma ação de ativistas pró-direto dos animais dar errada. Contaminados, os animais libertos na ação espalharam um vírus extremamente contagioso que em poucos dias praticamente dizimou a população da capital inglesa. Enquanto vaga pelas ruas de uma cidade deserta, o personagem encontra 2 sobreviventes e, juntos e sem muitas esperança de êxito, eles dirigem-se para a casa de Jim para tentar encontrar seus pais.

Nas primeiras duas temporadas de The Walking Dead, a tensão residia principalmente na diferença de opiniões de Rick e Shane sobre os rumos que o grupo de sobreviventes liderados por eles deveria seguir. Enquanto um procurava conservar valores como solidariedade e amizade para com aqueles que eram encontrados durante o caminho (Rick), o outro (Shane) dizia que era necessário uma nova mentalidade para sobreviver naquele mundo, uma mentalidade voltada principalmente para a auto-preservação. Em Extermínio, filme dirigido pelo cult Danny Boyle (72 Horas, Quem Quer Ser Um Milionário?) esses conflitos são personificados e vividos por Jim e pela valente Selena (Naomie Harris). Tendo acompanhado todo o processo de falência pública provocado pelo vírus, Selena “endureceu” rapidamente e assumiu uma postura pragmática frente a situação: ela mata qualquer um suspeito de infecção e não pensa duas vezes antes de abandonar alguém que coloque sua segurança em risco. Jim, por outro lado, recém apresentado aquela nova configuração social e ainda atordoado, sofre para viver em um mundo onde nenhuma regra anterior de convivência, respeito ou moral é válida.

Extermínio - Cena 2

Selena e Jim

Vale a pena sobreviver a qualquer custo? Abandonar alguém para morte certa em nome da própria sobrevivência é um indicativo de força e de adaptação ou um sinal de que a humanidade e todos aqueles valores que esperam-se de nós já morreram? Quando aquilo que temos de mais primitivo, que aqui aparece sobre a alegoria dos “macacos” e da “raiva” é liberado, todos esses questionamentos são feitos e, enquanto conduz sua história repleta de perseguições e fugas alucinantes, Danny Boyle tenta nos convencer de que a tal “natureza humana” não está fundamentada apenas na sobrevivência da espécie, mas também em valores e sentimentos como honra, amor e amizade. Nesse sentido. Extermínio está muito mais para Um Sonho de Liberdade do que para O Nevoeiro.

Eu já havia assistido esse filme e voltei a fazê-lo pela indicação de um amigo. Trocando em miúdos, eu conhecia o filme mas não lembrava do título dele. Fiquei feliz tanto por rever cenas maravilhosas como o despertar de Jim ao som da atmosférica East Hastingsquanto por poder analisá-lo em um outro momento de minha vida, com outras leituras e outros pontos de vista. Extermínio é um excelente filme que alia entretenimento e conteúdo de forma poucas vezes vistas dentro de filmes de terror, um trabalho para ser visto, revisto e celebrado.

A mentalidade que transforma-se sem perder sua essência é um dos pontos discutidos pelo roteiro

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