A Origem dos Guardiões (2012)

Padrão

A Origem dos GuardiõesPara o pragmatista americano William James, “verdade” é algo que está ligado muito mais a aplicação imediata de um conceito em nossa realidade do que na enunciação de leis ou fatos incontestáveis. Trocando em míudos, uma filosofia/religião/ciência tem seu valor mais por sua capacidade de responder questões individuais que vão de fato mudar a forma como você vê o mundo do que por suas teorizações complexas repletas de detalhes que buscam o status de ser a resposta definitiva para um determinado problema. Ainda não ficou claro? Então vamos usar o exemplo das criaturas fofinhas de A Origem dos Guardiões para elucidar a questão.

Quando somos crianças, acreditamos em praticamente tudo que nossos pais nos contam, nosso espírito crítico ainda está em desenvolvimento e nós ainda aceitamos o mundo como ele é. Se, para um adulto, a idéia de um homem que mora no Polo Norte que em uma determinada noite do ano entrega presente para todas as crianças do mundo parece absurda, para uma criança isso é completamente possível. Um coelho que entrega ovos de chocolate? No way, punk! No entanto, anualmente lá estão todas as crianças na Páscoa com seus bigodes e narizes desenhados com canetinha esperando o Coelho da Páscoa. Para os pequeninos, essas fábulas são mais verdadeiras e lhes atendem mais do que qualquer visão materialista do mundo, ESSA é a verdade imediata deles. Obviamente um dia eles crescem em tamanho e em maturidade e substituem esses conceitos por algo mais complexo, como Deus ou ciência, mas nem por isso aquelas “verdades” que eles acreditaram durante a infância deixam de serem válidas. Aceitar o pluralismo de “verdades” e métodos para lidar com a realidade, segundo James, é uma forma de estar em constante aperfeiçoamento.

Sandman, Coelho da Páscoa, Papi Noel, Fada do Dente e Jack Frost

Sandman, Coelho da Páscoa, Papai Noel, Fada do Dente e Jack Frost

Jack Frost, o protagonista de A Origem dos Guardiões, é uma lenda infantil da qual eu nunca havia ouvido falar antes do filme. Procurei rapidamente por ele na net e só encontrei informações ligadas ao filme. O fato de ele ser desconhecido, no entanto, não atrapalha a animação e ainda cumpre uma parte importante no roteiro. Jack tem poderes sobre o gelo e viaja auxiliado pelo vento levando neve e frio para vários lugares do mundo. Fanfarrão e bem humorado, Jack sofre apenas por nenhuma criança conhecê-lo da mesma forma que elas conhecem outras lendas como a Fada do Dente e o Sandman (esse também pouco conhecido por aqui). Quando o vilão conhecido como Breu (Breu! rs) surge com planos de acabar com todas as fantasias infantis para dominar o mundo com o medo, Jack Frost é escolhido pelo “Homem-da-Lua” para juntar-se aos Guardiões em sua luta para proteger a inocência das crianças.

Jack enfrenta Breu

Jack enfrenta Breu

Jack desconhece o próprio passado. Até onde ele sabe, ele sempre foi e sempre será Jack Frost e isso o incomoda. Por que, entre tantas outras pessoas no mundo, ele foi escolhido para receber aqueles poderes? Qual sua missão no mundo e o que o “Homem-da-Lua”, alegoria clara para Deus, espera dele? As “verdades” que Jack busca estão em um nível de complexidade superior ao das crianças que acreditam cegamente nos guardiões. Caracterizado como um adolescente, o protagonista da animação contribui para despertar, mesmo que em um estado bastante insconsciente, o espírito crítico das crianças. A Origem dos Guardiões celebra a inocência e a capacidade de sonhar das crianças, mas considero que seja principalmente no enfrentamento de Jack e do medo simbolizado pelo Breu que o filme passe sua mensagem mais significativa, a de que os nossos sonhos e nossa vontade de nos conhecermos melhor sempre vencerá a escuridão e o comodismo baseado em “verdades” atemporais e absolutas.

O visual dos personagens também contribui para a quebra com o conservadorismo. Papai Noel é um gigante repleto de tatuagens, o Coelho da Páscoa é um esportista e a Fada dos Dentes é uma espécie de empresária atarefada. Por falar em visual, os efeitos especiais e a fotografia da animação são espetaculares, é lindo ver Jack voando com seu cajado e, principalmente, todas as coisas que o Sandman faz com seus poderes ligados aos sonhos. Estréia na direção de Peter Ramsey e baseado no livro do autor William Joyce, A Origem dos Guardiões tem elementos de sobra pra agradar as crianças e, em diálogos verdadeiramente tocantes como aquele que o Papai Noel tem com Jack, mostra aos adultos que, independente da “verdade” que nós abracemos em um determinado ponto de nossas vidas ou das dúvidas que carreguemos em nossos corações, o que conta é o nosso “cerne”, nossa capacidade de nos levantarmos contra o medo a ignorância limitadora do mundo. Os Guardiões defendem a inocência das crianças mas, sobretudo, eles defedem o direito de acreditar, e acreditar implica, muitas vezes, ir contra a opinião de todos. Por isso, segundo o filósofo citado no começo do texto, é “saudável” não negarmos nem a religão nem a ciência, pois cada um tem suas respostas e suas “verdades” para o mundo em um determinado momento. Excelente.

A Origem dos Guardiões - Cena 3

Sandman usa os poderes dos sonhos contra a escuridão

Anúncios

»

  1. Aguardei por uma resenha sua sobre o filme e, confesso, concordo plenamente com suas palavras. Rise of the Guardians foi, juntamente com The Lorax, ParaNorman e Hotel Transylvania, uma das melhores animações de 2012. Acredito que, talvez, a melhor delas. Ótimo texto!

  2. Pingback: Os Croods (2013) | Já viu esse?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s