Vida Cigana (1988)

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Quando comecei a resenhar filmes em um extinto fórum de internet, eu tive a sorte de manter contato com algumas pessoas que faziam ou já tinham feito faculdade de cinema. Além de me ajudarem a aparar várias arestas dos meus textos, essas pessoas também me apresentaram alguns filmes e cineastas estudados e comentados no ambiente universitário. Desde então, conheci vários títulos asiáticos, descobri a excelente safra atual de filmes de terror franceses, assisti um filme feito na Estônia (o ótimo Klass), aprendi a admirar as bizarrices e a obscuridade do finlândês Aki Kaurismaki e cheguei até o trabalho do iuguslavo Emir Kusturica com o caótico Underground – Mentiras de Guerra. Obviamente, não “entendi” nem gostei de todos esses filmes. Seja por estar habituado ao padrão hollywoodiano ou por esses longas as vezes levarem para a tela temas e costumes demasiadamente herméticos, minha experiência com eles foi mais edificante no sentido de abrir a mente para formas diferentes (e, quase sempre, mais compromissadas com a arte) de se fazer cinema.

Vida Cigana, meu segundo filme do Kusturica, entra para esse grupo pessoal de filmes que eu não compreendi totalmente mas que, certamente, me acrescentaram mais do que uma comédia do Adam Sandler. Ambientado na Saravejo da década de 80, a trama é centrada em Perhan (Davor Dujmovic), um rapaz de uma família de ciganos que, para conseguir dinheiro para casar-se com a jovem Azra (Sinolicka Trpkova), entra para uma gangue de assaltantes comandada pelo misterioso Ahmed (Bora Todorovic).

Perhan e a irmã (rimou rs)

Quando eu assisti o Underground, eu fiquei impressionado com a quantidade de coisas que aconteciam simultâneamente no filme. Era mais ou menos assim: um personagem estava dormindo, de repente ele levantava, ia para uma festa que estava acontecendo no cômodo ao lado, começava uma briga com um brutamontes qualquer, os dois moíam um ao outro na pancada e, satisfeitos com o resultado da briga, abraçavam-se e bebiam enquanto dançavam uma música típica tocada pela banda de folk da festa que não parava de tocar mesmo quando algum de seus membros era atingido pela briga. Esse divertido caos levado para a tela pelas mãos do Kusturica assumia uma atmosfera de sonho e muitas vezes era difícil acompanhar o que estava de fato acontecendo.

Vida Cigana segue esse mesmo raciocínio e não foram poucas as vezes que eu fiquei perdido com a narrativa do diretor. Perhan mora em um lugar extremamente sujo onde pessoas passam o tempo jogando dados e praguejando uns contra os outros. Ele ganha um peru de presente (!), toca acordeão e possui poderes telecinéticos (!!). Extremamente tímido, o menino muda sua atitude quando conhece Azra e decide que ela será a mulher de sua vida. Em meio a bonitos sonhos envolvendo o casamento e a diversas recusas da mãe da menina em ceder a mão da filha, Perhan muda-se para Itália e envolve-se com o crime para conseguir ganhar o dinheiro que financiaria seus sonhos. Dá-lhe músicos tocando no meio da rua, crianças chorando, personagens xingando uns aos outros para em seguida abraçarem-se com juras de amizade e muitas referências a filmes hollywoodianos, como a exibição de um trecho do A Força do Amor do Richard Geere, um cartaz do Orson Welles do qual Perhan imita a pose do ator e uma história e caracterização de personagens que lembra muito O Poderoso Chefão.

Assim como Michael Corleone, Perhan ama e dedica-se a sua família mas, a princípio, tenta manter-se afastado de alguns de seus aspectos/negócios. Merdzan (Husnija Masimovic), tio do rapaz, é definitivamente o homem que Perhan não quer tornar-se, uma pessoa descontrolada e violenta viciada em jogos de azar. No entanto, chega um ponto em que Perhan precisa “crescer” para proteger sua família (ele tem uma irmã doente) e para marcar território. Sua busca pelo poder então leva-o por um caminho semelhante aquele trilhado pelo personagem do Al Pacino, onde ele acaba sendo absorvido pelo sistema e transformando-se naquilo que anteriormente ele condenava. Essa leitura, apesar de interessante, certamente não representa o filme em sua totalidade. Vida Cigana lida com aspectos históricos e sociais dos ciganos e da ex-Iugoslávia que eu não domino e que o filme não me despertou a vontade de conhecer. A narrativa do Kusturica e a edição do filme tornaram-se confusas em vários momentos para esse cinéfilo educado pela escola hollywoodiana e o final com teor religioso exige uma reflexão que depende da compreensão dos já citados aspectos históricos e sociais para ser absorvido. Passei em branco. Vida Cigana tem seus bons momentos (o encontro de Perhan com a irmã é tocante), mas atualmente ele serviu pra mim mais para “formar repertório” do que como entretenimento.

Parece ou não parece o Michael Corleone?

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