Capitalismo: Uma História de Amor (2009)

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Atualmente, estou lendo o Pragmatismo do William James. O livro tem 174 páginas das quais eu já venci 53, portanto não cabe aqui fazer qualquer comentário sobre a idéia do escritor porque ela ainda não ficou completamente clara pra mim. De qualquer forma, o tema e uma citação feita por James me pareceram úteis para pensar sobre esse documentário do Michal Moore, então segue o trecho:

“Todas as realidades influnciam nossa prática”, escreveu-me, “e essa influência é o seu significado para nós. Estou acostumado a expor problemas às minhas classes nesses termos: sob que aspectos o mundo seria diferente se essa alternativa ou aquela fosse verdadeira? Se não posso achar que nada o tornasse diferente, então a alternativa não tem sentido.”

James cita o químico Oswald de Leipzig para mostrar as diferentes aplicações e entendimentos do pragmatismo em seu tempo. Pelo que deu para entender até agora, a “verdade” para o autor desnuda-se de seu caráter racionalista para transformar-se em uma resposta prática para os problemas do dia-a-dia. O conceito basearia-se não na busca da enunciação de leis imutáveis, mas sim em algo que, baseado nas nossas experiências passadas e nas nossas expectativas do futuro, fornecesse algo que nos fosse útil e aplicável.

Pois bem, temos então o documentário Capitalismo: Uma História de Amor do Michael Moore, cineasta cuja associação do nome com “polêmica” tornou-se clichê. Direto do coração do sistema financeiro capitalista, Moore dá a entender que o mesmo já não atende mais as necessidades dos cidadões americanos e conduz uma série de entrevistas e pesquisas que apontam que, assim como aconteceu com o Império Romano, o sistema capitalista estaria declinando e fadado a extinção.

Eu abri o texto falando sobre o livro do James porque, mais do que ficar discutindo a economia americana (tema que eu não domino e que o Moore já faz no documentário) eu julgo ser mais produtivo expor o que de fato o tema muda/influencia na minha realidade.No tocante as discussões sobre o capitalismo, eu já experimentei duas realidades bem distintas. No ambiente acadêmico, no qual eu me formei em História, o assunto assumia uma importância desproporcional com o que eu havia vivido até o momento. De uma hora para outra, passei a participar de debates acalorados em sala de aula sobre luta de classes e quem não tinha uma educação marxista ou não posicionava-se contra o “monstro” capitalista tinha sua opinião massacrada/menosprezada por argumentos baseados principalmente em teorias sociais fundadas em uma época distante da nossa realidade. A aula acabava, eu saia um tanto quanto tonto e não conseguia verificar no meu dia-a-dia a opressão sobre a classe trabalhadora de que tanto falavam.

Me formei, fui para o mercado de trabalho atuar em áreas totalmente diferentes daquela para a qual eu me formei e, apesar das oportunidades para discutir assuntos ligados ao capitalismo diminuirem, eu senti o assunto muito mais presente na minha vida. Executando trabalhos nos quais eu não poderia me realizar pessoalmente e profissionalmente, recebendo pouco e cercado pela tal sociedade que te estimula a consumir cada vez mais, eu finalmente pude comprovar que as tais discussões, apesar de excessivamente teóricas, também falavam um pouco sobre aquilo que eu havia me tornado. Tentei diversas vezes conversar sobre esses assuntos com pessoas que não eram da área e ganhei deles os mesmos olhares vazios e distantes que no passado eu dirigi para vários dos meus amigos e professores da faculdade. Com base nisso, será que é realmente possível anunciar o capitalismo como o vilão da história quando a maioria das pessoas que nos cercam (e que constituem nossa realidade imediata) nem tem consciência das implicações de sua existência?

Não e … sim. Não porque o capitalismo, no final das contas, é apenas um sistema formado por e para atender pessoas. Não sei se nesso ponto podemos falar de natureza humana, mas ao longo da história temos diversos casos onde as pessoas procuraram diferenciarem-se entre si com base em credo, raça, classes ou posses materiais. O que vemos hoje é esse raciocínio desenvolvido e sistematizado em um nível de complexidade que muitas vezes nos faz acreditar que ele não será superado. A consciência histórica e sinais de deterioração como os que são mostrados nesse documentário indicam o contrário. A queda estaria, portanto, longe de ser uma vitória ou um passo rumo a algo melhor, mas apenas mais um período superado na história da humanidade.

O sim seria porque, na realidade de muitas pessoas, o sistema realmente transformou-se na causa imediata de uma vida triste e impotente. Moore analisa o cenário americano da quebra de vários bancos e da crise do mercado imobiliário para nos mostrar famílias que tiveram sua estabilidade financeira destruída por joguetes dos figurões de Wall Street. Empréstimos oferecidos como salvação transformaram-se em pesadelos que colocaram muitas dessas famílias nas ruas, fábricas demitiram trabalhadores em massa e o governo Bush, contrariando a opinião pública, gastou incríveis $700 bilhões não para ajudar os trabalhadores, mas sim para recuperar banqueiros e empresários que perderam dinheiro devido a seus “derivativos” e ganância por lucro. Para essas famílias e para esse povo, apesar de eles terem vivido e apoiado durante décadas esse sistema e esse modelo de vida, o sistema tornou-se sim um monstro que precisa ser abatido. Moore indica que essa luta começou com a eleição do presidente Barack Obama e torce para que, como ele pede nos créditos, ela não pare por aí, que as pessoas “façam algo”.

O principal mérito de Capitalismo: Uma História de Amor (assim como da maioria dos trabalhos do Michael Moore) não é apresentar uma opinião para ser absorvida e usada como argumento em discussões, mas sim estimular o questionamento. Quando o diretor tenta invadir a sede de bancos e prender seus presidentes pelos crimes que eles cometeram, ele não espera realmente que isso aconteça, mas certamente deseja que as pessoas percebam que a única coisa que nos separa de nossos direitos enquanto seres humanos é o conhecimento e a disposição para lutar por eles. Não há problema, como sugere James em seu livro, de sermos pragmáticos, mas alguma coisa precisa ser feita quando tomamos consciência da realidade que pertencemos, sendo que o exemplo dos EUA mostrado por Moore dá alguns caminhos possíveis para isso.

Pragmaticamente falando, não resolve nada, mas o alcance da voz do diretor e de seu discurso vão mais longe do que se imagina

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  1. Outro dia, li um comentário num blog e destaquei uma frase que me marcou muito: _ “Quem não tem uma visão histórica do passado produz uma visão histérica do futuro”.

    Nós, que vivemos tão imersos no Capitalismo, quando paramos para pensar sobre ele, vemos-o tão atrelado à ganância humana, que imediatamente o rejeitamos. E por ele exarcerbar esse nosso lado egoísta, procuramos, individual e coletivamente, outra alternativa que possa manter nosso modo/estilo de vida sem nos trazer tanta infelicidade.

    Quando constatamos nosso desconforto, o próprio Capitalismo nos devolve a questão: ” Ok, o Capitalismo não é bom, qual a alternativa?”
    Talvez devêssemos ser pragmáticos e, observando o passado dos Impérios que ruiram, adotar modelos que não comprometessem nosso futuro; afinal, até temos alguns exemplos (um outro mundo é possível).

    Todos querem voltar para a Natureza, mas ninguém quer voltar a pé.

    Já existe solução para a maioria dos problemas da Sociedade, e estas soluções ainda não são tomadas porque implica em desmontar estruturas que estão ligadas ao nosso conforto.
    Do que precisaremos abrir mão?
    Os meios para pensar/transformar estão disponíveis (pessoas, ideias, tecnologia) e espero poder ver/viver alguma mudança dramática nesse sentido.

    O paradoxo de Cosmópolis – muito poder, nenhum sentido – estamos enlouquecendo pelos motivos mais banais.

    Tudo está nos filmes. Sem grandes abstrações, podemos pensar a nossa realidade imediata a partir das ideias que eles veiculam; e apesar das novelas, diariamente, inocularem uma peste emocional na população, e torná-la somente emotiva e não reflexiva, sim, acredito que o Cinema possa ser um agente dessa transformação.

    Luciano, não vi este filme ainda e meu comentário dialoga um pouco com o post do Cosmópolis.
    Assim que o ver, comento mais um pouco.
    Desculpe tomar tanto espaço, mas talvez este post não vá ter muitos comentários.

    O seu blog é exemplar no sentido de discutir todos os gêneros de filme e admiro a sua disponibilidade em assistí-los e ainda comentar.

    Abraço

  2. Assista o Documentário Zeitgeist Addedum, do Cineasta, e especialista em ecomomia e deselvolvimento social, Peter Jopeh, tem no youtube !! Garanto, que sua vida nunca mais sera a mesma.. Qualquer duvida, pode me mandar e-mail para jonasheil@hotmail.com

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