Frankenweenie (2012)

Padrão

Em algum lugar entre os meus 10 e 15 anos, eu tive um gato chamado Chuvisco. Preto e branco, gordinho e cabeçudo, o bicho era uma alegria só. Bem, eu não era exatamente anti-social e não posso dizer que o tal gato era o meu melhor amigo, mas eu fiquei MUITO triste quando ele morreu vítima de um tiro covarde de espingarda de chumbinho disparado por um idiota. Naquela época, felizmente, nem me passava pela cabeça ver um filme de 1931 onde um personagem é ressuscitado por um raio, visto que minha tristeza foi tão grande que eu poderia ter facilmente tentado algum experimento científico maluco e sentido na pele a frustração de confundir realidade e ficção.

Já o diretor Tim Burton, quando realizou em 1984 o curta-metragem Frankenweenie, certamente já conhecia o filme Frankenstein bem como outros clássicos dos cinema de terror, como A Múmia, Drácula e O Lobisomem. Baseado na história da escritora Mary Shelley, o curta trazia a história de um menino que usava o poder da ciência para reviver um cachorrinho. 28 anos depois, Burton resgatou a história do curta e, ao reunir sua experiência adquirida ao longo dos últimos anos e várias referências à filmes de horror, fez uma das animações mais divertidas desse ano.

Victor é o tradicional personagem burtoniano (rs), um jovem freak que tenta encontrar seu lugar em um mundo repleto de pessoas preconceituosas e tradicionalistas. Tímido, Victor tem como único amigo Spark, um cachorro esquisitão com o qual o menino brinca, entre outras coisas, de fazer filmes de horror caseiros. Após um acidente, Spark morre e um inconsolável Victor encontra nas aulas do Professor Rzykruski a fómula para trazer seu amigo de volta: eletricidade! Em uma recriação bem humorada da cena do “nascimento” do monstro de Frankenstein, Victor traz Spark de volta a vida e enfrenta problemas gigantescos (literalmente) quando a notícia é espalhada.

Victor e Spark

Tim Burton parece ter reencontrado o rumo. Seus últimos trabalhos foram filmes que fizeram mais bem para os olhos do que para a cabeça e Frankweenie parece representar uma quebra dessa linha. Fotografado em preto e branco e utilizando uma animação grotesca que em muito difere-se dos personagens fofinhos e super animados da Pixar, Frankenweenie é muito mais do que uma atualização para o público atual do filme do diretor James Whale. Além de Spark, Burton revive também o amor e o carinho do público pelo filme de monstro. Com pouquíssimos representantes na produção mainstream atual, o “filme de monstro” já foi o pilar sustentador de gigantes como a Universal e assustou e divertiu toda uma geração que cresceu amedrontada pela ameça nuclear pós-guerra. Frankenweenie é inegávelmente baseado em Frankenstein, mas referências ao Drácula, Gâmera, Gremlins, A Múmia e também a própria Mary Shelley e ao A Noiva de Frankenstein evocam e apresentam ao público um mundo certamente valoroso para o diretor e meio que diz “Viu só? Filmes de monstro em preto e branco podem ser divertidos!”.

Enquanto me divertia com esse trabalho tarantinesco do Burton, pude ainda me identificar com o personagem principal (visto que perder um animal de estimação é uma experiência pela qual eu já passei) e perceber que, nas mãos certas, as animações podem render mais do que personagens bonitinhos e lições de moral batidas. Victor é tímido e toda a experiência adquirida durante a história prova-lhe que vale a pena dar uma chance para o outro (mesmo quando eles traem essa confiança e criam monstros gigantes rs)? Sim, mas mais construtivo que isso no roteiro é a idéia contida em um belo diálogo entre o menino e o Professor Rzykruski. “As pessoas gostam dos benefícios da ciência, mas tem medo das perguntas que são necessárias para conseguí-los”. Conhecido por seus personagens excêntricos, Burton oferece com Frankeweenie a possibilidade para que o público pense sobre a importância de fugir do convencional enquanto ferramenta de transformação do mundo. O freak assume papel de vanguarda e pede respeito.

Eu não poderia ter ficado mais feliz após a sessão. Vi uma animação muito bonita com uma mensagem bacana, ri dos personagens bizarros (não olhei uma vez sequer para o gato sem soltar uma risada), adorei a recriação de cenas classicas de filmes de horror (a cena do cemitério e a do moinho de vento ficaram fantásticas) e curti ver um dos diretores mais interessantes das últimas 2 décadas reencontrando a inspiração que ele usou em filmes como Ed Wood. Cheio de presentes e surpresas para os fãs de filmes de monstro e com uma história convidativa para o público ocasional, Frankenweenie alcança um público amplo sem precisar de, para isso, abrir mão da qualidade. Bem vindo de volta, Tim Burton.

Sério… HAHAHAHAHAHAHA!

Anúncios

Uma resposta »

  1. Pingback: Nausicaa – A Princesa do Vale do Vento (1984) « Já viu esse?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s