Cosmópolis (2012)

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Por mais difíci que seja fazer isso, eu devo confessar que grande parte do meu interesse nesse filme foi conferir a atuação do Robert Pattinson. Explico.

  • Eu não conheço o trabalho do diretor David Cronberg. Estou com o Um Método Perigoso aqui para assistir há uma década (exagero) mas até hoje não tive tempo.
  • “O primeiro filme sobre o nosso tempo”, ou algo que o valha, é uma frase de impacto usada no trailer e nada mais. Sim, chama a atenção e tudo, mas já estou um pouco vacinado contra trailers pomposos e por isso nem fiquei muito empolgado com essa definição pretensiosa.
  • Finalmente, temos o Pattinson. Tudo bem, o cara encabeça o elenco de uma das maiores aberrações cinematográficas de todos os tempos, mas eu vejo nele, salvas TODAS as devidas proporções, alguns traços da rebeldia e da agonia que o James Dean apresentava na tela. Não concorda? Acha que eu estou profanando a imagem sagrada de um dos deuses do cinema? Respeito sua opinião, mas saiba que eu digo isso após assistir todos os filmes do ator (aqui, aqui, o Juventude Transviada e esse documentário aqui) e de perceber que muito da “alma” dele pode ser identificado nas atuações do Pattinson em filmes como o Lembranças. Todo caso, é só a minha opinião e foi isso que me fez sair de casa semana passada para minha primeira sessão no CineCult do Cinemark. Agora chega de enrolação e vamos ao filme.

Baseado em um romance do escritor Don DeLillo (sinceramente, nunca havia ouvido falar dele), Cosmópolis mostra um dia na vida do bilionário Eric Packer (Pattinson) em uma sociedade que, apesar do trailer do filme anunciar como atual, parece estar alguns anos no futuro. Packer é um desses jovens super inteligentes que construiram um império financeiro através da compreensão e da aplicação eficiente das leis do mercado. Ele anda pela cidade em sua limousine branca, que também lhe serve de escritório, enquanto conversa com pessoas de todo os tipos e classes que possam lhe fornecer algum tipo de informação valiosa. O personagem ainda mantém um casamento de fachada com a aparentemente frígida Elise (Sara Gadon) e transa descontroladamente com todas as mulheres que cruzam seu caminho. Aparentemente, Packer, mesmo estando no “topo do mundo”, encontra-se entediado e busca cada vez mais por novos tipos de emoção. É então que estoura uma rebelião.

História interessante, né? Acredito que muitas pessoas não se questionem, ao levantar da cama de manhã, sobre qual é o verdadeiro motivo de seguirem a mesma rotina todos os dias. Não é necessário filosofar mais do que o necessário a respeito, a questão patente é que muitos de nós não tem um objetivo específico na vida. Não que isso seja algo ruim ou que todos os nossos passos precisem ser, necessariamente, calculados para nos levar a algum lugar, mas é um tanto quanto triste ver que, atualmente, a sociedade parece tender a focar mais as questões materiais do que as espirituais. Nesse sentido, Cosmópolis apresenta um ponto de vista interessante quando mostra como é a vida de alguém que, como foi dito, alcançou o topo em uma sociedade ditada pela acumulação de capital. Devemos entender que “dinheiro não traz felicidade”  e darmos por encerrada a discussão do filme? Não, há muito mais coisas acontecendo por aqui do que essa simplificação tentadora. Packer sente um vazio existencial que, aliado ao poder que o dinheiro lhe fornece, pode ser remediado com a realização de todos os seus desejos. No entanto ele parece não saber o que desejar, ele parece carecer de um propósito na vida e isso empurra-o para a destruição.

Lá pelas tantas, o excelente ator Paul Giamatti surge para estabelecer o contraponto a Packer, o homem comum que, oprimido pelo sistema, deseja atacar esse mesmo sistema destruindo aqueles que o sustentam. Em um extenso diálogo, o personagem acaba percebendo que aquilo que ele mais desejava tambem não lhe trará felicidade e então voltamos a questão da melancolia pós moderna onde a consciência da superficialidade parece trazer mais problemas do que soluções.

Cosmópolis é um daqueles filmes onde o conteúdo sobrepõe desproporcionalmente a forma. Trocando em míudos, a idéia é boa mas o filme é chato. O Pattinson não me decepcionou, apesar de todos os esteriótipos eu vejo muito potencial nele e esse filme constitui mais um argumento para isso, o ator exala todo o desespero e insatisfação que o personagem pede. Infelizmente, o bom roteiro e a atuação do ator não garantem uma boa sessão, o filme tem bons diálogos mas poucos momentos dignos de nota e o final tipo “tapa na cara” soa mais como um equívoco do Cronenberg do que como uma conclusão adequada para o que foi mostrado até ali.

Com o mundo aos seus pés, tudo que ele queria era um simples corte de cabelo…

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  2. Fala sério, que bom ator/atriz nunca começou sua carreira fazendo uma porcaria de filme que atire a primeira pedra. Como você também vejo um grande potencial nele, espero não me desapontar.Ótimo texto, parabéns!

  3. Adorei o texto! Finalmente li uma crítica sem pensar que quem a escreveu é um chato e notei que temos a mesma linha de raciocínio… Quero muito assistir esse filme.

  4. Eu adorei este filme e estava ansioso por vê-lo resenhado aqui.

    Gostei da sua sinceridade em admitir o desconhecimento tanto do diretor quanto do autor da história, mas a sua análise do filme foi correta, e este é um filme de idéias…muito maiores que a sua realização…mas penso que o filme não poderia ser de outra forma.

    Se você observar a trajetória do diretor, verá que o filme é coerente com toda a obra anterior dele. Cronenberg se diferenciou por filmes onde ele sempre colocou alguma forma de “mutação” no corpo dos pesonagens (Videodrome, Gêmeos, Crash), aqui ele amplia a idéia do corpo para a limusine…mas volta com o problema da prostata do Packer.
    A travessia da cidade em um dia para um simples corte de cabelo, e tudo que acontece ao longo deste dia, começa numa manhã ensolarada e termina numa noite muito escura…do gênio milionário ao suicida niilista, da luz para as trevas.

    Achei muito simbólico o uso do carro como representação de um mundo seguro e confortável, onde ocorre as discussões mais interessantes do filme, e as ocasionais saídas dele como o início da desestabilização do personagem; enquanto o mundo convulsiona numa espiral caótica.
    Uma longa reflexão sobre o mundo contemporâneo, e para quem quer pensar nele sem precisar ler um tratado sociológico, pois ele dialoga com a nossa realidade imediata.
    É claro que não somos todos milionários frustados, mas a motivação é a mesma – fama, poder, dinheiro,sexo.

    O final em aberto significa, para mim, que a arma continua na nossa cabeça

    Achei a interpretação do Pattinson adequada para o personagem, e espero que ele tenha coragem de encarar outros papéis como esse.
    Não é um filme para fãs de Crepúsculo, nem para quem gosta de ação, mas para quem gosta de exercitar a mente com idéias, embora tenha muita ação em volta, é dentro que ocorre a reflexção.
    Eis aqui uma frase que pinçei do filme e reflete o seu conteúdo:

    “As pessoas não pensam mais na eternidade e só se concentram nas horas”

    Embora não tenha lido o DonDelilo, acompanho a sua trajetória literária; ele é um autor que utiliza o gênero romance para refletir sobre a realidade e tem sido cada vez mais destacado por essa particularidade.

    Um abraço

      • Oi Lucian…eu que agradeço o seu comentário; depois que postei, achei que tinha viajado um pouco e exagerado no texto…o filme realmente me impactou e a sua análise me instigou a escrever minha impressão.

        Obrigado pelo espaço.

      • O seu comentário acrescentou muita coisa àquilo que eu julgava ter entendido da história. Ainda considero o filme tedioso, mas a história torna-se mais e mais interessante à medida que vamos lendo coisas sobre ela. Abraço.

  5. Pingback: Um Método Perigoso (2011) « Já viu esse?

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