Dívida de Sangue (2002)

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No livro Clint Eastwood – Nada Censurado, o autor Marc Eliot afirma que o ator compôs, ao longo de toda sua extensa filmografia, variações de um mesmo personagem, o “homem sem nome e sem passado” solitário que encontra-se frente a uma situação de injustiça e que decide agir mais por motivos pessoais do que por algo vago como o “bem maior”. Sustentam esssa teoria o personagem de Por Um Punhado de Dólares (que repetiu-se nos outros títulos da Trilogia dos Dólares e ganhou variações em outros westerns estrelados por ele), o Harry Callahan da série Dirty Harry e os homens solitários que o ator interpretou em filmes como Alcatraz – Fuga Impossível, As Pontes de Madison e Menina de Ouro. Na biografia, Eliot conta detalhes do difícil início de carreira que o ator enfrentou e, ao longo do livro, vai nos mostrando como essas dificuldades refletiram-se nos personagens solitários por ele interpretados e, mais tarde, puderam ser percebidas nos filmes por ele dirigidos. Eastwood saiu do anonimato onde cavava piscinas e atendia clientes em postos de gasolina para transformar-se em uma lenda viva do cinema norte americano e, principalmente, um autor em cujas obras podemos observar um pouco de sua visão de mundo.

Dívida de Sangue, dirigido e estrelado por Eastwood, localiza-se na filmografia do mesmo em um período de transição. Lançado depois do sucesso comercial de Cowboys do Espaço e antes do aclamado Sobre Meninos e Lobos, o filme trouxe Eastwood no papel de um ex-agente do FBI que procura um assassino em série mas que, devido a um ataque cardíaco, vê-se obrigado a aposentar-se. Um dos maiores fracassos comerciais da carreira do ator (o filme custou cerca de 50 milhões de dólares e rendeu pouco mais da metade disso), Dívida de Sangue mostra um personagem que em seus dias de glória poderia ter sido tão ou mais eficiente do que um Dirty Harry ou um Homem Sem Nome mas que agora, vencido pelo tempo, vê-se obrigado a trabalhar nos bastidores.

Com Anjelica Huston em Dívida de Sangue

Segundo Eastwood, o filme fracassou devido a péssima distribuição da Warner, que não investiu suficientemente na divulgação e ainda lançou a película em uma época ruim do ano. No terreno da especulações, podemos dizer também que o público não tenha identificado-se com essa nova faceta de Eastwood, menos físico e mais racional. A opinião desse humilde blogueiro é um pouco mais simples: Dívida de Sangue fracassou porque é fraco, um filme onde Eastwood reprisa não apenas um personagem mas também um cenário conhecido pelo público em uma trama dirigida e interpretada sem nenhuma empolgação.

Terry McCaleb (Eastwood) é o Dirty Harry que nós não chegamos a conhecer, um linha dura que aposentou não por perder a vontade de chutar traseiros, mas sim porque a idade e um ataque cardíaco o obrigou a afastar-se da ação. McCaleb é salvo por um transplante de coração, dois anos passam-se em um piscar de olhos e então ele é procurado por uma mulher (Wanda De Jesus) que se apresenta como a irmã da doadora do coração. O ex-agente do FBI fica sabendo que sua doadora fora assassinada em um assalto não solucionado pela polícia e decide investigar o caso. Ajudado pelo amigo Buddy (Jeff Daniels), McCaleb começa a fazer perguntas e acaba descobrindo uma trama que o leva de volta a noite de seu ataque cardíaco.

É interessante que o Eastwood tenha consciência de sua mortalidade e proponha-se a retratá-la na tela. O roteiro, apesar de utilizar vários lugares comuns (existe algo mais clichê do que o ex-agente do FBI?), apresenta uma reviravolta inesperada e possui algumas nuances chamativas, como a ligação entre doador e receptor de órgãos e entre herói e vilão. O que atrapalha mesmo é a forma como isso é apresentado pelo ator/diretor. Além de ser mal editado, Dívida de Sangue tenta ser um drama mas esbarra nas atuações sem brilho de Eastwood e do elenco de apoio e tenta ser ação mas falha por possuir poucas cenas do gênero, sendo que uma é um tiroteio onde ninguém é ferido e outra é uma tipo “batalha final” ruim e genérica demais para quem já esteve envolvido em cenas épicas ao som do Ennio Morricone.

Após esse filme, Eastwood dirigiu outras nove produções e atuou apenas mais duas vezes (Menina de Ouro e no ótimo Gran Torino). A tal “fase de transição” comentada tem levado o diretor cada vez mais para trás das câmeras e tal postura mostra-se uma decisão acertada no sentido que permite-o continuar se expressando sem ter que, para isso, transformar-se em uma paródia de si mesmo. Dessa forma, poderemos continuar amando o Homem Sem Nome que já conhecemos e esperando trabalhos bons e inovadores de um diretor que mostra filme após filme que ainda tem muito para oferecer.

É difícil de acreditar, mas dessa vez não funcionou 😦

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  1. Não fala mal nem dele, nem dos filmes, quem é alguma coisa perto de uma lenda como ele; se liga animal…………………………

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