Xingu (2012)

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Como o termo “Darwinismo Social” não é tão conhecido fora dos cursos de ciências humanas, fica aí o link do Wikipédia para os interessados e uma rápida explicação para o desenvolvimento do texto: alguns autores, baseados nos escritos de Darwin, defenderam que a teoria da evolução das espécies também aplicava-se as sociedades organizadas pelos seres-humanos, onde aquelas mais “fortes” e bem organizadas sobreviveriam ao teste do tempo. Famoso “chutar cachorro morto” dos debates historiográficos, o Darwinismo Social tem contra si principalmente a dificuldade de estabelecerem-se critérios para comparar-se o desenvolvimento entre sociedades que em sua maioria são completamente diferentes umas das outras.

Peguemos o caso dos índios como exemplo. Sentadas em suas cadeiras reclináveis com o vento do ar-condicionado no rosto, muitas pessoas acham-se no direito de falar merda expressar suas opiniões sobre os índios e sobre como, aparentemente, eles são beneficiados pelo governo federal com a concessão de terras para suas reservas. Aplicando inconscientemente o raciocínio do darwinismo social e sem raciocinar muito, essas pessoas são capazes de dizer que, se o índio não conseguiu acompanhar o nosso processo de evolução, ele merece desaparecer, que essa é a lei da vida. Ah, não nos esqueçamos também do argumento arroz-de-festa: fala que é índio mas usa chinelo e assiste TV à cabo, onde já se viu isso?! Acreditem, eu já ouvi isso mais de uma vez e não foi em um contexto cômico.

Em Xingu, o diretor Cao Hamburger (rs) volta a chutar o cachorro morto mas presta um excelente serviço tanto para o cinema nacional, por usar um aspecto importante de nossa história para variar o tema das produções nacionais, quanto para os espectadores desavisados que não conhecem a realidade dos índios safados que usam chinelo e assistem TV à cabo. No ano de 1943, o governo Getúlio Vargas promoveu uma versão brasileira da Marcha para o Oeste americana visando desbravar a região central e o norte do nosso país. Cláudio (João Miguel), Orlando (Felipe Camargo) e Leonardo (Caio Blat), os irmão Villas Bôas, alistam-se na empreitada com o desejo de aventurarem-se por terras e lugares desconhecidos. Durante a expedição, eles fazem contato com tribos indígenas no norte do estado do Mato Grosso e dão início a um trabalho que visa proteger os nativos e preservar seu estilo de vida que passa então a ser ameaçado pela presença do homem branco.

Os irmãos Villas Bôas

O filme, que conta com uma fotografia lindíssma e um belo trabalho de direção, apresenta para o público a história da criação do Parque Indígena do Xingu, região onde hoje vivem aproximadamente 5500 índios de 14 etnias diferentes. O roteiro que também é assinado por Hamburger (rs) foca os estranhamentos do primeiro contato entre os indígenas e o homem branco, o aprendizado mútuo, as doenças que a expedição levou para dentro das tribos e, principalmente, a luta dos Villas Bôas para criar uma reserva que isolasse os índios do restante do país e respeitasse seu estilo de vida, reserva essa que foi concedida pelo governo Jânio Quadros mas que foi ameaçada posteriormente pelas delicadezas do governo militar.

O filme, que eu tive a oportunidade de assistir no cinema graças a excelente Sessão Replay do Cinemark, é ótimo e contém cenários variados que vão desde os acampamentos indígenas, passando por escritórios onde Orlando recorre aos políticos para legalizarem a reserva até cenas gravadas no ar que emulam as várias viagens aéreas que os irmãos realizaram para viabilizar o projeto. Como aprendizado, deixa para os espectadores o convite ao raciocínio de que, independente de tu achar um absurdo o índio usar chinelo e assistir TV à cabo, o Xingu, assim como tantas outras reservas, representa apenas uma reparação diante de todos os crimes territoriais que os indígenas sofreram devido ao “avanço do progresso” que tirou terras de seus legitimos donos para dar, devido a acordos políticos, para criadores de gados e agricultores da região. Não trata-se, por tanto, nem de ajudar a preservar algo, mas sim, de acordo com nossas próprias leis de “sociedade desenvolvida”, não lesarmos os outros no seu direito de propriedade. Não estou aqui levantando nenhum tipo de bandeira, conheço muito pouco sobre a causa indígena, mas simplesmente não dá para pensar que estamos fazendo algum tipo de favor para eles “deixando” eles morarem em um lugar que, saca só, já era deles antes de chegarmos lá! Deixemos o John Wayne e a “marcha do progresso” lá no norte.

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  1. Esse eu desconheço, mas não me chamou a atenção a ponto de figurar na minha lista de espera, que já está bem grandinha. Acho que vou precisar terminar a faculdade para dar uma abaixada nela.

    Não consegui comentar no A ROSA PURPURA DO CAIRO. Vê se tem algum problema no blog.

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