Drive (2011)

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Há muitas coisas para serem comentadas em Drive. Pode-se elogiar as músicas e a fotografia que conferem um clima retrô a trama, especular sobre como a fábula do sapo e do escorpião adequa-se a saga do Piloto (o personagem sem nome interpretado pelo Ryan Gosling) ou impressionar-se com o refinamento que o diretor Nicolas Winding Refn alcançou para suas cenas de violência extrema. Vi e gostei de tudo isso, mas foi sobretudo o resgate daqueles temas sombrios que predominaram no cinema americano da década de 70 que me chamou a atenção.

O tal Piloto é aquele personagem introspectivo e seguro de si que todo mundo costuma adorar. Trabalhando como dublê em filme de ação e como mecânico, o cara ainda consegue tempo para ganhar uma grana como piloto de fuga em assaltos. Irene (Carey Mulligan), a vizinha do apartamento escuro onde ele mora, surge então como uma oportunidade de uma vida mais tranquila, oportunidade essa que o personagem vê desaparecer quando o marido dela sai da prisão e volta pra casa. Ameaçado de morte por dívidas feitas na prisão, o marido de Irene convence o Piloto a ajudá-lo em um assalto onde ele poderia conseguir grana para manter ele e a mulher a salvo. O assalto revela-se uma armação, pessoas poderosas e perigosas perdem dinheiro e cabeças começam a rolar, melhor, começam a serem esmagadas, esfaqueadas e explodidas.

Sim, o que salta aos olhos em Drive em um primeiro momento é a quantidade de violência na tela. Refn, que já causara bastante polêmica lá para os lados da Dinamarca com a sangrenta trilogia Pusher (o esquartejamento do Pusher 3 é deveras assustador) não poupa o expectador e mostra detalhadamente pelo menos três cenas onde personagens são mortos de forma brutal. Os fãs de filmes violentos devem conhecer e lembrar-se da cena de abertura do Irreversível onde um cara esmaga a cabeça do outro dentro de uma boate. A tal cena, cujo impacto era de certa forma “suavizado” pela luz vermelha do lugar que acabava confundindo um pouco a visão, é reproduzida em Drive pelo Piloto com a diferença que aqui ele não usa um extintor, mas sim o próprio pé para esmagar o crânio de um infeliz qualquer dentro de um elevador. Esse momento traumatizante, que acontece após um beijo com ares poéticos entre o personagem e Irene, foi recomendado pelo próprio Gaspar Noé (diretor do Irreversível) e teve que ser editado várias vezes para atender os padrões da censura americana. Soma-se ainda ao banho de sangue a “cena do garfo” e um tiro de espingarda que explode a cabeça de um personagem, definitivamente podemos dizer que Drive não é um filme para quem tem estômago fraco.

Duas pessoas estão prestes a perderem a cabeça

Não é só trilha sonora composta por músicas cheias de sintetizadores que remetem ao passado. Assim como trabalhos da década de 70 de diretores como Martin Scorsese e William Friedkin, Drive apresenta um mundo sujo habitado por personagens problemáticos que parecem perdidos e desesperados diante da realidade. O Piloto, por exemplo, é um cara que, apesar de todo talento que possui, pouco consegue conquistar daquilo que deseja. O relacionamento complicado que ele desenvolve com Irene e as consequências que o assalto lhe trazem parecem ser coisas constantes em sua vida. Trabalhando como dublê e ajudando os outros na oficina e nos assaltos, ele está sempre vivendo em função da vontade dos outros e isso parece influenciar diretamente no seu jeito introspectivo de ser. Quando ameaçado, assim como o escorpião que está desenhado em sua jaqueta, o personagem revida libertando todas essas angústias em forma de violência. Nino (Ron Pearlman), o vilão do filme, também é uma pessoa frustrada por nao conseguir respeito entre os chefões do crime, o que o leva a cometer atos violentos para tentar “marcar território”. Esses personagens, o roteiro e a conclusão da história, algo que passa longe de poder ser classificado como “final feliz”, assemelha-se muito àquele período sombrio do cinema americano que ficou conhecido como Nova Hollywood e que teve como características a exploração da violência, anti-heróis e uma análise da realidade com traços pessimistas.

Drive é um filmão: Ryan Gosling está assustador no papel principal, as músicas são muito boas e as cenas de violência, aliadas a boas perseguições de carro, fazem a 1h36min do filme passar voando. Se você ainda não viu e em algum momento da leitura desse texto ficou curioso, não tenha dúvidas de que vale a pena correr atrás, Drive é um dos filmes mais interessantes feitos em Hollywood no ano passado e, em tempo de internet, a ausência dele nos cinemas não é desculpa para deixar de conferir.

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  1. Salve!…gostei do filme como um todo porque vai na contramão dos finais felizes hollywoodianos, mas o que me chamou a atenção foi creditar a trilha ao Cliff Martinez, e o nome que aparece é o do Angelo Badalamenti, até no Wikypedia isso acontece. Tem ainda uma faixa instrumental que é do Brian Eno – An Ending (Ascent). Me lembrou tambèm o filme Vanish Point (1971) que tem uma pegada parecida; tem até uma cena (quando ele passeia pelo rio seco canalizado) que também aparece neste filme.
    Parabéns pelo blog e continuo apreciando-o.
    Abraços

    • Eu gosto muito di Vanishing Point, assisti tanto o original quanto aquela versão nova com o Sr. Aragorn. Obrigado pelo comentário e pelas informações sobre a trilha sonora. Abraço

      • Caro LucianF.
        Assisti ao Drive por um blog nacional (Cultura Filmes Online), muito bom por sinal, e lá é que vi a informação creditando a música ao A. Badalamenti, e apenas nele. Dei uma rastreada e descobri que a música realmente é do Cliff Martinez e que o próprio foi quem acusou o erro do seu nome nos créditos.
        Desculpe a insistência, mas por um momento achei que tinha ficado doido e visto coisas.
        E a referência ao Brian Eno é correta, confirmada pelo próprio Martinez.

        Abraço

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