O Anjo Exterminador (1962)

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Quem viu Meia-Noite em Paris e tem a memória boa deve lembrar-se que o personagem do Owen Wilson encontra o diretor Luis Buñuel em uma de suas viagens ao passado e sugere que ele faça um filme onde as pessoas não conseguem sair de uma casa após um jantar. Além da malandragem implícita, essa cena é engraçada e interessante porque o diretor, ao considerar a idéia, diz que ela “não faz o menor sentido”. Alguns anos depois desse momento que aconteceu só na mente fértil do Woody Allen, o diretor espanhol transformaria essa idéia no estranho O Anjo Exterminador e, apesar de ele mesmo dizer em entrevistas que não há um “sentido” para o roteiro, é possível sim perceber a tradicional crítica à burguesia de seus trabalhos durante a 1h28min de filme.

A história começa com os preparativos para um jantar em uma mansão. Os anfitriões prepararam uma noite repleta de comidas, música e conversa para seus convidados e observam enquanto os muitos empregados do local organizam os últimos detalhes. Os casais começam a chegar e a festa tem início. Estranhamente, um após o outro, os empregados começam a deixar a casa, uns para visitar parentes doentes, outros simplesmente porque não querem ficar ali. Os anfitriões se viram como podem para continuar servindo os convidados e o evento segue até que chega a hora de todos irem embora. É aí que tudo fica mais estranho ainda: indo contra todas as regras de etiqueta, nenhum dos convidados sente vontade de ir pra casa e todos dormem por lá mesmo. Na manhã seguinte, eles acordam e, mesmo que não haja nenhum tipo de impedimento físico ou material ninguém consegue deixar o local. Preso ali, o grupo enfrenta problemas comuns relacionados a confinamentos, como animosidades, falta de alimentos e de higiene e ausência de privacidade.

Assim como acontece em Esse Obscuro Objeto de Desejo e em A Bela da Tarde, Buñuel utiliza esse filme para denunciar uma classe burguesa assustada, tediosa e incapaz de superar os problemas que lhe ameaçam. Adepto do surrealismo, o diretor pode até dizer que sua obra não procura ter qualquer tipo de sentido, mas nem por isso passa despercebido o embate de classes que acontece na tela. Em O Anjo Exterminador, o mundo dos burgueses que é sustentado pelo trabalho da classe trabalhadora entra em colapso assim que os trabalhadores decidem pular fora do barco. O sistema, então, dá provas de não ser auto-sustentável e entra em um processo de implosão quando os anfitriões e convidados recusam-se a adaptarem-se a nova realidade onde eles já nã podem mais contar com o trabalho daqueles que eles costumavam explorar. Fadado ao fracasso, esse sistema é então destruído diante dos olhos o espectador para, após uma auto-crítica que ocorre já nos minutos finais, renascer baseado em pequenas e insignificantes alterações.

Optando por priorizar a continuidade das cenas, O Anjo Exterminador muitas vezes lembra a encenação de uma peça de teatro. O texto, ora explicativo, ora extremamente subjetivo, requer atenção e isso, somado ao fato de tratar-se de um filme preto e branco que já conta 60 anos desde a data de seu lançamento, torna-o uma indicação para poucos. Como nem todo mundo gosta de temas sociais/políticos/econômicos, divido-o pelo menos com quem gosta de histórias, digamos, diferentes: O Anjo Exterminador, para o bem e para o mal, assemelha-se muito pouco ao que estamos acostumados a assistir hoje em dia.

Presos, os convidados tentam sem sucesso adaptar-se a sua nova realidade

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  1. Foi o 1º filme que vi do Buñuel e apliquei a frase “Me diga com quem tu anda que eu direi quem tu é.”, um cara que era amigo do Salvador Dali não podia fazer menos. O filme vale pela diferença, mas sinceramente, achei chato. Lembro do post de “M – O Vampiro de Dusseldorf” em que tu fala que a experiência valeu mais pela “agregação de conhecimento” do que pela diversão em si. Aplico isso a esse filme.

    • Sim, sim. Tem filmes que nós assistimos e sabemos que estamos diante de algo especial mas, mesmo assim, a diversão não vem. Esse aí até que eu gostei porque eu estou fazendo algumas leituras no momento que tem a ver com o tema. Abraço

  2. Pingback: O Anjo Exterminador -1962 (via Já Viu Esse ?) | Beto Bertagna a 24 quadros

  3. Pingback: Que Horas Ela Volta? (2015) | Já viu esse?

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