Na Estrada (2012)

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Tendo feito a minha monografia do curso de História sobre o Sem Destino, eu fui estimulado pela minha orientadora a ler sobre os movimentos sociais e culturais que pavimentaram as estradas dos motoqueiros do filme do Dennis Hopper. Como a história passava-se na década de 60, concentrei minhas leituras principalmente em material sobre os hippies, mas ali ficou claro que todo aquele visual, desprendimento material e uso de drogas tinham raízes no fim da década de 40/década de 50 naquela que foi chamada Geração Beat.

Fortemente ligada a literatura, boemia e a vida nômade, a Geração Beat foi batizada pelo autor Jack Kerouac e recebeu nas páginas de seu livro Pé na Estrada seus contornos mais significativos, sendo a obra costumeiramente referenciada como a “bíblia da Geração Beat”. Passada a defesa da monografia mas ainda interessado pelo assunto, eu comprei e li Pé na Estrada em poucos dias: as loucuras que ocorrem nas peregrinações de Sal Paradise e Dean Moriarty são inspiradoras e convidativas, não dá para largar o livro antes de terminá-lo. Lógico que, fã de cinema que sou, procurei em seguida alguma versão cinematográfica da história para assistir e descobri que a obra de Kerouac ainda não havia sido filmada. Constava na época que o lendário diretor Francis Ford Coppola tinha um projeto antigo de levar Pé na Estrada para as telas dos cinemas e só. Para minha surpresa, alguns meses depois foi anunciado que o brazuca Walter Salles, de Central do Brasil e Diários de Motocicleta, finalmente transformaria o livro do Kerouac em um filme estrelado pela sensação da série Crepúsculo, a atriz Kristen Stewart. Opa! Mesmo sem lembrar de todos os detalhes da trama, eu sabia que a Marylou era apenas uma personagem secundária dentro da história. Que a imprensa utiliza-se esse enfoque para anunciar o filme era compreensível, mas foi aí que eu comecei a temer pelo resultado final tanto pela entrega de um papel exigente nas mãos de uma atriz que eu sempre considerei no máximo mediana quanto por imaginar que partes polêmicas da história pudessem ser suavizadas ou suprimidas na busca de um público maior.

Sal Paradise e Dean Moriarty

“Mas e aí, ficou bom ou não?”, pergunta-se o leitor impaciente. Separado cerca de um ano da leitura do livro mas lembrando de seus principais momentos e julgando ter entendido a “mensagem” que é passada ali, digo que sim, Na Estrada de Walter Salles está à altura da obra de Kerouac e pode-se até dizer que, de um certo ponto de vista e salvas as devidas proporções, ele faz por nós o que filmes como Bonnie e Clyde e Sem Destino fizeram para o público da década de 60.

Sal Paradise (Sam Riley) é um jovem escritor que vive a intensa mas melancólica cena cultural americana do final da década de 40 da cidade de Nova York. Ele conhece e faz amizade com o espírito livre Dean Moriarty (Garrett Hedlund) e, na energia e vontade de viver aparentemente ilimitadas do novo amigo, encontra forças para começar escrever seu livro e para fazer algo que ele desejava há muito tempo: pegar a estrada e viajar pelos EUA. Durante o caminho, eles vão conhecer vários clubes de jazz, viver romances com as belas Marylou (Stewart) e Camille (Kirsten Dunst), roubar, conhecer todo tipo de pessoa, escrever e usar muitas, muitas drogas.

A beleza da obra de Kerouac, na minha opinião, é capturar a angústia de, em um primeiro momento, definir o que é felicidade e, depois, em conseguir essa felicidade. Nesse sentido, tanto o livro quanto o filme são competentes em explorar o problema sobre três pontos de vista que são personificados em três personagens. A felicidade de Dean é fazer, o tempo todo, exatamente aquilo que ele tem vontade, sem preocupar-se com as consequências que isso trará para ele ou para aqueles que o cercam. Carlo (Tom Sturridge), amigo de Dean e Sal, não está satisfeito consigo mesmo e pouco faz para mudar isso. Ele culpa os outros por seus problemas e espera que os outros o aceitem quando ele mesmo não o faz. Finalmente, temos Sal Paradise, o rapaz que julga que sua felicidade está em qualquer lugar menos onde ele está e que por isso decide partir. Ele vivencia tanto o agitamento quanto a calmaria da época e parece não sentir-se em casa em nenhum desses lugares.

Sal, nos tempos de calmaria, não consegue esquecer Dean e o que ele representa

Walter Salles utiliza sua experiência anterior com road movies e recria os caminhos citados por Kerouac com maestria. Os policiais que multam os personagens por excesso de velocidade, os caroneiros e suas histórias, as expectativas criadas sempre que uma nova cidade aproxima-se, os roubos de alimento e de gasolina, os trabalhos que pagam pouco, tudo está lá e convence. Convencem também as atuações de todos os atores, especialmente as do Garrett Hedlund que faz um ótimo Dean e a da Kristen Stewart que surpreende e faz uma polêmica Marylou. Falando em polêmica, eu citei o Bonnie e Clyde devido a quantidade de cenas e assuntos polêmicos que esse filme não evita e joga na tela provocando silêncios constrangedores dentro do cinema. Kristen Stewart mostra os seios, masturba e faz sexo oral e ménage com Dean e Sal, os personagens usam e falam sobre drogas durante todo o filme, Sal transa com uma mãe em frente ao filho, Dean transa com outro homem, há diálogos explícitos sobre sexo e provocações políticas e religiosas.

Na Estrada é provocativo, incomoda e expõe alguns assuntos que foram e ainda são tabus, fico feliz de ver que o diretor brasileiro não apenas não os evitou quanto aproveitou a oportunidade para colocá-los em discussão ao jogá-los na cara do espectador: no final das contas, temos uma história sobre amadurecimento e é importante que a sessão, além de entreter, provoque reflexões que possam acrescentar algo em nossas vidas. Como o próprio Sal diz, “as pessoas (adpte a idéia para “filmes”) que importam são aquelas loucas, loucas para viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, aquelas que nunca bocejam ou falam chavões, mas que queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício.”

Sal, Marylou e Dean

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  1. Infelizmente os cinemas de Teresina não trouxeram Na Estrada, era sem dúvida o filme que eu mais esperava esse ano, tanto por adorar road-movies, os livros do Kerouac e confiar na Direção do Walter Salles. A questão da Kristen eu ainda nem posso opinar, mas confesso que nunca imaginaria ela como Marylou, lembro bem do Sal falar no livro “Marylou era uma loira gostosa”. Não acho que alguém de cara imaginaria a Kristen Stewart ao ler a descrição. Bem, depois que assistir volto aqui pra falar o que achei dela como Marylou e do filme como um todo.

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