Incêndios (2010)

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Volta e meia eu vejo alguém reclamando do conteúdo e dos temas das novelas brasileiras, ontem mesmo o Facebook estava repleto de posts indignados contra supostos plágios cometidos pela tal Avenida Brasil. Hoje em dia eu não assisto mais novelas, mas cresci vendo Chiquititas, A Próxima Vítima, O Rei do Gado, Renascer, Pantanal, A Viagem, Terra Nostra, Vamp, Mulheres de Areia e tantas outras. Não acho que o problema do formato seja os temas, mas sim a execução pobre, as atuações majoritariamente pífias e a falta de ousadia oriunda do compromisso em produzir material voltado para a “família”. Com a direção certa e tendo como compromisso apenas o desejo de contar uma boa história, mesmo aqueles temas familiares repletos de”reviravoltas novelescas” podem converter-se em obras interessantes, como é o caso do polêmico Incêndios.

Escrito e dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, este filme indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011 utiliza a morte da ativista política Nawal Marwan (Lubna Azabal) como ponto de partida para o encontro dos gêmeos Simon Marwan (Maxim Gaudette) e Jeanne Marwan (Mélissa Désormeaux-Poulin) com a verdadeira e trágica história de sua família. Com um passado misterioso e considerada pelos filhos como uma pessoa esquisita, Nawal deixa um testamento onde, além de dividir seus bens, solicita que os gêmeos encontrem e entreguem uma carta para o pai (que eles pensavam que estava morto) e para seu outro irmão (que eles nem sabiam que existia). A busca leva Jeanne até o Oriente Médio (não falam para qual país, mas tudo dá a entender que seja o Líbano) e, entre flashbacks e descobertas feitas conversando com os moradores, descobrimos o longo e tortuoso caminho que Narwan trilhou até o nascimento dos filhos.

Logicamente, não convém revelar o desenrolar triste e polêmico da história de Incêndios, mas comecei esse texto falando de novelas porque os rumos que o roteiro toma (em conteúdo, não em forma) não devem nada para as Maria do Bairro da vida. Nawal sofre quase todo tipo de humilhação que um ser humano pode sofrer e, mesmo o roteiro anunciando sua morte logo nas primeiras cenas, é inevitável não identificar-se com a personagem e com seu espírito de superação. Não vê-se, no entanto, personagens unilaterais, diálogos superficiais ou arcos importantes da história “mastigados” para que o espectador entenda facilmente o que está acontecendo. Uma das principais revelações do filme acontece, por exemplo, no grito desesperado de Jeanne ao entender o motivo de o irmão estar em estado de choque após conversar com um homem que conheceu sua mãe. Acredito que, nesse momento, quem está acompanhando a história atentamente certamente já deduziu o tal “mistério” sobre a paternidade dos gêmeos, mas a expressão de horror da atriz é tão genúina ao ponto de não deixar nenhuma dúvida do que o diretor queria que fosse entendido, é uma cena bela tanto pela tristeza que transborda da tela quanto pela execução.

Quando trata-se de drama, qualquer história, por mais banal que seja, é um roteiro em potencial. O sofrimento pelo sofrimento, no entanto, não me atrai, muito menos quando ele vem acompanhado por um texto fraco, edição ruim e comentários moralistas. Cresci, por isso abandonei as novelas e encontrei nos filmes meu formato favorito para tratar das mazelas humanas. Incêndios, com todas suas reviravoltas, flashbacks e lágrimas, é um ótimo exemplo de trabalho com tema familiar com o qual é possível comover-se e aprender algo sem sentir sua inteligência desrespeitada.

Incêndios traz os sofrimentos de Nawal contados com imagens poéticas como o exemplo à cima e diálogos bem elaborados

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