Para Roma, com Amor (2012)

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Para Roma, com Amor (que eu chamei de De Paris, com Amor e recebi em troca uma risada e um ingresso da atendente do Cinemark), novo trabalho do Woody Allen, não tem um roteiro tão afiado quando o de seu antecessor, o ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Meia-Noite em Paris, mas traz o diretor voltando novamente suas armas contra o pedantismo (algo que ele definitivamente faz bem, vide aquele diálogo atemporal da fila de cinema do Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) e isso sempre vale o ingresso.

Dessa vez, não temos uma, mas sim 4 histórias independentes que alternam-se na tela, então vamos falar tratar delas separadamente:

Todo mundo já deve ter ouvido a expressão “ele/ela está à frente de seu tempo” para classificar o trabalho de alguém. Esses dias mesmo eu ouvi alguém falando isso sobre o Kurt Cobain. Geralmente, trata-se de um elogio para os vanguardistas que ousaram romper as barreiras artísticas de seu tempo para produzir algo novo. Digo geralmente porque, se é fácil olhar para o passado e dizer isso de um trabalho que o tempo acabou consagrando, não podemos falar o mesmo daquilo que está acontecendo no presente. Olhar para algo que a maioria considera bizarro e dizer que o problema está com o público, não com o artista, é um tiro no escuro. “Estar à frente de seu tempo”, nesse sentido, acaba tornando-se o consolo para muita gente que não consegue sucesso profissional e não tem coragem de reconhecer que o problema pode estar com a qualidade daquilo que é produzido. É o caso de Jerry (Woody Allen), um maestro aposentado que chega em Roma para conhecer o noivo da filha e, mesmo depois de todos os fracassos possíveis e imagináveis de crítica e público, decide montar um espetáculo onde um homem cantará ópera… no chuveiro. Woody Allen, mesmo um tanto quanto cansado, está divertido em cena com seus costumeiros diálogos paranóicos e, fora a crítica aos pseudo-vanguardistas, ainda nos traz uma bizarra versão da linda Vesti la giubba do Pagliacci.

Jerry e a família aplaudem sua versão bizarra de Pagliacci

Todo mundo critica a aparente futilidade dos famosos, mas nem por isso as revistas de fofoca deixam de vender e as notícias sobre qualquer coisa que eles fazem deixam de ser acessadas na internet. Eu mesmo diria que não dou a mínima para esse tipo de coisa mas vez ou outra me vejo clicando nesse tipo de material (ta certo que aqui os motivos foram outros, enfim). A pergunta é: seríamos hipócritas ao criticar esse tipo de indústria? Será que nós também, caso fossemos famosos, não gostaríamos de que nossos atos e opiniões, mesmo os mais insignificantes, gerassem interesse? Leopoldo (Roberto Benigni) é um homem comum que nunca encontra público para conversar sobre seus assuntos favoritos: arte e política. Um dia qualquer e sem nenhum motivo aparente, ele fica famoso e tudo que ele faz (eu digo TUDO, até tomar café da manhã e cortar o cabelo) passa a ser alvo da atenção da mídia. A resistência inicial de Leopoldo com a perseguição dão lugar ao deslumbramento e é com muita tristeza que ele encara o fim desse interesse de todos por sua vida. A lição aqui, que o diretor entrega mastigada em um diálogo próximo ao fim do filme, é de que tu pode ser feliz sendo pobre e desconhecido, mas certamente é bem melhor ser feliz sendo rico e famoso. É um pragmatismo que eu não tenho condições de corroborar.

Leopoldo corre (devagar) dos repórteres que querem saber detalhes da sua vida

No humor mais óbvio e raso do filme, temos um casal que chega em Roma logo após o casamento. Vindos do interior, eles tem um passeio marcado com pessoas que podem arranjar para o rapaz um emprego que garantirá uma boa vida para o casal. O que parecia uma tarefa simples começa a transformar-se em um pesadelo quando a moça sai para arrumar o cabelo e, além de perder-se pelas ruas da cidade, perde o celular. Ela acaba encontrando um set de gravações de um filme e conhece um ator de quem fora fã, já o marido, que ficara no hotel, recebe por engano a visita de uma prostituta de luxo (Penélope Cruz, outra que já está um tanto quanto cansada) e tenta não deixar que ela complique sua apresentação para seus empregadores. Com piadas de situação típicas das comédias românticas, essas parte serve apenas para colocar em pauta uma polêmica e divertida questão: você trairia seu par se tivesse oportunidade de transar com um de seus ídolos?

Por último, temos a tal crítica ao pedantismo que acaba sendo a melhor parte do filme. Jack (Jesse Eisenberg) vive sua tranquila vida de estudante junto da namorada até o dia que uma amiga dela vem visitá-los. Mônica (Ellen Page) é um furacão: bonita, sensual e inteligente, ela balança o relacionamento de Jack que passa a desejá-la e dizer amém para tudo que ela fala. O legal aqui é que, antes mesmo de Mônica chegar, Jack conhece e faz amizade com John (Alec Baldwin) e ele passa a alertá-lo sobre a superficialidade da moça. John, que nós nunca sabemos se existe mesmo ou se é só parte de imaginação de Jack (Allen defende-se desnecessariamente com um diálogo que diz que os diretores não querem que nós entendamos algumas coisas. Pô, viva o nonsense!), analisa cada diálogo da moça e denuncia seu pedantismo (coisas como decorar uma frase de algum artista e utilizá-la para impressionar) para Jack, mas nem assim ele consegue conter seus impulsos. Fora os diálogos irônicos e divertidos, esse arco da história ainda é legal por ser um dos que mais exploram os belos cenários da cidade de Roma e por mostrar que a paixão pode anular qualquer filtro ou bom senso que nós julguemos ter. Convenhamos, geralmente é assim mesmo rs

Ela fala sobre sexo, arte e adora fazer citações de livros. Dá para resistir?

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