Anticristo (2009)

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Já viu esse algum filme do Lars von Trier? Eu conheci o trabalho do cara na faculdade em uma sessão do Dogville organizada por um amigo cinéfilo. Precisa dizer que todos os presentes ficaram chocados? Fora uma ou outra pessoa, todo mundo ali estava acostumado com os filmes do circuito comercial proporcionado pelo péssimo cinema da cidade. Imaginem os risos e as caras de espanto e de incredulidade frente a um filme onde os cenários eram substituídos por desenhos no chão. Imaginem o trauma provocado pelo som de um latido vindo de um desenho de um cachorro. Os anos passaram, eu assisti muitos filmes e mudei completamente o meu gosto relacionado a cinema, mas até hoje eu não esqueci DAQUELA DROGA DE CACHORRO DESENHADO NO CHÃO rs!

O fato é que, devido a esse trauma, eu classifiquei o diretor como “bizarro” e não interessei-me mais por seus trabalhos. Eis que, alguns anos depois, começa um burburinho sobre um filme polêmico sobre sexo e mutilações. O nome do filme era Anticristo. Em um fórum que eu frequentava, as opiniões dividiram-se entre a ridicularização e a exaltação. Fui procurar saber quem era o diretor desse divisor de águas e lá estava novamente o nome do Lars von Trier. Recordei-me do cachorro, deixei o filme pra lá. Dia desses, do nada, eu lembrei do filme e resolvi que estava preparado mentalmente para dar uma nova chance ao diretor. Assisti, fiquei mais traumatizado ainda mas, dessa vez, eu gostei muito do que vi.

Antes de começar a descrever o que eu vi e o que entendi, preciso deixar claro uma coisa. Li em algum lugar (eu nunca lembro onde rs) que esse filme seria uma tentativa do diretor de fazer um filme de terror baseado no livro homônimo do Nietzsche. Já li 4 livros do filósofo alemão (Assim Falou Zaratustra, Crepúsculo dos Ídolos, A Gaia Ciência e o próprio O Anticristo) e é com toda sinceridade do mundo que digo que não entendi completamente o niilismo pregado em suas sentenças destruidoras. É um trabalho para toda vida que eu sinto-me feliz por realizar subindo um degrau por vez. Lars von Trier realizou com Anticristo uma leitura dessa obra? Aparentemente sim e, assim como ele o fez do alto de toda sua experiência e subjetividade, eu só posso fazer o mesmo ao comentar tal trabalho: descrever aquilo que eu REALMENTE senti assistindo o filme, com todas as limitações de alguém que sabe que não é o dono da verdade. “Verdade”, alías, é algo que deu uma ou outra dor de cabeça para o Niezsche. Dito isso, vamos ao filme 🙂

Anticristo é divido em capítulos e começa com um prólogo onde a tragédia que ditará os rumos da história é apresentada. Com a belíssima Lascia ch´io Pianga tocando no fundo, o casal interpretado pelo Willem Dafoe e pela Charlotte Gainsbourg transa apaixonadamente. A intensidade do ato é reforçada pela melodia e pela ótima fotografia, mesmo a cena explícita da penetração ganha contornos poéticos dentro da pintura criada pelo diretor. Enquanto o ato acontece, o filho do casal utiliza uma cadeira para alcançar a janela do apartamento (sobrado?) onde eles moram e, ao som da mesma música e envolto na mesma poesia, cai e morre segurando seu ursinho de pelúcia. Nos capítulos seguintes (Luto, Dor, Desespero e Os Três Mendigos), vemos a tentativa de um marido, pai e psicógolo de recuperar mentalmente e socialmente uma mãe e esposa destruída pela tragédia e consumida pela culpa.

A primeira leitura que pode-se fazer do filme é que trata-se da visão de mundo de um misógino (resumindo, para quem não quiser ler o artigo do wikipédia, um misógino é alguém que despreza as mulheres). Porque? Fora von Trier ter concebido um personagem masculino que é a personificação da razão e do bom senso constrastando com uma mulher histérica e descontrolada, o próprio pensamento nietzschiano que o diretor aparentemente abraça em Anticristo é marcado por sentenças misóginas como a polêmica “Considera-se profunda a mulher – porquê? Porque nela jamais se chega ao fundo. A mulher não é nem sequer superficial” que pode ser lida no Crepúsculo dos Ídolos. O que eu entendi aqui, fazendo o link com O Anticristo (livro) e, de modo geral, com a obra do filósofo, é que a mulher aqui é a representação da natureza enquanto força destruidora presente no mundo e que von Trier, assim como Nietzsche, condena a falta de razão, o misticismo e a crença religiosa ao optar por enfrentar de frente os desafios de um mundo ditado pelo fatalismo e pelo acaso.

Tudo que foi falado aqui (assim como o filme), pode fazer todo o sentido do mundo ou pode ser apenas fruto de uma interpretação errada, destino que também pode ser reservado para os escritos do Nietzsche. O que é realmente válido, todo caso, é a tentiva de interpretação. Deixando um pouco o lado filosófico de lado, Anticristo é belo e grotesco e, assim como o Dogville, exige que o espectador esteja disposto a enxergar além do óbvio tanto para captar sua mensagem quanto para que suas cenas de violência e sexo explícito não façam-no abandonar o filme antes do final. Não, não estou exagerando, algumas cenas (sendo mais específico, a do parafuso e a do clitóris) me fizeram contorcer no sofá.

Com todas essas discussões, com todas as perguntas para as quais não consegui resposta (qual a metáfora por trás do cervo, da raposa e daquelas mulheres sem rosto?) e com a alternância brusca de belas paisagens e cenas sombrias e impactantes, só posso me render a esse trabalho pertubador do dinamarquês Lars von Trier: Anticristo levanta mais perguntas do que dá respostas e, em minha humilde opinião, isso ainda é um dos aspectos mais louváveis de qualquer obra de arte. Será que agora é hora de tentar encontrar algum sentindo naquele cachorro desenhado no chão?

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  1. Texto FODA!!!!! Muito boa a sua apresentação do filme deixando claro a proposta do diretor sem peder o misterio do enredo, e amei a contribuição das suas leituras.

  2. Achei seu post no http://www.ocioso.com.br ! lol
    Eu já havia visto esse filme, mais curiosidade mesmo… mas quando li alguns comentários desanimei e acabei nem assistindo, mas olhando pela sua opinião, percebi que as outras pessoas apenas não souberam interpretar. Adorei a post, estou procurando o filme pra ver. 🙂

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