Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974)

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Recordo-me de, com uma certa dose de ignorância, zombar dos filmes que um amigo gostava. O esquema funcionava mais ou menos assim: o cara chegava e e dizia que tinha assistido um filme de terror italiano da década de 60 :S Na época, eu contentava-me em ir no cinema no final de semana e conferir as novas formas encontradas pelo Michael Bay de explodir as coisas, logo a minha reação consistia basicamente em aloprar o cara por achar que ele estava de sacanagem. A ironia aqui é que, no final de semana passado, me “alopraram” na mesma medida quando eu comecei a assistir o Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. Vamos aos motivos:

  • O título: Geralmente, os títulos americanos até são bons, mas anos e anos sujeitos a traduções toscas e subtítulos sem vergonha (que os leitores frequentes me perdoem pelo lugar comum, mas eu não consigo deixar de perder a fé no progresso da nação quando lembro de Cloverfield – Monstro) causam uma aversão compreensível a um título pomposo desses, no caso, uma tradução literal.
  • A fotografia: Não faltam exemplos de filmes antigos cujas fotografias são, por assim dizer, “atuais” mesmo depois de passados alguns anos de seus lançamentos. O 2001 é um bom exemplo disso. Não dá para negar, no entanto, que um dos fatores que mais denunciam a idade de um filme são as cores e a resolução das câmeras com as quais ele foi filmado e em Tragam me a Cabeça… isso não é diferente, basta assistí-lo por 1min para perceber que ele é “antigo pra caralho” (palavras do tal amigo).
  • O visual: Não, nesse caso não estou repetindo o que foi falado no tópico anterior. O problema aqui não é a idade do filme, mas a ambientação e os personagens. Sam Peckinpah, carinhosamente chamado de Sam Sangrento pelos fãs de sua obra, contou uma história ambientada no México e nos EUA. Os lugares são sujos, os atores são mais velhos, alguns feios como o diabo e toda a estética visual reforça e valoriza esses aspectos.

Por todos os motivos citados, tive companhia para assistir o filme apenas por 5min e não fiquei surpreso. Antigamente, esses mesmos motivos me afastaram de muitos filmes ,portanto eu entendo o que se passou na cabeça do cara, cheguei até a rir quando ele disse que eu estava “de sacanagem” por assistir “aquilo”. Felizmente, e após quebrar muito a cara, aprendi que dificilmente alguém convence verdadeiramente o outro na base da argumentação, então concentrei-me no filme e foi com muito prazer que vi que ele correspondeu a tudo que eu esperava do diretor que me surpreendeu com o Meu Ódio Será Sua Herança.

Sacaram o “estilo” do cidadão acima? Ele é Bennie (Warren Oates) e é, por assim dizer, o “herói” de Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. O tal Alfredo Garcia do título é um infeliz que engravidou a filha de um casca grossa podre de rico do México. Para salvar a honra da filha (rs), o pai inconsolável oferece um prêmio absurdo de $1.000.000 de dólares pela cabeça do sujeito. A notícia corre e Bennie, que “conhecia uma pessoa que conhecia” o Garcia, parte atrás da recompensa. A “pessoa que conhecia Garcia” é Elita (Isela Vega), uma prostituta com quem Bennie tem um caso de longa data. Como Elita jura que Alfredo Garcia está morto e enterrado, o casal consegue um carro velho e parte até o cemitério onde ele estaria sepultado para, literalmente, levar sua cabeça. O problema é que a gorda recompensa despertou o interesse de várias pessoas…

Quando o tal amigo perguntou o motivo de eu assistir o filme, eu procurei justificar a sessão dizendo que o Sam Pekinpah foi tudo o que o Tarantino deseja ser na vida. É uma frase de efeito bacana e, lá no fundo, ela contêm alguma verdade (Tarantino é um fã confesso do diretor), mas é lógico que não funcionou assim como é lógico que não foi por isso que eu assisti o filme. Assisti Tragam-me A Cabeça de Alfredo Garcia tanto pela curiosidade sobre o trabalho do Peckinpah quanto porque, atualmente, eu tenho tido mais prazer assistindo filmes antigos do que atuais. Não foi algo forçado nem planejado, simplesmente aconteceu. Como já foi falado, antigamente eu também torcia o nariz para títulos bizarros, fotografia “velha” e visuais estranhos, mas hoje em dia é principalmente isso que me atrai em um filme, o desejo de ver algo diferente daquilo que tem sido produzido atualmente.

Caso o leitor esteja-se perguntando, não, não estou afirmando que os filmes antigos são melhores que os atuais (nem que não sejam), estou apenas dizendo que atualmente eles estão mais presentes no meu campo de interesse. Frequentemente, me deparo com “clássicos” vergonhosos, mas felizmente esse não é o caso de Tragam-me a Cabeça… Tirando toda essa questão temporal, temos um filme de crime feito pelas mãos de um dos grandes especialistas do estilo. Bennie, por exemplo, é um cara do qual eu gostei instantâneamente. Esqueçam esses heróis almofadinhas que moram em uma casa bacana com uma família bem estruturada: Bennie é contratado em um BAR, ele toca piano, bebe o tempo todo, transa com prostitutas e atira bem como o diabo. Não bastasse isso, o cara assemelha-se fisicamente ao imortal Sr. Madruga e possui um repertório de frases de efeito interminável. O momento onde ele diz “Vocês estão definitivamente na minha lista de inimigos” para dois caras que tentam estuprar Elita é deveras mágico. Sobre o tal estupro, Peckinpah repetiu aqui a polêmica que ele mesmo criara no Sob o Domínio do Medo ao sugerir que a personagem gostou do ato. Do Meu Ódio Será Sua Herança repete-se com a mesma eficiência os tiroteios ultra violentos em câmera lenta e a famosa “caminhada para a morte”.

No final das contas, o meu amigo acabou assistindo algumas partes do filme e, aparentemente, gostou de várias delas, rindo dos absurdos de um estilo que o diretor ajudou a criar. Fiquei feliz em poder oferecer a alguém a oportunidade que um dia me foi oferecida e muito contente por perceber que hoje em dia eu já superei esse empecilho temporal e posso divertir-me com bons personagens e boas histórias independentemente do ano em que elas foram criadas.

Bennie e Elita

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