Cassino (1995)

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Durante a apresentação do Oscar 2012, alguém (Billy Crystal?) fez uma piadinha com o Hugo dizendo que era estranho ver um filme do Scorsese com temática infantil. Onde estava todo o sangue e a violência costumeiramente mostrados nos trabalhos do diretor? Mesmo tendo aventurando-se por outros gêneros (Alice Não Mora Mais Aqui, A Época da Inocência), o diretor fez sua carreira e fama com clássicos como Taxi Driver, Caminhos Perigosos, Touro Indomável e Os Bons Companheiros, leituras da vida de pessoas que, por um motivo ou outro, viviam às margens do chamado “sonho americano”.  Quem riu da tal piada certamente entendeu o contraste entre o olhar carinhoso do Scorsese para o nascimento do cinema e a frieza e realismo com que o diretor costuma retratar momentos de brutalidade extrema como pode ser visto na cena do elevador do Os Infiltrados ou naquilo que o Joe Pesci faz com uma caneta no começo do Cassino.

Antes da costumeira sinopse, vou tentar descrever a cena da caneta. Considere o estereótipo dos personagens interpretados pelo De Niro e pelo Joe Pesci, homens mal humorados que não pensam duas vezes antes de dar um soco em alguém e que conversam usando um xingamento a cada 5 palavras pronunciadas. Agora imagine os dois entrando em um bar e aproximando-se do balcão para pegar uma bebida. Ao lado deles, está o típico almofadinha, um homem rico e arrogante que está conversando e exibindo-se para uma loira genérica. Ace Rothstein (De Niro) nota que há uma caneta sob o balcão e, com toda naturalidade e boa vontade do mundo, pergunta ao ricaço se o objeto lhe pertence. A resposta? “Enfie essa caneta no seu rabo”. Lembrem agora que Ace não está sozinho. Ao lado dele, está Nicky Santoro  (Pesci), um sujeito irritadiço para quem matar é tão normal quanto trocar de roupa. Ao ouvir a ofensa, Nicky pega a caneta e defende a honra do amigo golpeando freneticamente o pescoço do infeliz. A cena, que é bastante reveladora sobre a personalidade dos personagens e sobre o que será visto durante as quase 3 horas do longa, é o tipo de material que faz com que Hugo pareça mais infantil do que ele realmente é.

Ace e Nicky

Las Vegas é o palco de Cassino, cidade para onde Ace e Nicky, dois pequenos mafiosos do interior, vão buscar o paraíso terreno através de métodos bem diferentes. Ace é um cara esperto, um jogador meticuloso acostumado a dar dinheiro para muita gente acertando resultados de jogos e corridas de cavalo. Devido a esse talento, ele é requisitado pela máfia para comandar um cassino na cidade de Las Vegas, local onde ele deve trabalhar dentro dos limites da lei para facilitar e apoiar as atividades daqueles que o contrataram. Nicky, por outro lado, opera totalmente dentro da ilegalidade. Com seus métodos violentos , ele extorque, chantageia e mata quem for necessário para impor respeito e ganhar dinheiro. Em rota de colisão devido a forma de operar na cidade, os dois amigos também são divididos pela garota de programa Ginger (Sharon Stone), mulher com quem Ace casa-se mas que desperta desejo em Nicky.

Cassino trata, portanto, do envolvimento da máfia nas casas de jogos americanas da década de 70 e 80. Baseado em fatos reais, traz sim o tal olhar do Scorsese sobre a marginalidade e faz críticas duras e sistematizadas ao governo, mas nem de longe foi isso que me agradou. Tal qual acontece em filmes como a trilogia do O Poderoso Chefão,  o interessante aqui é acompanhar o desenvolvimento dos personagens, sua ascenção e queda baseada no desejo pelo poder. Ace e Nicky completam-se e destroem-se o tempo todo, os mesmos elementos que os transformaram em dois dos homens mais poderosos da cidade os condenaram a queda. Mesmo que a atuação do Joe Pesci seja infinitamente mais divertida, eu gostei muito do personagem do De Niro, cara que sabe usar sua inteligência para conseguir o que quer mas que, devido a uma ou outra decisão errada, acaba expulso de seu paraíso particular. O fatalismo implícito é desolador, visto que sozinho ele consegue tudo o que quer mas devido a necessidade de relacionar-se ele cai.

Se alguém ficou chocado ou interessado pela descrição da “cena da caneta”, vale lembrar que ela não é o que há de mais violento em Cassino. Scorsese recheou o filme de sangue, brutalidade e xingamentos para compor o mundo traiçoeiro da máfia e o resultado não poderia ser melhor. No melhor estilo “destruindo para construir”, a narrativa do diretor parte de um contexto onde tudo parece muito complexo e complicado para desembocar em uma reflexão que preza pela simplicidade de vida. Cassino mostra que quem planta, colhe e, em alguns casos, acaba transformando-se no próprio adubo da colheita alheia.

Scorsese com Joe Pesci e Robert De Niro em locação de Cassino

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