Children… (2011)

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Trabalho com crianças há quase um ano e percebo diariamente o quanto elas são importantes e dão alegria para os pais que vão buscá-las após um dia inteiro de trabalho. Mesmo que alguns demonstrem uma indiferença repulsiva para com os pequenos que eles trouxeram ao mundo, a imensa maioria dos progenitores é super protetora e reage de forma compreensivelmente desproporcional quando são informados que seus filhos machucaram-se ou envolveram-se em algum conflito. Não sou pai, mas a proximidade com aqueles que o são me fez desenvolver uma espécie de sensibildade que vai além daquela que espera-se de qualquer um no que diz respeito a tragédias envolvendo crianças, razão pela qual eu senti-me especialmente desconfortável assistindo o drama sul coreano Children… .

Em uma manhã fria e cinzenta do ano de 1992, um garotinho corre pelo vilarejo onde mora com uma bela capa vermelha amarrada no pescoço. Ele encontra e junta-se a outras quatro crianças para uma aventura pelas paisagens rurais da redondeza. Eles não voltam para casa. Desesperados, os pais procuram a polícia e inicia-se uma busca que mobiliza e comove todo o país. Os anos passam, a dor da família aumenta e o caso, que começara a cair no esquecimento, é descoberto por um produtor de documentários que procura uma história impactante para reerguer-se profissionalmente. Teorias são investigadas, feridas são reabertas e o caso caminha intercalando esperança e tristeza para os envolvidos.

As investigações do filme são acompanhadas pela cobertura sensacionalista da mídia

Baseado em fatos reais e dedicado a memória das famílias das cinco crianças desaparecidas, Children… não gasta mais tempo do que o necessário com o drama e o sofrimento dessas famílias. Ao meu ver, a intenção do diretor Kyoo-man Lee é denunciar a deficiência da lei e o sensacionalismo medíocre da mídia nesses casos. No dia da tragédia, os policiais da cidade concentravam seus esforços nas eleições locais, motivo que os levaram a ignorar momentâneamente a queixa de desaparecimento. As buscas, quando acontecem, realizam-se de forma desorganizada e improdutiva. A mídia, que a princípio acompanha ostensivamente o caso, esquece-se rapidamente daquelas crianças quando outras atrocidades acontecem e, encarnada posteriormente no produtor de documentário, retoma o caso antes pelo potencial que ele possui de atrair a atenção pública do que para, de fato, fazer algo pelos pais que sofrem.

Levado pela investigação especulativa desenvolvida pelo tal produtor e por um professor universitário, o filme é muito eficaz em envolver o espectador. Além da questão central que diz respeito ao paradeiro das crianças, a trama prende pela exploração das consequências experimentadas por aqueles que tentaram resolver o caso. Com músicas melancólicas e uma fotografia idem que prioriza tons de cinza, Children… oferece pouco conforto para quem assiste e é importante que seja assim: enquanto milhares de crianças e pais sofrem vítimas de sequestros e assassinatos, os bolsos de alguns poucos enchem as custa desse sofrimento. É importante que tenhamos alguém que lhes mostre isso. Programas do tipo Balanço Geral não deixam de ser responsáveis por pressionar os órgãos públicos a agir em determinadas situações mas, assim como vemos em trabalhos como Abutres e A Montanha dos Sete Abutres, não deixa de ser repugnante a idéia de alguém que vive as custas da desgraça alheia. Quando trata-se de crianças (ou de alces rs), tal idéia torna-se insuportável.

Tendo captado a essência da inocência infantil ao filmar uma criança que brinca com um pano que não pode tocar no chão, Lee ainda é eficaz em representar toda a impotência e os limites da lei com uma cena verdadeiramente revoltante mostrada próximo ao final da trama. Tanto no que diz respeito a crítica que faz quanto aos sentimentos que evoca, Children… é uma obra relevante que vale o tempo investido, mais uma pérola que o cinema sul coreano deixa para o mundo.

A bela cena de abertura

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  1. Acabei de ver o filme, e em busca de mais informações sobre está história, encontrei nessa publicação o retrato mais fiel à “Children…”: ele consegue ser delicado e muito revoltante. Ainda mais quando descobrimos que longe do Brasil a impunidade também devora as famílias íntegras. Uma ótima recomendação, e um caso que merece ser amplamente divulgado.

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