Guerra e Paz (1956)

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“Quando a literatura tem um Tolstói, é gratificante ser escritor: mesmo se você sabe que nunca fez nada de bom, não se sente tão mal, pois Tolstói realiza o suficiente por todo mundo.” Anton Tchekov

Produzido entre 1865 e 1869, Guerra e Paz, o livro, é amplamente considerado como um dos pilares da literatura mundial. Eu tenho a edição em 4 volumes da L&PM Pocket, os quais juntos somam cerca de 1500 páginas que eu demorei longos 6 meses para concluir. A citação acima está estampada no verso do volume 2 dessa edição e, além de fazer merecidos elogios ao autor, revela a magnitude da obra contida naquelas páginas, uma epopéia sobre as guerras napoleônicas travadas na Europa entre 1805 e 1812.

Autor consagrado, pilar da literatura mundial, 1500 páginas, guerras napoleônicas… Tudo que gira ao redor de Guerra e Paz evoca grandeza e seriedade. No que me diz respeito, atesto que é um dos trabalhos mais complexos e completos que eu já li e lembro-me perfeitamente de pensar, enquanto lia, que seria praticamente impossível fazer justiça a história no formato cinematográfico. Além de realizar um trabalho incrível descrevendo paisagens e cenas de batalha, Tolstói cria uma infinidade de personagens construídos em um nível psicológico que lhes confere singularidades poucas vezes vistas nas linhas de outro autor. Acreditem, não há exageros nas minhas palavras quando eu digo ser praticamente impossível transformar o romance em um filme minimamente fiel ao trabalho original.

Aparentemente, o diretor King Vidor não pensava dessa forma. Apoiado por um time de 6 roteiristas e por um elenco comandado por estrelas da época como Audrey Hepburn e Henry Fonda, Vidor resumiu o trabalho de Tolstói em um filme de 3h20min cujo único mérito é fornecer aos leitores do livro referências visuais (ainda que incoerentes) para os personagens e cenários. Excluindo todas as ponderações históricas do autor, o diretor ateve-se a simples encenação dos principais acontecimentos da trama e, ao optar por concentrar a atenção em Natacha (Hepburn) em detrimento de Pedro (Fonda), matou todo o aspecto psicológico/filosófico da obra.

Pedro Bezukov e Andre Bolkonski

Guerra e Paz não é considerado um “monumento à paz” devido as paixões passageiras e a alegria irritante de Natacha. Pedro Bezukov, único herdeiro do riquíssimo Conde Bezukov, vive uma vida vazia e carente de sentido antes da guerra entre Napoleão e o Imperador Alexandre I. Gordo e entregue a todo tipo de vícios, Pedro vê seu casamento fajuto terminar e inicia uma jornada de autoconhecimento ingressando na maçonaria. Sensibilizado pelas conversas com o prícipe André Bolkonski, amigo de longa data, e pelas crueldades e horrores da guerra, Pedro chega ao final da história como um homem sábio que experimentou, na teoria e na prática, as questões de ordem social e espiritual de seu tempo.

O roteiro do filme de Vidor simplesmente ignora a parte da história onde Pedro é aceito pelos maçons e reserva pouquíssimo tempo para as ponderações do personagem sobre a vida e a guerra. O foco aqui são os bailes e passeios pomposos onde Natacha ignora solenemente tudo que está acontecendo à sua volta em nome de suas primeira descobertas sobre o mundo, aspecto interessante mas secundário na obra original. General Kutozov, a mente por trás da estratégia que derrotou Napoleão? Reduzido a um velho resmungão que aparece em uma ou duas cenas. Nicholas Rostov, o personagem que melhor representa o aristocrata comum do livro? Aqui ele não passa de um almofadinha de uniforme. André Bolkonski, o espírito atormentado e apaixonante que transformou-se em meu personagem favorito devido a sua inteligência e lucidez? Retrataram-no com um tolo sem nenhuma profundidade cuja impulsividade não encontra correspondência no personagem original.

Espero que o leitor não pense que tais afirmações sejam frutos do tradicional pedantismo de alguém que comenta um filme à luz do livro no qual ele baseia-se. Já ouvi e li absurdos de leitores de O Senhor dos Anéis e Harry Potter e de forma alguma eu repetiria isso por aqui. Guerra e Paz, o filme, é um fracasso mais por sua péssima edição, atuações e carência de profunidade do que por não conseguir fazer justiça ao livro, o que, de certa forma, é perfeitamente compreensível visto a dificuldade da empreitada. Sem o filme, o romance continua sendo uma leitura difícil mas prazerosa de 6 meses. Sem o romance, o filme é apenas uma experiência tediosa de 3h20min onde o nível de aprendizado beira o nulo.

Mesmo a feroz e sangrenta Batalha de Borodino é feita mais na base da pompa cinematográfica do que do realismo desesperador descrito por Tolstói

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  1. o segundo melhor filme que eu vi. Primeiro BEN HUR – NÃO CONCORDO CONTIGO … BOM É TITANIC. TENHO 58 ANOS, APOSENTADO, MAXISTA ESPIRITA. VIM DO PASSADO E JOGO XADRÊZ. SEU COMENTÁRIO É UMA AFRONTA A MINHA INTELIGENCIa

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