O Escafandro e a Borboleta (2007)

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Escafandro?

“Escafandro é uma armadura de borracha e latão utilizada por mergulhadores para trabalhos no fundo da água. Essa estrutura comunica-se com a superfície através de um duto que assegura a livre respiração e permite resistir à pressão da água.” Fonte: Wikipédia.

Sanada essa dúvida que eu acredito que muito leitores compartilhavam comigo, convido-os a lembrar de uma pérola dita pelo Robert Downey Jr. para o Ben Stiller no Trovão Tropical. Ao falar sobre a atuação do Stiller no fictício Simple Jack, o negrão Downey Jr. diz que,  para conquistar o público, o ator nunca deve interpretar um retardado completo, citando o Forrest Gump do Tom Hanks como um meio termo ideal. Humor negro à parte e feitas as devidas adaptações, considero esse “meio termo ideal” o grande trunfo de O Escafandro e a Borboleta.

São necessárias adaptações porque Jean-Do (Mathieu Amalric) não é um retardado. Vítima de um ataque cardíaco seguido de um quadro clínico extremamente raro, Jean é condenado a viver em uma cama de hospital com o corpo paralisado e sem conseguir falar. Com a ajuda de enfermeiras dedicadas, Jean passa a expressar-se através de um sistema desenvolvido para interpretar todos os movimentos de seu olho esquerdo, única parte do corpo que ele consegue mover após a tragédia.

Baseado em uma história real, o drama do diretor Julian Schnabel inspira compaixão e tristeza bem como representa um exemplo de superação, prato cheio para quem quisesse contar uma história tocante. Fosse feito assim, o filme poderia tornar-se uma obra para ser colocada ao lado de títulos como Shine, Uma Mente Brilhante ou Meu Pé Esquerdo, um diamante a mais misturado no meio de um vasto tesouro. O diferencial aqui, o tal “meio termo ideal”, refere-se a forma como Schnabel vê o drama de Jean-Do e a forma como o doente vê a si mesmo.

Em um primeiro momento, o diretor faz o possível para nos colocar na pele do personagem. Com câmeras criativas que simulam uma visão em primeira pessoa (inclusive uma genial que acompanha a última imagem captada pelo olho direito de Jean), Schnabel abre o filme equilibrando o domínio técnico, desenvolvimento de personagem e interação com o público. Acreditem, temos ali algo que realmente pode ser classificado como “diferenciado”. Segue-se o dia-a-dia de Jean-Do e seu processo de adaptação à sua nova realidade, adaptação que ele faz de forma consciente e extremamente auto crítica. Claro que há alguns momentos de negação, seria absurdo se não houvessem, mas o que chama a atenção aqui é o constante bom humor com o qual o personagem, em monólogos em off, refere-se a si, humor reforçado por um humor negro sutil que mostra imagens de Jean em poses hawkianas em momentos cruciais.

Nem retardado/debilitado completo nem um drama apelativo, O Escafandro e a Borboleta é uma história singular sobre um estado singular de um homem que, com esforço, paciência e um certo bom humor, conseguiu livrar-se de suas limitações físicas, de sua armadura de borracha, e mostrar aquilo que havia de melhor em sua alma.

O “sistema” desenvolvido para Jean-Do comunicar-se

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