J. Edgar (2011)

Padrão

Há alguns dias eu estava sentado na sala de espera de um consultório odontológico e comecei a folhear uma Isto É  para passar o tempo. A edição em questão trazia uma entrevista com o diretor Clint Eastwood em que, entre outras coisas, ele comentava sobre o J. Edgar, filme sobre a vida do ex-diretor do FBI J. Edgar Hoover. Dias depois, enquanto eu estava na sala de cinema assistindo o filme, não pude deixar de lembrar de uma parte dessa entrevista, à saber:

Isto É: Ironicamente, o filme trata com bastante sutileza a suposta homossexualidade do ex-diretor do FBI.

 Clint Eastwood – O roteiro procurou incorporar todas as especulações sobre o personagem, inclusive a hipótese de que ele gostava de se vestir de mulher. Não seria justo, contudo, apresentar isso co­mo verdade. No filme ele só põe o vestido da mãe quando ela morre. E o que isso quer dizer? Que ele era gay ou que queria apenas se sentir perto da mãe? Tratamos da mesma maneira o seu suposto envolvimento com o seu assistente Clyde Tolson. Quem poderia saber se eles realmente foram amantes?

Sutilidade? De duas, uma: ou o pessoal da Isto É não assistiu o filme ou o Clint Eastwood não quis criar polêmica em uma entrevista que, entre outras coisas, tinha como objetivo divulgar seu último trabalho. É claro que, se formos considerar como “homossexualismo” apenas cenas onde os personagens aparecem tendo algum tipo de contato físico, J.Edgar não pode ser comparado com filmes como Milk ou O Segredo de Brokeback Moutain. Agora, no que diz respeito a olhares, frases e juras de amor, a cinebiografia dirigida pelo Eastwood não deve absolutamente nada para os filmes citados.

A história começa nos EUA dos anos 20 onde o crime organizado e a revolução comunista constituem as principais preocupações da polícia. J. Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) é um jovem inteligente e ambicioso que defende a introdução (qualquer trocadilho é por sua conta, leitor) do método científico nas investigações policiais. Com um projeto de criar um banco de dados para identificar todos os criminosos do país e um discurso afiado contra os comunistas, Hoover experimenta uma rápida ascensão profissional e é eleito o 1º diretor do FBI. Hoover combate bandidos famosos como John Dillinger (cuja história foi contada pelo Michael Mann em Inimigos Públicos), ajuda a resolver o sequestro do bebê Lindberg e acaba tornando-se uma espécie de herói da cultura popular americana. Passando cerca de 48 anos no poder, o diretor reúne arquivos comprometedores contra figurões da política de seu país e torna-se um homem temido e respeitado.

Hoover: o ex-Diretor do FBI e Leonardo DiCaprio caracterizado como o personagem

O nome Armie Hammer diz alguma coisa pra você? O ator, mais conhecido por seu papel dos gêmeos Cameron/Tyler Winklevoss no A Rede Social, foi o escolhido de Eastwood para interpretar Clyde Tolson, a parte da vida do ex-diretor que a Isto É estranhamente classificou como “sutil”. Hoover, que sabia dos perigos de uma conduta pessoal polêmica e desencorajado pela mãe (a ótima Judi Dench) que diz “preferir ter um filho morto do que um filho homossexual”, procura ocultar sua opção sexual do público saindo com atrizes de Hollywood mas apaixona-se por Tolson desde o momento onde ele chama-o para uma entrevista de emprego baseado na informação de que o candidato “não demonstra interesse por mulheres”. Em todo o filme, eles dão apenas um beijo, fruto de uma discussão por ciumes, mas não há nenhum tipo de sutilidade na forma como eles olham-se, no jeito que eles conversam um com o outro e nos programas que eles fazem juntos, coisas como jantar, viajar juntos e hospedarem-se no mesmo quarto.

Enquanto não está trocando carinhos com seu assistente, Hoover é mostrado por Eastwood como um homem que foi corrompido pelo poder. Consumido pelo ego, o ex-diretor forja histórias para ganhar a idolatria do público e gasta verba pública para financiar revistas em quadrinho onde ele aparece como um super policial defensor da justiça. DiCaprio, cujo trabalho foi completamente ignorado pela Academia (aliás, indicações bizarras para Melhor Ator esse ano,visto que o Brad Pitt está concorrendo por O Homem Que Mudou o Jogo e não por A Árvore da Vida) é o responsável por nos apresentar esse homem que caminhou na linha tênue entre o bem e o mal, tarefa que ele desenvolveu muitíssimo bem: sentimos aversão e admiramos o personagem quase que simultaneamente. Vale citar ainda o belo trabalho de maquiagem usado para envelhecer o ator (o que não pode ser dito do mesmo recurso usado para o Armie Hammer) e a coragem de Eastwood de expor podres de figuras políticas americanas costumeiramente apresentadas como heróis, como é o caso dos irmãos Kennedy.

Eastwood, que em seus últimos trabalhos tem refletido sobre maturidade e fim da vida, foi feliz em dar sequência na proposta optando por desconstruir a figura do “herói” e mostrar que mesmo um dos homens mais poderosos e influentes da história americana guardava alguns esqueletos no armário (esqueletos, loiros de 1,90, tanto faz).

Não é nada disso que você está pensando: eles são amigos que jantam juntos e dormem no mesmo quarto

Anúncios

»

  1. Pingback: Curvas da Vida (2012) | Já viu esse?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s