A Pele que Habito (2011)

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“Eu pensava que era de um jeito, começou de outro e terminou de uma forma completamente inesperada”, eis a minha melhor definição para esse trabalho do Almodóvar.

  • Eu pensava que era de um jeito… : Almodóvar é um diretor para o qual a minha mente reservou a classificação “cult” no sentido pejorativo da palavra. Explico: em duas oportunidades distintas, escutei o nome do cineasta espanhol vindo de pessoas que claramente o usavam para parecerem inteligentes e descoladas, coisas absurdas como, no meio de uma conversa sobre filmes de ação, a pessoa dizer “sou mais um filme do Almodóvar”. Isso soaria engraçado se fosse dito ironicamente , mas, da forma como foi dito, só serviu para despertar minha antipatia contra a pessoa e, indiretamente, contra o diretor. Tempos depois eu assisti aquele Volver e, como não achei lá essas coisas, perdi o interesse no trabalho do cara. A indicação do A Pele que Habito ao Globo de Ouro me chamou a atenção e, desejoso de desfazer essa impressão ruim, assisti o filme esperando algo digno do nome e do status que o diretor sustenta.
  • Começou de outro… : O que seria esse “algo digno do nome e do status que o diretor sustenta?” Muita gente não importa-se com nome de diretores ou conhece suas, digamos assim, linhas de raciocínio na hora de fazer um filme, e isso é perfeitamente compreensível. Eu já não conseguiria entender, por exemplo, uma comédia romântica dirigida pelo Tarantino ou um filme de zumbis do Scorsese. Digo isso porque, com base naquilo que eu vi no Volver, eu havia associado o nome do diretor a dramas minimalistas, não a suspenses com traços de ficção científica! A Pele que Habito conta a história de Robert Ledgard (Antonio Banderas), um renomado cirurgião plástico que desenvolve pesquisas sobre pele sintética. Vemos inicialmente o trabalho meticuloso que ele realiza com a misteriosa Vera Cruz (Elena Anaya) e sua defesa pública da pesquisa que, segundo ele, poderia ajudar no tratamento de vítimas de queimaduras. Misturando linhas temporais, Almodóvar começa a ir e voltar no tempo para revelar os verdadeiros motivos que levaram Robert a desenvolver esse trabalho e conhecemos detalhes do passado … incomum de Vera.
  • … e terminou de uma forma completamente inesperada: Esse “detalhes do passado” é o tipo de coisa que realmente surpreende, acreditem, o buraco é bem mais embaixo (e mais feio) do que parece inicialmente. O bacana (e o que eu achei realmente diferente aqui) é que, por mais que aquilo que acontece na trama possa ser analisado por um lado mais psicológico, algo como a subversão da sexualidade, o homem que tenta moldar e dominar a realidade de acordo com a sua vontade, paranóias e frustrações, o filme não depende disso, desse papo costumeiramente classificado como “cult” para ser legal. Com seu erotismo, sua complexa linha temporal, seus personagens singulares (o cara vestido de tigre é bem legal) e sua história pouco convencional, o filme do Almodóvar alcança vários tipo de público e isso merece ser celebrado.

Tendo acabado com o estigma que eu havia colocado sobre o diretor, indico A Pele que Habito para os interessados em conhecer o trabalho do Almodóvar e para quem gosta de acompanhar o Oscar, visto que fatalmente o filme estará entre os indicados a Melhor Filme Estrangeiro.

O “mistério” Vera Cruz

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  1. amei a sua definição: “Eu pensava que era de um jeito, começou de outro e terminou de uma forma completamente inesperada”…..kkkkkkkkkkkkkkk me diverti muito lendo seu post de a pele que habito porque foi assim que me senti assistindo a esse filme, eu gosto das loucuras do Almodóvar, lembro que o primeiro filme que assisti dele foi mulheres à beira de um ataque de nervos e acabei me familiarizando com aquela “loucura toda” kkk mas tem uma definição que eu acabei tendo dos filmes deles à medida que ia assistindo, é sobre as nossas loucuras, aquilo que queremos esconder, aí almódovar vem e expõe…kkkkk acho que vai por aí… mas em a pele que habito ele se supera nessa loucura que tanto cito e por mais que o filme tenha quase duas horas de duração vc não cansa, e fica preso a estória do médico louco e de como vc colocou tão bem da misteriosa Vera… é bem provável que seja indicado ao oscar estrangeiro, pelo menos tem minha torcida!

    • Salvo engano, os indicados serão anunciados hoje as 17:30hrs. E sim, tenho que concordar com você que outro dos méritos do filme é passar rapido, é entretenimento de qualidade mesmo 🙂 Abraço

  2. Pingback: Julieta (2016) | Já viu esse?

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