Luzes da Ribalta (1952)

Padrão

Sabe o que é ribalta? Não? Eu também não, então vamos aprender juntos:

Ribalta: Parte dianteira do palco, que se estende para fora da boca e onde ficam os refletores. Teatro, representações dramáticas.

As luzes da ribalta, portanto, são aquelas que focalizam  quem está na frente do palco, aquele/a no qual deve-se prestar atenção. Se as luzes servem para chamar a atenção do público, certamente elas não garantem a aprovação do artista, dependendo este muito mais do seu talento do que de qualquer artifício técnico para alcançar o sucesso. O passar dos anos leva muitos desses artistas a viverem no ostracismo, mas é certo que quem experimentou uma vez sequer o prazer de ser merecidamente reconhecido por aquilo que ama fazer não consegue mais contentar-se apenas com a atenção passageira e artificial trazida pelos holofotes.

Luzes da Ribalta é um filme diferente daquilo que eu estava acostumado e do que, consequentemente, eu esperava do Chaplin. Apesar de poder ser classificado como uma comédia e de possuir boas cenas do gênero, o que chama a atenção aqui é o drama desenvolvido sobre as dificuldades de envelhecer  e não atender mais as expectativas dos outros. Calvero (Chaplin) é um palhaço cujo nome evoca respeito e lembranças de espetáculos memoráveis. Se no passado ele brilhou como poucos e fez centenas de pessoas rirem, no presente ele é apenas um velho alcoólatra que só consegue público devido a reputação que ainda possui.

Voltando para casa após mais um dia de bebedeira, Calvero salva Thereza (Claire Bloom) de uma tentativa de suicídio e passa a cuidar dela como se fosse seu marido. Thereza também experimentara as glórias do palco apresentando-se como bailarina, mas problemas familiares fizeram-na abandonar e temer as apresentações públicas. As tragédias em que suas vidas transformaram-se servem de estímulo, em momentos alternados, para que eles encontrem motivos para continuar e procurar a felicidade através da realização profissional.

Sendo este o penúltimo filme do Chaplin (ele já estava com cerca de 63 anos na época do lançamento), eu não consigo deixar de pensar no quanto os dilemas e sofrimentos de um artista que sente-se ultrapassado expostos em Luzes da Ribalta não sejam frutos de questionamentos que o ator/diretor possa ter enfrentado ao vislumbrar a morte do cinema mudo onde ele consagrou-se e o fim de sua própria carreira. Calvero tem pesadelos onde ele dá o seu melhor e não consegue público, vê sua velhice e o respeito que vem junto com ela retirar-lhe a “inocência” que as pessoas esperam de um comediante e sofre por conseguir trabalho por dó e pelo nome que tem e não por aquilo que ele ainda tem a oferecer.

Chaplin, maduro e consciente de sua importância, abriu o seu coração e fez de Luzes da Ribalta uma espécie de homenagem repleta de nostalgia para todos aqueles artistas com os quais o tempo é impiedoso. Se posso apenas especular sobre a ligação entre o personagem e a realidade do ator, posso atestar que há muita sinceridade aqui, tanto nas mensagens de esperança quanto na paixão pelos palcos que revela-se maior do que qualquer problema ou tragédia daqueles que carregam no coração o desejo e o talento de entreter. Excelente.

Calvero e a Bailarina

Anúncios

»

  1. Pingback: O Artista (2011) « Já viu esse?

  2. Pingback: Em Busca do Ouro (1925) « Já viu esse?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s