A Montanha dos Sete Abutres (1951)

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Nutro uma profunda admiração pela profissão de jornalista e atualmente cursar a faculdade de Comunicação Social é um dos meus maiores desejos. Pela falta de tempo e de perspectiva quanto ao mercado de trabalho pouco favorável da minha cidade, sigo adiando esse sonho, escrevendo e pesquisando apenas por prazer. Se posso dizer que Chuck Tatum (Kirk Douglas) é um cara que vive o meu sonho, um jornalista hábil nas artes de falar e escrever, não posso dizer que ele o faça por prazer. Despedido de uma infinidade de jornais por embriaguez e devassidão, Tatum chega a pequena cidade de Albuquerque disposto a conseguir um emprego no jornal local e reconstruir sua carreira. Passa-se um ano e a rotina e a tranquilidade do local frustram o jornalista que aguarda um grande acontecimento para projetá-lo nacionalmente.

A Montanha dos Sete Abutres é o título nacional escolhido para o filme Ace in the Hole (Ás na Manga ou algo que o valha) dirigido em 1951 pelo diretor Billy Wilder (O Pecado Mora ao Lado). Dentro da trama, a tal montanha é o local onde Tatum encontra sua tão aguardada oportunidade, seu “ás na manga”: procurando por relíquias indígenas, o explorador Leo Minosa (Richard Benedict) acaba soterrado dentro da montanha. Tatum vê no acidente a chance de escrever uma história que chamará a atenção do país inteiro e, junto com a esposa de Leo (Jan Sterling) e do xerife local (Ray Teal), arma um verdadeiro circo no local do ocorrido, atrasando o resgate o máximo possível em nome do lucro e das oportunidades profissionais que o “evento” proporcionará para os envolvidos. Enquanto vendem-se jornais sobre a história e cachorros-quente para os milhares de curiosos que vão até o local, a saúde e a resistência de Leo definham sob os escombros.

Tatum e Leo Minosa no local do desmoronamento

Se Todos os Homens do Presidente é amplamente considerado uma “aula de jornalismo”, A Montanha dos Sete Abutres pode e deve ser mostrado para qualquer estudante do curso como um exemplo de como NÃO praticar a profissão. Irresistível com seu charme e discurso afiado, o Tatum do Kirk Douglas passa por cima de qualquer noção de moral para conseguir o que quer: mente, manipula e distorce fatos sem  preocupar-se com as consequências de seus atos. Diante de uma placa no jornal de Albuquerque onde lê-se “Diga a Verdade”, Tatum sente-se incomodado e faz piada dizendo que o público não quer saber a verdade (dilema bem explorado nesse filme aqui).

Tentei fazer uma ligação entre o nome da montanha (Sete Abutres) e o comportamento dos personagens que, tal qual a ave, rondam Leo Minosa e utilizam seus sofrimento para benefício próprio, porém não contabilizei sete personagens aos quais possa-se atribuir tal comportamento (Tatum e seu assistente, a esposa e o xerife e, forçando muito a barra, o chefe da equipe de resgate e o vendedor de seguros, fica faltando um). De qualquer forma, a analogia é válida e os programas policiais “estilo Datena” (o da minha cidade é o trash Linha Dura) são a prova de que a exploração da violência e da desgraça alheia criticadas pelo filme, a chamada imprensa marrom, já existia há 60 anos.

Entendo a frustração de Tatum frente as banalidades do dia-a-dia da profissão, deve ser desanimador formar-se e ter que trabalhar escrevendo esse tipo de matéria. No entanto, e como o filme mostra muitíssimo bem no final, manipular notícias e pessoas em prol de grandes histórias pode facilmente levar uma pessoa do papel de herói para o de vilão e colocá-la a disposição de outros profissionais da área para o linchamento público.

Além desse roteiro provocante, A Montanha dos Sete Abutres conta com a narrativa fluída e irônica do Billy Wilder e uma atuação magnífica do Kirk Douglas, fatores que o transformam em um filme tão divertido quanto informativo. Indicadíssimo.

Tatum e seu “palco”, a Montanha dos Sete Abutres

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