Nascido em 4 de Julho (1989)

Padrão

“Estes milhões de homens praticaram, em relação uns aos outros, tão grande número de abominações, de fraudes, de traições, de roubos, de falsificações de moedas, de pilhagens, de incêndios e de morticídios como não há exemplos nos arquivos dos tribunais do mundo inteiro, funcionando há séculos, e sem que, no entanto, durante todo esse período, aqueles que cometeram tais crimes fossem considerados, realmente, criminosos.”

O texto acima, trecho retirado do Guerra e Paz do Tolstói, descreve atos praticados durante as guerras napoleônicas mas não está longe de representar um retrato fiel de conflitos mais recentes como a Guerra do Vietnã. Visto anos depois, ainda mais em um contexto onde “Guerra Fria” já não é nada mais do que um termo, o conflito parece simples de ser compreendido, é fácil ver os EUA envolvendo-se na bandeira da liberdade para justificar sua disputa ideológica contra a ex-URSS. Como explica Tostói no mesmo livro, esse pragmatismo não apenas não dá conta de fornecer explicação satisfatória para compreender aquele período quanto, em sua amplitude, desconsidera as milhares de vozes, sentimentos e vontades conflitantes que envolvem qualquer acontecimento histórico. Como justificar, por exemplo, o alistamento voluntário no exército em época de guerra usando apenas o patriotismo como motivo? O que de fato leva um jovem a querer sair do conforto de sua rotina para ir ao outro lado do mundo matar seus semelhantes?

Ron Kovic (Tom Cruise) é aquilo que podemos chamar de adolescente americano “padrão”. Branco, praticante de esportes, filho de uma família religiosa e patriota, Kovic alista-se para a Guerra do Vietnã para “combater o comunismo”, para “defender os interesses dos EUA”, para fazer sua parte e ajudar o país assim como a geração de seu pai o fez na Segunda Guerra Mundial. Por trás do discurso do governo que Kovic engoliu e vomita para quem queira escutar, está um jovem frustrado pelas poucas oportunidades que o futuro parece lhe oferecer, um atleta derrotado, um aluno medíocre e um adolescente cujo interesse amoroso escolheu outro para ir ao baile de formatura. Em sua aventra quixotesca pelo sul da Ásia, Kovic conhece os terrores da guerra e retorna para casa paraplégico. Aos poucos, ele percebe o quanto o seu amor à pátria é pouco ou nada correspondido.

Oliver Stone e Ron Kovic

  Nascido em 4 de Julho é uma extensão natural de Platoon, ambos dirigidos pelo polêmico Oliver Stone. Se Stone, que lutou na Guerra do Vietnã, mostra em Platoon o quanto o terror e o medo, não a ideologia, preencheram os campos de batalha vietnamitas, nesse filme, que é baseado na biografia do veterano Ron Kovic, ele nos conduz através do desmoronamento dessa ideologia naqueles que lutaram para defendê-la (ou que pelo menos acreditavam que o faziam). Kovic, que desde pequeno acompanhava os pais nas celebrações do dia da independência americana (04/07), considera uma honra poder lutar pelo seu país. “Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo seu país”, “ame-o ou deixe-o” fazem sentido para ele até o momento onde ele descobre que, fora títulos e medalhas com os quais ninguém importa-se, ele sacrificou seu futuro em nome de uma causa sobre a qual ele pouco ou nada conhecia de fato.

Stone conduz a história mostrando a transformação do patriotismo de Kovic em ativismo antiguerra. Dois fatores são fundamentais para o sucesso da empreitada. Primeiro, o conhecimento de causa. A opinião do diretor e de Kovic, com quem Stone divide o crédito pelo roteiro, pode até ser apenas mais uma entre tantas outras possíveis para o que se passou no Vietnã, mas é uma opinião que transborda as expectativas, medos e dúvidas de alguém que esteve lá. Sempre que o diretor mostra um imagem forte ou um personagem indeciso no campo de batalha, eu pensava “será que foi assim que ele viu/sentiu aquele momento?”. Isso é e sempre será válido.

O outro ponto é o Tom Cruise. Nunca vi o ator como apenas mais um rostinho bonito de Hollywood e filmes como Magnólia, Entrevista com o Vampiro e Vanilla Sky comprovam isso. Quando a história começou, no entanto, tive a impressão que tudo encaminhava-se para uma reprise do que o Brando fez no Espíritos Indômitos visto a proximidade do tema. Cruise não apenas dá personalidade ao personagem quanto estabelece uma relação de amor e ódio com o espectador como só os grandes atores conseguem. Ele consegue transitar facilmente entre o “bom mocinho” do filho perfeito que está saindo de casa para defender o país e a escória humana, moral e intelectualmente falando (sim, estou aplicando juízo de valor) em que ele transforma-se  apóa a guerra.

As cenas da confissão de um crime de guerra por ele cometido e a discussão familiar envolvendo palavrões a blasfêmias após uma bebedeira em um bar valem o filme. Destaco ainda a bela briga de cadeiras de roda com o personagem do Willem Dafoe, que tem uma aparição breve mas marcante na história.

Nascido em 4 de Julho concorreu a 8 Oscars, levou 2 (incluido Melhor Diretor) e, assim como Platoon, é uma bela mensagem antiguerra, um filme que consegue conciliar um contexto político com uma história interessante, direção e atuações acima da média.

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  1. Usuário Kiko: Desnecessário grandes explicações, né? Seja você um desocupado ou um amigo passando-se por um fake, não tenho tempo nem disposição para esse tipo de coisa.

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