Ladrões de Bicicleta (1948)

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Eis o clássico dos clássicos do cinema italiano, o filme que será encontrado em qualquer lista respeitável de melhores filmes já feitos, produção que ostenta uma imponente nota 8.5 no IMDB e que possui mais críticas repletas de elogios do que o Speed Racer e o Sucker Punch juntos somam reviews equivocados. Não sei vocês, mas confesso que tenho um pouco de medo de filmes assim. Medo de não entender, medo de não gostar, medo de não conseguir perceber o que aos olhos dos outros parece ser deveras óbvio. Quando trata-se de filmes antigos, há ainda o risco de não valorizarmos certos aspectos por eles terem sido transformados em fórmulas e usados exaustivamente nos anos seguintes (comentei mais sobre isso aqui). Bem, no final das contas, é apenas um filme, certo? Tudo que eu havia lido sobre Ladrões de Bicicleta era empolgador, mas nenhum daqueles elogios poderia substituir a experiência de assistí-lo, substituir o prazer ou o desgosto que a obra provocaria. Então eu assisti, oras!

Quando trata-se de clássicos, a minha maior curiosidade é sobre o roteiro. Mais do que saber da parte técnica, se há uma boa atuação ou uma cena memorável, eu fico curioso sobre a história. Ladrões de Bicicleta traz como protagonista Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um homem que acaba de conseguir um emprego para colar cartazes em paredes, oportunidade de ouro na Itália economicamente arrasada do período pós-Segunda Guerra Mundial. Para trabalhar, Ricci necessariamente precisa possuir uma bicicleta, a qual ele adquire após sua esposa vender alguns bens da família. O sonho justo de Ricci de conseguir dinheiro para cuidar da sua família parece chegar ao fim quando um ladrão aproveita um momento de distração para roubar-lhe a bicicleta. Desesperado, Ricci junta-se ao filho, o pequeno Bruno (Enzo Staiola), e sai para procurar o ladrão e o objeto roubado.

Simples, não? Lê-se em várias resenhas sobre o fato do diretor Vittorio De Sica ter usado apenas atores “amadores” para dar veracidade à trama bem como sobre o uso da câmera inovadora que acompanhava os personagens em sua movimentação e que capturava ambientes externos em uma época onde os cenários de estúdio imperavam. Sim, tudo isso está lá e merece ser reconhecido. Não pense, porém, que Ladrões de Bicicleta é desses filmes que “merecem” ou “exigem” as coisas.

Desde o momento que Ricci compra sua bicicleta e sai carregando-a no ombro cidade à fora, estabelece-se um vínculo emocional sincero entre o personagem e o espectador. Vemos um cara legal que está tentando sustentar a família, um pai que leva o filho para comer pizza, um marido apaixonado que anda de bicicleta pela cidade carregando a esposa. Quando a tal bicicleta é roubada, roubam também todos os sonhos do personagem de ter uma vida melhor e honesta (em um diálogo particularmente tocante, Ricci diz para um policial indiferente ao seu problema que ele não sabia o quanto aquela bicicleta era importante, não fazia idéia de tudo que ela significava pra ele).

Acompanhando esse drama, há ainda a “aventura” de pai e filho para reaver o meio de transporte. Eles enfrentam o descaso da polícia, a falta de empatia da população e o azar contínuo que os coloca frente-a-frente com o ladrão sem de fato lhes oferecerem uma chance de pegá-lo. Não convém, por mais tentador que seja, comentar sobre o final, mas é bonito, tocante mesmo, ver a inversão de papéis que ocorre quando o filho acolhe o pai em uma daquelas cenas que tu vê uma vez e nunca mais esquece.

Ladrões de Bicicleta tanto pode ser visto como um filme italiano preto e branco de 1948 quanto pode ser apreciado como uma história simples e emocionante sobre família, ética, carinho e sacrifício. A primeira forma impressiona mais, principalmente para comentar sobre, mas a segunda, a que realmente importa, é garantia de uma experiência única.

Outro dos belos cartazes do filme

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