Abutres (2010)

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Em uma manhã que converteria-se no início de um dos dias mais tristes da minha vida, ligaram na minha casa para informar que o meu avô havia sido encaminhado para um posto de saúde após passar mal na rua. Chegando lá, eu o restante da família tivemos que lidar com a notícia que ninguém nunca está preparado para receber: meu avô faleceu dentro de um ônibus vítima de um ataque cardíaco fulminante. Perdido no meio do turbilhão de sentimentos daquele momento, descontei parte da minha frustração em uma funcionária do local que, sob a desculpa de “estar apenas fazendo o trabalho dela”, insistia para que eu tomasse decisões sobre detalhes da autópsia e, de quebra, aproveitava a “oportunidade” para tentar me oferecer os serviços de uma funerária.

Além de ser o título do filme e nome dos pássaros que dependem da morte de outros animais para alimentarem-se, Abutres (mais especificamente abutre, no singular) é o apelido de Sosa (Ricardo Darín), um ex-advogado que percorre hospitais e cenas de acidente de trânsito à procura de clientes para sua empregadora, uma agência especializada na execução de apolices de seguros. Completamente imerso nessa “indústria da morte” que funciona com a ajuda de médicos e policias corruptos, Sosa encontra motivos para mudar de vida quando conhece Luján (Martina Gusman), uma médica que, para salvar as vidas cujo fim trazem lucro para Sosa, trabalha intensamente e mantém-se acordada as custas do uso de drogas. Inspirado pelo idealismo de Luján, Sosa tenta reaver sua antiga profissão de advogado para trabalhar honestamente ajudando vítimas de acidentes, momento onde ele descobre que as pessoas que lucram com o serviço dele não estão nenhum pouco interessadas nessa espécie de redenção.

Apesar de dedicar alguns momentos para mostrar a frieza com a qual as vítimas desses acidentes são tratados, o filme do diretor Pablo Trapero não é focado nesse lado “emocional” das tristezas e perdas provocadas pelos problemas da saúde pública. O Sosa de Darín e a conscientização que o personagem experimenta durante a história, a qual é em muito influenciada pela morte acidental de um de seus amigos, não estão ali para mostrarem a capacidade do espírito humano de mudar e praticar boas ações. Trapero usa de ironias e de um certo humor negro para, naquela fantástica sequência final, nos mostrar que a “justiça” do mundo acontece muito mais devido ao fatalismo e ao acaso do que pelas “mãos” do nosso sistema de governo sujeitos as falhas e corrupções do ser humano.

A narrativa, que termina voltando ao início com doses cavalares de frieza e indiferença, é sombria e desoladora, é como se o diretor estivesse dizendo para os envolvidos nessas atrocidades que uma hora ou outra eles serão vítimas do mal que praticam. Ótimo filme.

O diretor Pablo Trapero e sua mulher, Martina Gusman (ela aparece pelada no filme :$)

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