Forever James Dean (1988)

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“Os imortais de Hollywood. Clark Gable. A carreira de Clark Gable duraria 30 anos. Ele nos deixaria 67 filmes. Humphrey Bogart. A carreira de Humprey Bogart duraria 27 anos. Ele nos deixaria 80 filmes. Gary Cooper. A carreira de Gary Cooper duraria 35 anos. Ele nos deixaria 92 filmes. James Dean. Um novo tipo de astro. Sua carreira cinematográfica duraria somente 16 meses. Ele nos deixaria apenas 3 filmes. Mas sua presença seria tão dinâmica, e sua obra, tão extraordinária, que lhe valeria um lugar entre os imortais de Hollywood.”

O texto acima é narrado pelo ator Bob Gunton no início do documentário Forever James Dean. Após refletir um pouco, cheguei a conclusão de que esse texto, apesar de muito bem elaborado, pouco ou nada diz para a nossa geração. Se Dean, que até hoje é associado a imagem da juventude e da rebeldia, não é conhecido fora do círculo de cinéfilos, o que dizer do Clark Gable, Gary Cooper e Humprey Bogart. Duvidam? Experimentem perguntarem sobre o ator para pessoas que não interessem-se muito por cinema ou cujas leituras e interesses limitem-se aquilo que lhes é contemporâneo. O objetivo dessa reflexão não é questionar o título de “imortal de Hollywood” que o documentário atribui ao ator, mas sim procurar apresentá-lo de forma menos dogmática, livre desse véu de respeito e veneração que não correspondem àquilo que Dean representou em vida.

Interessado por arte, por carros de corrida, bonito, imprevisível e com um método de atuar que em muito assemelhava-se ao utilizado pelo Marlon Brando (o famoso Método Stanislavski), Dean é muitas vezes comparado a um cometa por conta de sua carreira singular e rápida. Como pode ser visto no documentário, as pessoas só foram saber quem ele era depois de sua morte, a qual aconteceu no dia 30 de setembro de 1955 quando ele bateu seu Porsche Spyder em outro carro em uma estrada do estado da Califórnia. Nesse mesmo ano, chegariam às telas do cinema os filmes Juventude Transviada e Vidas Amargas, o primeiro responsável pela eternização de sua imagem de rebelde, com o topete e a jaqueta vermelha e o segundo aquele onde ele realmente mostraria a que veio em uma performance poderosa comandada pelo diretor Elia Kazan que lhe renderia uma indicação póstuma ao Oscar. O que aconteceu foi que, quando algumas pessoas foram ver esses filmes, Dean já havia morrido. Paralelo óbvio mas elucidativo, vivemos a mesma situação recentemente com o Heath Ledger. Ledger também não era exatamente aquilo que pode-se chamar de estrela antes de sua morte (não estou falando de talento, mas de popularidade). Quando a morte do ator foi anunciada, tanto gerou-se um interesse enorme em cima de seus trabalhos inéditos (O Cavaleiro das Trevas e O Fantástico Mundo do Dr. Parnassus) quanto criou-se uma certa aura mítica ao redor de seu nome, com pessoas “redescobrindo” alguns de seus filmes e lhes dando mais valor do que fora dado na época de seus lançamentos.

Em favor de sua “mitificação”, Dean ainda teve um modo de vida que quebrava com muitos valores da família americana tradicional da década de 50, característica que os diretores que trabalharam com ele souberam aproveitar muito bem nas telas, alguns transformando-o em uma espécie de herói incompreendido, outros para representar a decadência da moral e dos bons costumes, como pode ser visto um ano depois de sua morte no conservador e saudosista Assim Caminha a Humanidade,  o qual para esse que vos escreve é fácil o melhor trabalho do ator. Como o ambicioso Jett Rink, Dean não apenas ofuscou nomes como Elizabeth Taylor e Rock Hudson como, assim como o Marlon Brando fez com uma luva no Sindicato dos Ladrões, produziu uma cena de improvisação simplesmente fantástica usando um laço.

O documentário traz essas informações e outras curiosidade sobre o início da carreira de Dean (ele teria começado em um programa de auditório), entrevista com atores que contracenaram com ele e fatos que mostravam que, 33 anos após sua morte, seu nome ainda vivia e continuava a ser celebrado. Forever James Dean, no entanto, não é indicado para quem queira conhecer o ator. O “endeusamento” que fazem dele, como eu disse no começo do texto, não é o melhor caminho para fazer alguém interessar-se por seus filmes. Dean precisa ser visto, só assim para compreender-se os motivos para tantos elogios. Como diria um amigo após assistir Juventude Transviada, “que perda meus amigos, que perda!”.

Dean e Elizabeth Taylor em Assim Caminha a Humanidade

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