Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970)

Padrão

Quem já foi vítima do abuso de poder de alguma autoridade sabe o quanto isso pode fazer alguém sentir-se impotente e revoltado. Não sou evangélico, mas vou aproveitar a oportunidade para “dar o meu testemunho”: reprovei na minha primeira tentativa de tirar habilitação para pilotar moto. Por que? Simplesmente porque o avaliador INVENTOU que eu deixei a moto desligar durante o percurso. “Parece que você está nervosinho, filho!?! Se a gente disse que desligou é porque desligou, aqui quem manda somos nós!”, eis as palavras dele quando eu, em toda a minha inocência, OUSEI questionar aquele absurdo. “Processa, procura seus direitos”, disseram alguns amigos sensibilizados com a situação. Talvez eu até mereça ser chamado de “entreguista”, mas considero pouco prático, nesse tipo de caso, apelar ao sistema para lutar contra o sistema. Além de ser mais fácil e rápido prestar um novo exame, não consegui ver sucesso em contestar judicialmente a decisão de um policial que certamente deve ter vários anos de serviço, um cidadão que, aos olhos do Estado, é alguém cuja palavra está acima de qualquer suspeita.

Tal qual meu carrasco, o detetive dessa história (o ator Gian Maria Volonté) é um homem sobre o qual ninguém ousaria falar mal. Respeitosamente conhecido pelos amigos como “Doutor”, prestes a se aposentar e ciente do poder e reputação que possui, o personagem decide por em prática uma espécie de teoria social: certo da impunidade, ele mata a amante (Florinda Bolkan) sem preocupar-se em esconder as provas do assassinato.

Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita mostra as investigações que o próprio “Doutor” ajuda a conduzir sobre esse assassinato. Assim como o personagem não faz a mínima questão de esconder sua culpa (criando, inclusive, novas provas e situações incriminadoras), a polícia parece fazer questão de não enxergar o óbvio. Mais do que proteger um colega de trabalho, essa negação do óbvio, a chamada “vista grossa” é um mecanismo de auto defesa que o diretor italiano Elio Petri analisa e critica em seu filme. Não trataria-se, no caso, apenas de condenar uma pessoa, mas sim de colocar a moral e a respeitabilidade de toda a corporação em risco.

Mérito do diretor, o tema complexo é apresentado em um texto repleto de ironias e situações cômicas que não deixam o filme ficar cansativo  nem levar-se mais a sério do que o necessário. A cena, por exemplo, onde o “Doutor” praticamente implora para que uma testemunha reconheça-o e a mesma nega-se por medo, é divertida e elucidativa. O resultado desse belo trabalho foi o Grande Prêmio do Juri do Festival de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1971.

Apesar da apreciação tornar-se mais completa quando há o conhecimento de causa relatado no começo do texto, ela (a apreciação) não depende exclusivamente disso, Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita é um ótimo filme policial, excelente alternativa para quem gosta do gênero mas quer algo que vá além do tradicional mocinho x bandido.

Anúncios

Uma resposta »

  1. Pingback: Por uns Dólares a Mais (1965) « Já viu esse?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s