O Nome da Rosa (1986)

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Eu conhecia O Nome da Rosa pelo título e pela reputação de clássico mas confesso que não fazia a mínima idéia sobre sua trama ou personagens. Aliás, para não falar que eu não sabia NADA, lembro de alguns professores da faculdade citando-o em momentos onde discutia-se religião, mas foi só agora que o motivo ficou claro.

Baseado no livro do escritor Umberto Eco e dirigido pelo francês Jean-Jacques Annaud, o filme passa-se no século XIV e acompanha as investigações que o franciscano William of Barkerville (Sean Connery), auxiliado por seu aprendiz Adson (Christian Slater), conduz em um mosteiro para desvendar uma série de assassinatos. O que a princípio é explicado como uma armadilha de satanás revela-se uma tentativa de silenciar  monges que haviam lido um determinado manuscrito.

O Nome da Rosa possui uma bela reconstituição de época, boas atuações (destaques merecidos para Sean Connery, Ron Perlman e F. Murray Abraham) e um bom mistério que é desvendado aos poucos no decorrer do filme. Acredito que qualquer tipo de público será capaz de perceber e valorizar essas qualidades, assim como acredito que os interessados por história verão nas provocações religiosas do roteiro o aspecto mais interessante do filme.

Como, via de regra, lembramos mais dos professores severos e das matérias em que fomos reprovados, recordo com certa facilidade de estudar a história do riso com a professora Rosângela Patriota. A primeira vista, principalmente para quem não é do curso de História, pode até parecer algo supérfluo, mas saber do que e porque uma sociedade ri revela muito sobre as crenças, esperanças e medos de sua população. Em Nome da Rosa passa-se durante a Inquisição, período onde o riso era condenado pela igreja católica por, segundo eles e de forma bem simplificada, representar a manifestação de uma alma atormentada, um ser tentado pelo demônio que com seu riso pode tanto ridicularizar seus semelhantes como questionar a igreja e deus. O católico desejado pela igreja deveria comportar-se de forma séria e respeitosa, não deixar levar-se pelas tentações do mundo.

Quando investiga, Barkerville identifica um padrão comum nas mortes: todas as vítimas sabiam ler em grego e teriam tido acesso a um certo livro/manuscrito que as autoridades locais fazem o possível para ocultar. O ponto aqui é que o amor e a fé em deus não são estimulados por uma escolha pessoal e racional, mas sim pelo medo, pelo controle sobre o que poderia ser lido, pensado e falado, pela ameaça constante que a fogueira da Inquisição representava para aqueles que ousavam ir contra os padrões.

Atualmente, questões como pesquisas com células tronco e métodos contraceptivos provocam polêmica e demonstram que a influência da igreja ainda é uma realidade, mas esse filme, entre outras coisas, nos mostra o quanto esse poder diminuiu e o quão pernicioso e prejudicial ele já foi.

Rir, rir como arma para desmoralizar/ridicularizar algo ou alguém. Eis o que O Nome da Rosa nos mostra que a igreja temeu durante tanto tempo, eis o que eu permito-me fazer quando leio em um folheto dessa mesma igreja dizendo que o mundo acabará em 2012 com a “corrida do cavalo negro”, queda de meteoros e governos comunistas.

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