Reds (1981)

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Há poucos dias, recebi um folheto da Igreja Católica Apostólica Romana onde anunciavam o fim do mundo para 2012 e descreviam pormenores de todas as calamidades que enfrentaremos até lá, pérolas como o aumento do preço do petróleo (evento que eles chamam de a corrida do cavalo negro), queda de meteoros de pegasus e uma guerra entre o ocidente e o oriente, o qual será liderado pela união das forças russas e chinesas e tentará instalar o “terrível” comunismo no mundo todo. Risadas misturaram-se a sentimentos de revolta e indignação e, mais uma vez, pude confirmar o quanto a ignorância pode ser utilizada como instrumento de poder e alienação. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de conhecimento sobre história sabe sobre os conflitos entre o comunismo e o catolicismo, mas os leigos (e na oportunidade eu fui “presenteado” com a opinião de alguns) associarão a palavra comunismo com algo essencialmente ruim e perpetuarão todos os absurdos  que são ditos a seu respeito.

Sim, o objetivo aqui é comentar o o filme, no caso o Reds dirigido e protagonizado pelo Warren Beatty, mas tal introdução fez-se necessária tanto pela necessidade de expor o absurdo (CORRIDA DO CAVALO NEGRO!) quanto para fazer um contra-ponto à forma que o filme aborda o comunismo, mais especificamente falando o socialismo soviético iniciado após a Revolução Russa de 1917. Reds conta a história de John Reed (Beatty), jornalista simpatizante de idéias revolucionárias e defensor das causas operárias  que, ao lado da esposa Louise Bryant (Diane Keaton), posiciona-se contra a entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial, presencia a Revolução Russa de Outubro e procura levar para o seu país a ideologia bolchevique. Autor do livro Dez Dias Que Chocaram o Mundo, Reed converteu-se em um dos principais nomes da militância socialista na América e até hoje é o único americano cujo corpo foi enterrado na Praça Vermelha do Kremlin.

Diane Keaton e Warren Beatty

Lançado em plena Guerra Fria, Reds me surpreendeu pela forma madura que o socialismo/comunismo é abordado. Se for para dar uma resposta simples, longe de todas as discussões complexas que o tema pede, eu diria que o filme posiciona-se contra a ideologia soviética. No decorrer do filme, Reed passa de um militante cheio de planos para mudar o mundo à um homem desiludido e decepcionado com o rumo dos acontecimentos. O socialismo real revela-se tão burocrático e violento quanto o capitalismo e Reed , inebriado pela causa que defende, distancia-se do povo, da família e de sua individualidade em nome da sensação sedutora de que ele é indispensável para aquele momento histórico. Além disso, o filme ainda usa a personagem da Diane Keaton para criticar a superficialidade e até mesmo a futilidade de algumas causas defendidas pelas mulheres (mas que extendem-se facilmente ao universo masculino) e, em menor escala, ao liberalismo e o anarquismo.

Tais críticas, no entanto, não são apresentadas unilateralmente, não tentam “endemoniar” algo ou alguém. Beatty usou toda sua influência em Hollywood para financiar um épico de mais de 3 horas onde ele pode defender um ponto sem abrir mão de mostrar o “outro lado”. Críticas contundentes são feitas ao autoritarismo americano e a intolerância e ignorância política de alguns de seus compatriotas. Reed não é endeusado nem massacrado. Sua rica e complexa trajetória é vasculhada através de depoimentos de pessoas que conviveram com ele, pessoas capazes de atestar sua força de vontade e inteligência mas que também lembram-se de um homem consumido pelo próprio ego.

Mais uma biografia sobre o jornalista do que um registro sobre a Revolução Russa, Reds triunfa ao oferecer um meio termo para os temas que aborda e mostra-se uma obra poderosa por dar elementos para que o espectador pense por si mesmo independente do caminho mostrado. O trabalho técnico é impecável e nomes como Jack Nicholson e Gene Hackman são belos atrativos. Ganhou 3 Oscars, entre eles o de melhor diretor para Beatty e é indicação certa para interessados em política e para quem sabe que, ao contrário do que se diz, comunistas não comem criancinhas no café da manhã.

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