Espíritos Indômitos (1950)

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Antes de  chocar o mundo com seus gritos de “Stella, Hey Stella!” em Uma Rua Chamada Pecado, Marlon Brando fizera sua estreia nas telas do cinema em 1950 como um paraplégico no longa dirigido pelo Fred Zinnemann chamado Espíritos Indômitos.

Originalmente entitulado The Men (Os Homens), Espíritos Indômitos pode até despertar interesse por ser o debut de um dos melhores atores de todos os tempos (motivo, aliás, que me levou até ele), mas basta assistí-lo para comprovar que suas qualidades tanto são dignas de uma estreia dessa magnitude quanto possuem brilho próprio. Em linhas gerais, Brando interpreta Ken, um soldado que fica paraplégico após ser alvejado por uma bala durante a Segunda Guerra Mundial. Ele é internado em um hospital junto com outros pacientes vítimas do mesmo problema e passa a lutar contra sua nova realidade que envolve sessões de fisioterapia, preconceito e o duro processo de auto-aceitação.

O filme, que abre com um belo texto sobre as lutas que os homens travam durante suas vidas, poderia tranquilamente cair no melodrama e/ou no coitadismo ao homenagear abertamente os paraplégicos e, de forma mais geral, os feridos da guerra que os EUA acabavam de enfrentar. Zinnemann evita esse caminho e opta por mostrar o lado real daquele que convencionou-se chamar “herói de guerra”: Ken, como qualquer outra pessoa, não quer o reconhecimento, compaixão ou piedade das pessoas, ele quer mesmo é voltar a andar. Alimentando-se com falsas ilusões, ele aguarda inutilmente pelo dia em que suas pernas voltarão ao normal. A medida que o  tempo vai passando e a realidade prova-se imutável, Ken apega-se a noiva Ellen (Teresa Wright) para ganhar forças. Ponto chave do roteiro e da proposta do diretor, esse relacionamento balança devido ao fato de Ken querer ser aceito antes de aceitar-se.

Feito como a dose certa de humor e drama, Espíritos Indômitos é um filme gostoso de ser assistido. Durante sua 1h26min, é possível conhecer bem todos os personagens do hospital, bem como solidarizar-se como o Ken interpretado pelo Brando e torcer para que ele consiga lidar melhor com seu fardo. Brando, aliás, ficou cerca de um mês em um hospital para paraplégicos preparando-se para o papel, experiência que ele usou para transmitir angústia, raiva, tristeza e frustração nas falas do personagem de forma bastante natural, aspecto que marcaria toda sua carreira ao longo dos anos.

Temos aqui uma espécie de filme de auto-ajuda que não evita polêmicas abordando o tema da deficiência de forma objetiva mas, acima de tudo, respeitosa e digna, uma bela combinação de argumento e atuação.

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  5. Desses citados acima só não assisti a Nascido em 4 de Julho. Mas sei que o cara que inspirou o personagem de Tom Cruise foi o mesmo que inspirou o personagem de Jonh Voight em “Amargo Regresso”. Esse cara era um ativista nos anos 60 e 70 e foi apresentado a atriz Jane Fonda, que também era uma ativista contra a Guerra do Vietnã. Ela ficou tão impressionada com sua consciência política e coragem de enfrentar a vida numa cadeira de rodas, que resolveu produzir um filme criando um personagem inspirado nele. O resultado foi “Amargo Regresso”, onde ela também trabalhou e que lhe valeu seu 2º ascar de melhor atriz.

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