Vidas Amargas (1955)

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Citei o Sindicato de Ladrões na minha monografia para mostrar um exemplo claro onde a vida pessoal do diretor influenciou diretamente naquilo que ele mostrou em seus filmes. Elia Kazan, que ficou marcado negativamente em Hollywood por denunciar colegas de profissão para o Comitê de Atividades Antiamericanas, fez do Terry Malloy interpretado pelo Marlon Brando uma tentativa de buscar redenção para os seus fantasmas, um personagem que mostrava o mérito em denunciar aquilo que era “errado”.

Em Vidas Amargas, filme lançado um ano após Sindicato de Ladrões, Kazan adapta um romance do escritor John  Steinbeck para novamente conduzir um trabalho que diz muito a respeito do dilema moral que o assombrava. Cal Trask (James Dean) é um dos dois filhos de Adam Trask (Raymond Massey), um homem conservador e austero. Por mais que Cal tente, ele não consegue obter do pai o mesmo amor e carinho reservados ao irmão, o certinho Aron Trask (Richard Davalos). Tentando entender a origem do suposto mal que carrega consigo, Cal descobre que a mãe (Jo Van Fleet), ao contrário do que o pai afirmava, está viva e é dona de um bordel. Cal tenta então agradar o pai a todo custo, mas é quando ele está com a mãe que ele sente-se verdadeiramente à vontade. Pouco a pouco, os conceitos de certo e errado do rapaz começam a mudar e ele entra em rota de colisão com o pai e com o irmão, com o qual ele ainda disputa a bela Abra (Julie Harris).

Conta-se que Kazan tinha problemas com o pai e isso pode ser associado de forma bem literal ao dilema de Cal em Vidas Amargas. O motivo, no entanto, que me levou a introduzir esse texto falando sobre a ligação do diretor com o tema é a forma tentadora e esquemática que ele trabalha os juízos de valor dentro do filme. Tudo aquilo que costumeiramente é considerado bom e certo tem seu valor subvertido no texto de Vidas Amargas. O pai honesto, inteligente e trabalhador revela-se uma pessoa controladora  e intransigente e Aron Trask, o irmão bom e amigável, comporta-se de forma invejosa e imatura quando a “verdade” vem à tona. Cal Trask, aquele que é visto por todos como um rebelde sem causa (foi proposital), conta tanto com o carisma de um James Dean que aparecia para o mundo quanto com um roteiro que relativiza seus erros e o vitimiza perante um mundo repleto de pessoas hipócritas e mesquinhas. Não é difícil entender o apelo que o tema teve para Kazan, que ao que tudo indica via a si mesmo como uma pessoa incompreendida..

Salvo um ou dois exageros (inclua aqui a cena do “abraço”), a atuação de Dean é primorosa e a história , que transita entre vários núcleos (Primeira Guerra Mundial, ética, etc) é atrativa e interessante. Kazan pode até ter sido um dedo-duro, mas ele compreendeu como poucos a essência do anti-herói, pena que ele tenha insistido em mostrá-los em pele de cordeiro. Sempre vale lembrar que Wolverine >>> Capitão América.

Dean em Vidas Amargas

Dean em Vidas Amargas

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