Hard Eight – Jogada de Risco (1996)

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Com Hard Eight – Jogada de Risco, termino de assistir a filmografia do Paul Thomas Anderson, diretor conhecido por seus roteiros complexos e perfeccionismo técnico que renderam os ótimos Boogie Nights, Magnólia, Embriagado de Amor e Sangue Negro.

Debut de Anderson, Hard Eight é um daqueles trabalhos que convencionou-se chamar “filme pequeno”, expressão onde “pequeno” não deve ser entendido de forma pejorativa, mas sim como “minimalista”, “pessoal”. Começa com Sydney (Philip Baker Hall) encontrando John (John C. Reilly) sentado na porta de uma lanchonete e convidando-o para tomar café e fumar. Eles iniciam uma longa conversa e então fica claro o abismo que os separa: Sydney é seguro de si, um homem experiente que está disposto a ajudar aquele desconhecido; John desconfia das boas intenções do estranho e parece ter perdido a esperança em si e no mundo. Após muita conversa, John aceita a proposta do estranho de ajudá-lo a sair daquela situação lastimável e os dois partem para um cassino onde Sydney propõe um embuste que renderá dinheiro fácil para aquele que ele adota como uma espécie de pupilo.

Paul Thomas Anderson tende a lidar com personagens inclinados a fazerem as piores escolhas possíveis na vida para depois buscarem redenção. Isso fica claro no Boogie Nights, com o personagem Dirk Diggler (Mark Wahlberg), e no Magnólia, com todas aquelas pessoas com problemas familiares, mas também pode ser percebido no Barry Egan (Adam Sandler) e sua busca por alguém para amar no Embriagado de Amor e no egocêntrico e inescrupuloso Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) do Sangue Negro.

Em Hard Eight, John recebe todas as chances possíveis de mudar de vida e tornar-se uma pessoa melhor (viver as custas de trapaças em um cassino pode ser considerado algo bom?) e descarta-as em um ato irracional que ele pratica junto com a garçonete/prostituta Clementine (Gwyneth Paltrow). Essa tendência a “fazer merda” do ser humano, teoria que o Dostoiévski desenvolve muito bem na primeira parte do Notas do Subsolo, dita o ritmo do filme e pode ser percebida ainda no título (Hard Eight é uma combinação difícil no jogo de dados em que os personagens arriscam o dinheiro que lhes deveria garantir conforto) e nos trabalhos futuros do diretor.

Apesar da direção caprichada (já estão aqui os belos planos-sequência e a valorização da composição de cena e das interpretações) e do elenco estrelado (além dos citados, Philip Seymour Hoffman e Samuel L. Jackson dão as caras), Hard Eight é considerado um “filme pequeno” principalmente pela forma que é conduzido por Anderson: o filme é lento, os personagens e seus dilemas são imprevisíveis e parece não haver uma direção a ser seguida, um ponto a ser alcançado pelo roteiro. Assiste-se uma história com elementos triviais contada por alguém que vê o desejo de melhorar das pessoas mas que sabe que as vezes esse desejo não é o suficiente para mudar uma vida. O triste é que nem sempre choverá sapos.

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