Meia-Noite em Paris (2011)

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Certa vez, diante da minha empolgação com o Em Busca da Terra do Nunca, um amigo disse algo deveras óbvio mas que é difícil contestar: o impacto de certos filmes sobre nós varia de acordo com o momento que estamos passando em nossas vidas. O carinho dos filhos com a mãe doente interpretada pela Kate Winslet (um drama que pode ser considerado essencialmente como emocionante) me levou as lágrimas, mas eu tive que reconhecer que, fora a qualidade inquestionável do filme, grande parte da emoção que eu senti veio de um problema semelhante que eu enfrentei no mesmo período.

Meia-Noite em Paris, assim como a maioria dos trabalhos do Woody Allen (e digo maioria em respeito a opinião de terceiros que dizem que ele possui trabalhos irregulares, gostei dos poucos que vi até agora) é excelente e pode ser apreciado por todo tipo de público, inclusive por aquele que não interessa-se pelos temas abordados pelo filme (literatura, cinema, pintura) ao ponto de entender todas as referências do roteiro. É inegável, porém, que trata-se de um filme feito especialmente para um determinado tipo de público, um público no qual o próprio Allen parece incluir-se: Meia-Noite em Paris, assim como outros filmes do diretor, é uma conversa de Allen com ele mesmo, um ataque à nostalgia, ao pedantismo e ao pseudointelectualismo eternizado anteriormente em sua obra na cena da fila do cinema do Noivo Neurótico, Noiva Nervosa que dessa vez vem acompanhado por uma reflexão que aponta um caminho, caminho esse que eu procuro seguir há certo tempo e cuja identificação no discurso alheio me fez amar o filme.

Owen Wilson é Gil, uma espécie de consultor de roteiros/roteirista hollywoodiano que está em Paris junto com a noiva Inez (Rachel McAdams) fazendo os preparativos para o casamento. Gil pretende abandonar os roteiros que ele considera clichês e enfadonhos e mudar-se para Paris para escrever um livro e encontrar-se enquanto artista. O escritor sonha com o fervor cultural parisiense da década de 20 enquanto a esposa parece preocupar-se apenas em comprar objetos caros para decorar a futura casa em Malibu que ela tanto deseja. Através de um recurso divertido e nonsense do roteiro, Gil consegue retornar no tempo após ouvir doze badaladas de um sino da cidade e encontra vários de seus heróis, entre eles Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), Ernest Hemingway (Corey Stoll), Pablo Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Salvador Dalí (Adrien Brody), Gertrude Stein (Kathy Bates) e Luis Buñuel (Adrien de Van). O escritor descobre então que a nostalgia é um sentimento atemporal que só pode ser vencido vivendo o presente com intensidade e paixão.

Ultimamente, tenho repetido e praticado muito um pensamento que eu não tenho a pretensão de reivindicar a autoria: nenhum tipo de conhecimento é válido se ele te afasta das outras pessoas ou lhe torna infeliz. O que Meia-Noite em Paris trouxe para complementar esse pensamento é que a arte deve ser apreciada e vivida, não ostentada ou colocada em um altar, usada para sentir-se melhor ou superior em relação as pessoas que nos cercam como o personagem interpretado pelo Michael Sheen faz no filme. Acredito que filmes, livros e etc são fontes de prazer pela experiência que a apreciação deles fornecem em um nível pessoal. Desconfio da sinceridade de pessoas que não perdem a oportunidade de demonstrar o que sabem, pessoas que conversam sozinhas e não importam-se de ter como platéia espectadores que balançam a cabeça com infinitos “ahams”, “tá certo” e “aí é foda”. A impressão que dá é que o prazer vem mais da exibição do que da apreciação.

Com piadas de apelo universal (o rinoceronte do Salvador Dali é um bom exemplo) e cenas onde Allen recompensa quem conhece os temas tratados (a referência ao Anjo Exterminador do Buñuel é a minha favorita), Meia-Noite em Paris tornou-se um dos melhores filmes que eu assisti esse ano: me fez rir, me fez pensar e, assim como o desconhecido O Homem da Terra, me deu vontade de conhecer mais, de ler mais, de viver mais E melhor. Obrigado, Woody Allen.

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  2. Eu amei o filme,as referencias literarias que ele traz e o modo como é conduzido me prendu do inicio ao fim,sai da sala de cinema muito feliz com a escolha do filme,indico a todos.

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